
Celso Lungaretti
Celso Lungaretti, eterno combatente contra o capitalismo e contra as ditaduras, desde seus anos de secundarista, prepara a publicação do segundo volume do seu livro Náufrago da Utopia. No momento, Celso está hospitalizado, se recuperando de uma queda na qual quebrou uma perna.
Celso sabe que sua primeira luta contra a ditadura militar de 1964-85, que lhe deixou sequelas no corpo, precisou se ampliar com a atual transformação do capitalismo num monstro maior, naquilo que o escritor e político suíço Jean Ziegler, outro combatente recentemente falecido, qualificou de “canibalismo oligárquico”: a acumulação excessiva da riqueza por alguns bilionários paralela a novas regulações trabalhistas que penalizam ainda mais os pobres.
A incansável luta de Celso Lungaretti, iniciada com sua participação na luta armada, continua ainda ativa num blogspot, Náufrago da Utopia, com textos renovados semanalmente. Embora o blog tenha ultrapassado a marca dos 5 milhões de acessos, desde sua criação em 2008, Lungaretti não se lançou com a mesma força nos novos meios de comunicação como Instagram ou nas redes sociais do Youtube e Facebook.
Enquanto aguardo o lançamento do Náufrago da Utopia 2: Memória e Legado, cujo objetivo é o de deixar um legado histórico sobre a geração que enfrentou a ditadura militar nos anos 60 e 70, minha intenção é a de lembrar a participação política de Lungaretti, um dos últimos combatentes daquela época ainda vivos. Ele colaborava com o Observatório da Imprensa, quando Carlos Brickmann trabalhava com Alberto Dines.
No seu primeiro texto, no Observatório da Imprensa, Lungaretti criticava duramente a revista Veja, por um texto relacionado com o movimento MR-8, sob o título Um perigo chamado Veja.
Logo depois, outro texto criticava a colega Mônica Bergamo por ter noticiado. na Folha, o lançamento do livro de Carlos Brilhante Ustra, sem explicar se tratar do torturador do Doi-Codi, cuja ficha criminosa já havia sido publicada, na própria Folha pelo colunista Elio Gaspari, seguindo-se o protesto do colega jornalista Alípio Freire à Folha, não publicado. E o texto de Lungaretti ao ombudsman da Folha, também não publicado.
Destaque também para um texto em memória do jornalista Paulo Francis, “o mais influente jornalista brasileiro do século passado”, para quem “tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação”.
Seu último texto no OI lembra o sofrimento das famílias vítimas da repressão da ditadura, das famílias de seus companheiros mortos pela repressão. Depois de citar Eunice Paiva e Zuzu Angel, conta momentos emocionantes com a família do jovem Eremias Delizoicov, jovem de 18 anos assassinado pela repressão militar. E ainda a família de Massafumi Yoshinaga, que se suicidou depois de libertado pelo DOPS.
Foi também importante a luta de Celso Lungaretti em defesa do italiano Cesare Battisti, junto com Carlos Lungarzo e Eduardo Suplicy, luta da qual participei na Europa com a escritora Fred Vargas.
Descubro tardiamente e com prazer que frequentamos o velho e querido IRFED. Feliz por ter esse ponto comum de um escritor/jornalista que admiro. Parabéns pelo texto sobre Lubgaretti.
Caro Elimar, cheguei em Paris em agosto de 1969, com uma mala sem rodinhas. Logo a seguir, fui para Lyon colocar meu francês ao nível de poder acompanhar aulas universitárias. Havia outros brasileiros, 2 ou 3, fazendo o IRFED. Paraleleamente eu fazia o Institut Français de Presse. Foi a França quem me criou condições para eu sair do Brasil e sobreviver em Paris. No Brasil, minha situação ia ficando difícil depois de ter promovido o Encontro com a Liberdade, no Teatro Paramount, em São Paulo, com o Sindicato dos Jornalistas. E você Elimar, em que ano fez o IRFED ? Imagino ser bem mais novo que eu.
