Paulo Guedes e Bolsonaro.

 

O Ministro Paulo Guedes na entrevista patética que realizou junto a Bolsonaro na semana passada revelou que sua saga liberal no Governo chegou ao fim. De forma surpreendente afirmou em alto e bom som que há um conflito aberto entre ele e a ala política do Palácio do Planalto. Além disso, revelou que membros do governo foram ao mercado em busca de um substituto. O Presidente fez um frágil pronunciamento de apoio e retirou-se da coletiva de imprensa. A fala de Bolsonaro foi pouco convincente, feita sem firmeza. Para qualquer cidadão com mediana percepção política, Guedes terminou ali sua frustrada missão reformista e liberal no Governo Bolsonaro. Demonstrou fraqueza e subserviência a um Presidente que não deve mantê-lo no cargo por muito mais tempo. O Presidente talvez não o tenha dispensado ou aceito seu pedido de demissão naquele dia porque teve receio que o mercado derretesse ainda mais.  Guedes deveria ter feito o mesmo que dezenove auxiliares- segundo contagem de Elio Gaspari- entre eles Salim Mattar e Mansueto Almeida, o fizeram em diversos momentos de suas trajetórias no Ministério da Economia: pediram para sair ao perceberem que suas agendas não prosperavam e que princípios basilares de responsabilidade fiscal estavam sendo abandonados. Um Ministro fraco não tem poder e não impõe respeito. Não governa sua área. 

Paulo Guedes é um economista de formação liberal que serve a um Presidente que nunca teve essa convicção ideológica, nem na economia nem nos costumes. A parceria foi conveniente a Bolsonaro que precisava de uma plataforma econômica com esse conteúdo para cativar empresários e antipetistas na eleição de 2018. A história do ex-deputado federal Jair Bolsonaro no baixo clero da Câmara é reveladora de sua ideologia. O Ministro, por sua vez, operava no mercado financeiro onde assumia riscos e ganhava dinheiro hoje aplicado legalmente em paraísos fiscais. Nunca teve experiência no setor público, nem estava acostumado a lidar e a negociar com a fauna brasiliense. E essa falta de habilidade e competência foi fatal. Foi jogado ao limbo, lançado ao calvário da política bem ou mal praticada nos corredores e salas do Congresso Nacional. Ele é mais uma vítima do Centrão, os novos donos do poder e dos recursos do orçamento. 

Analisemos a trajetória de Guedes no Governo, especialmente no tocante às reformas. A da Previdência deve ser mais creditada ao Governo Temer onde amadureceu e que só não foi aprovada na sua gestão por causa do “Joesley Day”. Depois dessa reforma e devido às dificuldades políticas do Governo Bolsonaro com o Congresso do qual queria distância e que hostilizava desde a campanha de 2018, nada mais avançava a não ser algumas mudanças microeconômicas infraconstitucionais entre as quais destaco a da liberdade econômica e a dos marcos regulatórios do saneamento, do gás e das ferrovias. O desgaste político de Bolsonaro agravado pela pandemia e o temor do impeachment lançou, então, o Presidente no colo do Centrão. Em tese seria agora mais fácil avançar, especialmente com Artur Lira na Presidência da Câmara. Não foi o caso, porque as reformas -se alguma- não seriam mais do Guedes, mas do Centrão. Observem o que aconteceu com a PEC Emergencial, uma peça irreconhecível em comparação com sua formulação original, com a Reforma Administrativa jogada para a frente, esvaziada e conservadora nos privilégios, com a Reforma Tributária um arremedo que a todos desagradou e que não prosperou devido à atuação do Senado que a bloqueou por pressão dos governadores. O Senado está elaborando com apoio dos Secretários de Fazenda dos estados, proposta alternativa: a do IVA dual, um para os impostos federais indiretos (PIS, COFINS, IPI) e outro para os tributos de estados e municípios (ICMS e ISS).

Finalmente chega-se ao episódio do financiamento do Auxílio Brasil onde Guedes de forma subserviente aos interesses eleitorais de Bolsonaro cria um malabarismo ao mudar o período de aplicação do indexador do teto de gastos que na prática desrespeita o limite das despesas públicas primárias definido no Governo Temer em 2016.   Isso nos reporta à cena que descrevi no início deste artigo e que sinaliza o fim da Era Guedes. Ali extinguiu-se o pouco da liderança que tinha no Governo. Ficou sem condições de conduzir adiante o pouco que restou de sua agenda. É improvável que continue, mas se Bolsonaro o mantiver até mesmo para tentar resistir às pressões do Centrão, pouco poderá fazer até que sejam consumadas as eleições de 2022.

Guedes pouco entregou, não teve habilidade no trato com o Congresso e, pior, cedeu às pressões de Bolsonaro e do Centrão para abrir os cofres do Tesouro para aventuras populistas em ano pré-eleitoral. Triste fim. Mais graves serão as consequências para a economia e para os brasileiros.

Jorge Jatobá, Doutor em Economia