Racismo

Racismo

Ao amigo Cristovam Buarque, lembrando nossos debates sobre o tema.

Não e sim.  Inverto propositadamente a curial formulação das alternativas, para antecipar minha ênfase na primeira. E me considero insuspeito para fundamentar minha opção, pelas razões que apresento ao final deste texto.

Toda boa taxonomia exige comparações. Não pode haver, no caso, juízos absolutos. Para bem avaliar determinada postura, convém confrontá-la com outras. Podemos, assim, diante dos recentes eventos da Copa do Mundo de 2026, tomar como parâmetros as atitudes da Argentina e dos Estados Unidos. E voltar o olhar para as duas sociedades.

O caso da Argentina é único: um país latino-americano cuja seleção não teve negros, nem mestiços, o que não aconteceu com nenhum país da velha Europa. E cuja torcida exibiu evidentes sinais de racismo, caricaturando seus adversários como macacos. Derrotados, voltaram as costas para os vencedores e até chegaram a agredi-los.

Foram apresentados vários argumentos em sua defesa: que a população do nosso vizinho tem um percentual mínimo de negros (menos de 1%), que aboliu a escravidão muito antes do Brasil, que enquetes embaraçosas realizadas em Buenos Aires não refletem o pensamento de todo o país, etc.

Nada disso os desculpa.  A Grande Buenos Aires concentra quase 40% da população do país, que não tem, como o Brasil, outras cidades importantes a considerar. Por outro lado, os afrodescendentes, que já foram, segundo estimativas, 30% da população, foram eliminados, como bucha de canhão, em conflitos externos, como a Guerra do Paraguai e outras.

É certo que o Brasil também enviou escravos negros para morrer no Paraguai, talvez até mais. E é também certo que os escravizados foram muito mais numerosos aqui, por não ter havido lá o tipo de exploração econômica do tipo “plantation”, que exige mão de obra intensa. Mas a população brasileira é cinco vezes maior que a argentina. E a insignificante minoria atual dos negros na Argentina só reforça a falsa concepção de superioridade dos de origem europeia: italianos, alemães, poloneses, etc. Enfim, para a questão do racismo, a nossa conclusão, no caso deles, é SIM.

Foquemos agora a situação do nosso vizinho do norte. Neste caso, não por causa da seleção, que soube perder, mas pela absurda intervenção do seu presidente, no caso do jogador expulso, contando com a pusilanimidade do presidente da FIFA. Se voltamos o olhar para a sociedade americana, que o elegeu, vemos uma parcela, ainda minoritária, mas crescente, de negros, que, apesar das leis contra a discriminação, sofrem constantes abusos: hostilidades, violências, até mesmo assassinatos. E reagem furiosamente a tais abusos, com manifestações numerosas e até depredações. E há mais um detalhe importante: não há mulatos nos EUA.  Portanto, também neste caso, a alternativa para a questão do racismo é SIM.

Vamos, enfim, ao caso do Brasil. Já é significativa, entre nós, a relação de dispositivos legais que condenam o racismo, respaldados por toda a imprensa. (E não ocorrem manifestações públicas de protesto, em contrário.) Há apenas casos isolados, logo reprimidos, e mais em função da condição social dos supostos delinquentes do que da cor. Se as pessoas de cor são mais numerosas aqui, é apenas pela circunstância da herança da escravatura.

É interessante observar que, pelo critério do autorreconhecimento, os pardos, somados aos declarados negros, são maioria no nosso país.  E, a não ser no caso do “apartheid”, de ignominiosa memória, a discriminação racial sempre se tem exercido, mundo afora, contra minorias. Mas nós somos todos mestiços, mamelucos, mulatos, sem qualquer pretensão à branquidade.

Outro ponto a ressaltar. Nossa história está cheia de exemplos de afrodescendentes que se destacaram na ciência, na literatura e na política, o que parece não ter ocorrido na Argentina, e muito pouco nos EUA. Alguns exemplos: o tribuno Luiz Gama, o poeta Cruz e Souza, o grande engenheiro André Rebouças, o orador José do Patrocínio, o inigualável escritor Machado de Assis, o presidente da República Nilo Peçanha, e, recentemente, o ministro do STF Joaquim Barbosa, o cantor Gilberto Gil (membro da ABL), os irmãos baianos Milton e Nailton Santos, geógrafo de renome internacional e economista diretor da SUDENE, o governador João Alves Filho, de Sergipe, em três mandatos. E se avançarmos no campo feminino atual, vamos encontrar uma vintena de personalidades ilustres que me poupo de enumerar. Em suma: só os afrodescendentes que não conseguiram escapar do círculo da pobreza tiveram limitações em sua realização pessoal.

Como arremate: até a expressão tão usual entre nós – “meu nego, minha nega” – é indicativa de carinho. Se existe racismo aqui, só se manifesta em expressões depreciativas de pessoas idosas, e piadas, cada vez mais objeto de censura, pela preocupação dominante do “politicamente correto”. Podemos dizer que temos uma espécie de “racismo residual”, cada vez menos significativo. E por isso me inclino para a alternativa NÃO, da nossa fórmula inicial.

Por todas essas razões, considero um equívoco a política de quotas raciais adotada no Brasil. Se pardos e pretos somos maioria, qual o sentido das quotas? O que deveria haver são quotas sociais, abrindo-se espaço para todos os pobres, brancos e de cor, nas universidades e no serviço público. Mesmo sabendo que se trata de um remendo, como um pequeno esparadrapo numa grande ferida lacero-contusa. A  verdadeira solução contra a desigualdade só virá com a escola pública de qualidade para todos, como tem apregoado, incansavelmente, o meu amigo Cristovam Buarque.

Não podemos reproduzir aqui o modelo norte-americano, criando um abismo entre brancos e negros, quando não temos nada parecido entre nós. Um branco pobre jamais compreenderá o fato de ser preterido, em algum posto, por um autodeclarado afrodescendente. Estaremos plantando sementes de ódio racial onde não deveríamos, onde não há clima para isso.

É tempo, enfim, de apresentar as razões pelas quais aleguei, inicialmente, minha insuspeição para tratar do tema: minha bisavó era filha de escrava. E foi casada com um branco, possivelmente “cristão novo”, provavelmente azquenazita. A única foto do casal ainda existente não deixa dúvida sobre a negritude de uma e a branquidade do outro. Por isso, em sua numerosa prole de onze rebentos, dos quais nove mulheres e apenas três homens, hoje reproduzidos em dezenas de netos e bisnetos, há de tudo: brancos “rosados” e morenos, cabelos lisos ou crespos, alourados ou pretos, narizes afilados ou grossos.

Quanto a mim, ao tirar minha carteira de identidade, aos dezessete anos, vinha de uma longa temporada ao sol da Praia Formosa, e estava bem queimado. Fui rotulado como ‘moreno”, designação ora abolida (hoje corresponderia a “pardo”). Mas, muitos anos depois, ao renovar a carteira, fui reconhecido como branco. O que posso dizer agora, que vivo permanentemente ao sol de Formosa?  Com certeza, não sou dos mais branquelos da família, e meu cabelo não é liso. Mas nunca cogitei de invocar a minha afrodescendência para obter qualquer vantagem, como também nunca pleiteei indenização pelos anos que passei banido do serviço público, por razões puramente políticas.

Minha bisavó foi uma mulher notável.  Ao morrer, reuniu a família e se despediu, consolando a todos, e alegando que já vivera o bastante. E simplesmente, fechou os olhos. É em sua homenagem que vai este texto, talvez irreverente, para o qual conto com a compreensão dos meus poucos leitores.