Ssobre essa época e sobre o Encontro com a Liberdade, lhe envio o link do Observatório da Imprnsa.
https://www.observatoriodaimprensa.com.br/voz-dos-ouvidores/em-memoria-de-ivam-de-barros-bella/
Não sei se Celso Lungaretti, em algum momento, pediu desculpas à sociedade por ter ido à televisão dizer que se arrependia de sua luta contra a ditadura militar de 1964. Certamente, fez isso para escapar da tortura, obrigado pelos torturadores. É a imagem que tenho dele, até hoje.
Nem todos resistem completamente à tortura. Marigella, nos idos de 1935, foi um dos heróis. Ricardo Zaratini e Apolônio de Carvalho foram outros, já nos sombrios anos de 1964 em diante. Mas caberia para Lungaretti um “mea culpa” qualquer, que nos fizesse compreender sua atitude, naquela triste circunstância.
Também rotular Paulo Francis de “o mais importante jornalista brasileiro”, seja em qualquer tempo, é demais. Francis passou de um esquerdismo inconsequente a um reacionarismo rancoroso, chegando a rotular os nordestinos de “jecas de uma região desgraçada”. E por isso foi banido de todos os jornais do Nordeste, em uma justa reação liderada pelo Jornal do Commercio, de Pernambuco.
Concordo quase 100% com o comentário de Clemente Rosas. Só faltou a crítica do voluntarismo e aventureirismo dos que defenderam a luta armada contra o golpe de 1964, Marighela inclusive, aventureiro antes mesmo de sua opção pela luta armada.Para mim, a opção pela luta armada foi um erro que as boas intenções e/ou sofrimento de guerrilheiros não consegue apagar, Cesare Battisti inclusive, que deveria, sim, ter sido extraditado quando a Itália pediu. Já Paulo Francis, o que eu entendo da sua reação, é que em dado momento se cansou do vitimismo, saiu-lhe o comentário irritado, porque nessa época também se indispôs com os africanos na ONU. E eu tmpouco acredito em políticas predominantemente preocupadas com a identificação de “coitadinhos” e de “vítimas”. E Paulo Francis, com quem conversava às vezes no meu tempo de Nova Iorque, gostava de provocar, chamá-lo de “reacionário” é injusto.
Tempos atrás eu acompanhava o blog de Celso Lungaretti. Cheguei até a colaborar com alguma ilustração. Também não acho que Paulo Francis seja um dos melhores jornalistas deste país, embora gostasse de lê-lo nas páginas do Pasquim.
Rui, como Clemente, eu também me surpreendi com o aparecimento de Lungaretti no seu artigo. Confesso que não sabia da sua trajetória política depois que saiu da prisão e compreendo que, diante de violenta tortura, ele tenha aceito ir para a televisão e declarar o seu arrependimento. Mas deixou uma imagem negativa. Falava há pouco com Arlindo lembrando que estávamos presos na Segunda Companhia de Guarda e, num determinado dia, o capitão colocou a televisão na frente da grade e assistimos, constrangidos e surpreendidos, a fala de Lungaretti. Não me lembro o que ele falou. Mas foi bem constrangedor.
Por outro lado, concordo com Helga que a recusa do governo Lula a extradir Battisti foi um grande erro. Não se pode considerar o terror praticado por Battisti na Itália como um ator revolucionário e o Estado brasileiro não poderia questionar a respeitabilidade da Justiça Italiana na condenação de álguem. Battisti foi julgado e condenado na Itália por crime comum, nada a ver com atos revolucionários por mais que se refugie neste argumento. Aliás, eu publiquei, na época, uma artigo na revista Será sobre o tema. Afinal, a Itália é uma democracia e tem instituições. O mesmo conceito me permite dizer que é um absurdo a Justiça italiana não extraditar a bolsonarista que pediu asilo no país, manifestando suspeição da Justiça brasileira.