Passeio de barco

Passeio de barco

Chegou ao Brasil menino de seis anos, em 1911, no navio a vapor Zeelandia. Vinha da região de Colônia e embarcaram em Amsterdam. Do desembarque em Santos para a Hospedaria dos Imigrantes. E de lá a família (pai e mãe, e cinco crianças e duas tias) foram para o mato no interior de São Paulo, região de Araraquara, derrubar floresta para construir uma estrada que chega em Nova Europa.

Foi um homem bonito e naturalmente elegante sempre, até os 91 anos de idade. Quanto mais sei deste mundo, tanto mais eu gosto do pai que tive. Para mim jamais foi fechado. O que meus pais (e avós) sofreram durante a II Guerra Mundial é que tornou meu pai uma pessoa mais isolada. Além de que maios tarde, quase aposentado, ele gostava mesmo de ficar lá no sitio dele plantando árvores e hortaliças, tomando banho na cachoeira gelada. Devia ser algo atávico, pois quando uma vez lhe perguntei sobre seus antepassados respondeu apenas: “acho que eram todos camponeses”. Ainda hei de escrever sobre meu pai e sua nostalgia do Reno, cujas águas só reviu já bem velho, quando visitou a Alemanha pela primeira vez aos 72 anos de idade. Porque então eu estava morando em Hamburgo. Reparei como ficou contente numa barcaça ao longo do Reno. E os outros rios da vida dele em que o vi foram em Porto Alegre o Guaíba, bem antes da orla ser urbanizada, e o rio Itaquerê onde ia pescar lambari e levava os filhos pequenos.

Guardo muitas cartas do meu pai, que me escrevia em inglês ou alemão dependendo de onde eu estivesse morando, em português também, é claro.  As cartas que recordo aqui têm todas a ver com guerra, com guerra e paz. Não que meus pais falassem de guerra com as crianças. Pelo contrário, eu só soube da II Guerra Mundial quando ela acabou.

Em 1945, nós pudemos voltar de Nova Europa para Santos. Essa história já contei mais de uma vez.  Em suma: minha mãe ficou morando em Santos com os filhos, que lá chegaram a quatro, e meu pai trabalhava em São Paulo na Fábrica de Brinquedos Estrela. Aquela fundada pelo velho Adler, que recentemente fechou pela concorrência chinesa. Só vinha a Santos fim de semana, todo fim de semana.

Por que traduzo aqui um trecho de carta do meu pai, Hellmut Hoffmann, que recebi quando eu já estava na ONU? É de 4 de junho de 1982, escrita em alemão.  Ele respondia a uma pergunta que eu havia feito em carta de 23 de maio, de por que eu lembrava dele chegando em Santos todo fim de semana (fim dos 1940s ou início dos 1950s), mas não conseguia me lembrar dele partindo. Não sei se a pergunta resultou apenas de alguma das sessões de psicanálise. Mas ele explicou:

“Nos primeiros tempos depois da guerra era difícil encontrar trabalho, e muito mais em Santos, onde o que existia era quase só comércio de café e bancos. Além disso, enquanto alemão, ninguém gostava muito da gente, e claro que todo mundo reconhecia a gente como alemão. Em S.Paulo procurava-se no “Estadão”, é claro, onde havia mais possibilidade de encontrar algo. Quando vocês voltaram para Santos, trabalhei um tempo em S.Paulo com um antigo conhecido de Santos. Depois que achei o emprego na Estrela, trabalhávamos sempre até sábado uma da tarde e em seguida eu ia de ônibus até Santos. Na segunda-feira de manhã eu levantava já antes das cinco e a mamãe ainda preparava um café, e às seis eu já estava sentado no ônibus para S.Paulo. Todas as minhas crianças, e você também, ainda dormiam, e assim você só se lembra da minha chegada. Às segundas-feiras eu sempre tinha em S.Paulo dor de cabeça forte, devido à diferença de pressão atmosférica. Como vocês foram educados de maneira bastante sóbria, não teriam ocorrido, mesmo que vocês estivessem acordados, despedidas sentimentais.”

Pois é, é bem meu pai, que escrevia bonito e claro em alemão, inglês e português, e eu tenho que explicar o adjetivo “sóbria” na última frase.  O que ele usou foi “nüchtern”. Optei pela tradução “sóbria”, mas se perde na tradução, pois “nüchtern” também é calmo, controlado, lúcido, lógico, racional, sensível, de temperamento estável, cabeça fria. Também pode ser o oposto de bêbado (isto é, sóbrio) ou até em jejum total (sem ter bebido nem comido).

Meu pai e minha mãe me ensinaram que amor não se expressa cantando “ai lovi iuuúúú!” nem com mil beijos e abraços, e sim, se expressa com atos e atitudes de cada hora e cada minuto. São esses atos e atitudes que dão significado a “amor”. E assim entendi que foi sóbria a nossa educação e “nüchtern” ficou “sóbria.”

Lembro de uma outra carta que eu e meus irmãos recebemos quando ele comunicou que nossa avó, Lucia De Ponte, tinha morrido e ele teve que enterrar no cemitério público da Prefeitura. Contou como correu por São Paulo de taxi procurando de última hora um cemitério que pudesse recebê-la e não conseguiu, por dinheiro algum, e como depois viu tristemente os caixões em fila sendo levados quase como numa esteira na fábrica. Terminava assim, a carta: “… mit des Geschickes Mächten ist kein ewiger Bund zu flechten” (mal traduzindo: com as forças do destino não há como ter aliança eterna).

Ele sempre gostou muito da sogra e eu sei que depois levou os ossos dela para serem enterrados no Cemitério da Paz no Morumbi, São Paulo. Foi também bem depois que fui descobrir que a frase do fim da carta está em um poema de Friedrich von Schiller, Das Lied von der Glocke (A canção do sino). Começa com a fôrma do sino ainda em barro, depois relata múltiplos labores, dos que plantam e constroem casa e família, e depois o do ferreiro e o da fusão de vários metais que formarão o sino para que o seu som seja puro e forte, e termina quando puxam o sino para o alto da torre da igreja e tocam o sino pela primeira vez:

Jetzt mit der Kraft des Stranges/ Wiegt die Glock mir aus der Gruft/ Dass sie in das Reich des Klanges/ Steige, in die Himmelsluft. / Ziehet, ziehet, hebt! /Sie bewegt sich, schwebt,/ Freude dieser  Stadt bedeute, /Friede sei ihr erst Geläute.

Agora com a força das cordas/Balancem o sino p’ra fora da cova/Para que ao reino dos sons, /suba no ar dos céus/ Puxem, puxem, para que se levante/ Ele se move, flutua/que desta cidade seja alegria/ que seja paz o seu primeiro som.