
Raymond Radiguet
Roland Barthes (1915–1980), em seu sempre atual “Mitologias”, nos diz que “O mito do gênio, decididamente, é impossível destruir”. Sim, e isso dá o que pensar. Na área das artes e da literatura, onde prosperam mitologias de toda ordem, não é raro o uso do termo. Por ora, continuemos com o mito. Segundo Joubert (1754–1824), os “homens de gênio são os que fazem depressa o que nós fazemos devagar”. Nessa linha pragmática, nosso Ruy Castro, em “Mau humor: uma antologia definitiva de frases venenosas”, cita a sábia e jocosa observação do romancista americano Rupert Hughes (1872–1956): “Quando alguém se diz um gênio, só há três alternativas: trata-se de um idiota, de uma fraude ou de um gênio mesmo”.
O prólogo acima é porque, ainda que brevemente, vamos falar de um gênio literário francês: Raymond Radiguet (1903–1923). Não que ele se considerasse, salvo engano, um gênio, mas bem que teve a fama de um jovem prodígio. Sim, as datas, ao lado do seu nome, estão corretas: ele morreu com apenas vinte anos e escreveu sua obra-prima, a novela “O diabo no corpo”, com incríveis dezessete.
Mas Radiguet não foi um gênio incompreendido, pelo contrário: em sua fugaz existência, chegou a sentir o gosto do reconhecimento, sobretudo o que recebeu de grandes artistas de seu tempo. Foi muito próximo do múltiplo Jean Cocteau (1889–1963). Em seu livro “A dificuldade de ser”, Cocteau o compara a Rimbaud, outro prodígio literário, e acrescenta: “Radiguet era livre demais. Foi ele que me ensinou a não me apoiar em nada”. Como numa premonição da própria morte, a certa altura de “O diabo no corpo”, o jovem autor faz seu protagonista dizer: “Eu incandescia, apressava-me, como as pessoas que vão morrer jovens e procuram viver duas vidas em uma”. Num enorme desperdício de talento, a febre tifoide o levou cedo demais.
Comenta-se que o enredo da novela, hoje clássica, inspira-se numa passagem da vida de seu autor: o ter se apaixonado, ainda no começo da adolescência, por uma jovem mulher casada cujo marido fora para o fronte da Primeira Guerra Mundial. Nada que tire o excepcional brilho da sua obra, assim como ocorre com “Os Buddenbrook”, onde outro gênio, Thomas Mann, aos 25 anos, transfigurou episódios e personagens de sua família. Observe-se que Radiguet, ao explorar o tema do adultério, de resto tão frequente na ficção francesa, coloca-o sob um ângulo talvez inédito: o de um “menino” que tem uma “aventura de homem” como, aliás, está dito na própria novela.
Narrada pelo jovem protagonista, a história de “O diabo no corpo” é escrita, como ele sugere em linhas e entrelinhas, sob o signo de um paradoxo da própria adolescência: timidez e audácia. Todavia, há mais audácia que timidez, e para esta colabora a sagacidade pessoal do personagem. A conquista amorosa guinda-o a um plano movediço, no qual se move uma realidade completamente nova, onde se embatem a sua precocidade e a ambiguidade sentimental da heroína. Radiguet consegue, então, manter um distanciamento de qualquer sentimentalismo. Por outro ângulo, ultrapassar limites éticos parece deixar o protagonista e narrador numa iconoclastia tão doce quanto cínica. Para isso, ainda que indiretamente, colabora uma família liberal e compreensiva, embora atenta às convenções. O fluxo narrativo corre pelo leito do paradoxo “timidez e audácia”.
A saborosa ambiguidade de atitudes das personagens não deixa de mostrar uma sombra moral. Não por acaso, o “incipit” da novela é tão taxativo quanto resignado a um julgamento do qual logo se libera: “Vou me expor a recriminações. Mas que posso fazer?”. É como se, de saída, questionasse a parcela de responsabilidade moral que desde sempre nos é imposta. Enfim, sempre algo nos escapa a nós mesmos e nos leva à revelia. Então, o que dizer das aurorais revelações do amor e da potência dos hormônios? Como, a partir de Eros, reconfigurar o próprio mundo em que se vive?! Todavia, a contrafluxo das emoções amorosas, uma reflexão superegoica faz-se presente ao jovem amante, o que pode ser sintetizado com esta passagem: “Pensávamos ser os primeiros a sentir certas emoções, sem saber que o amor é como a poesia, e que todos os amantes, mesmo os mais medíocres, acreditam-se inovadores”.
Naturalmente, mais do que sugerimos até aqui, “O diabo no corpo” guarda uma miríade de agudezas, de imagens poéticas inovadoras, de lances de xadrez psicológico, sem falar que uma tensão perpassa a novela como a provar que prazeres não se confundem com felicidade. No mais, o(a) leitor(a) se depara com um ritmo ágil e com um estilo em que pontos de vista e seus contrapontos são ansiosos vizinhos e nos excitam pelo poder do contraditório e da imaginação. Logo chegamos ao fim do livro, já que não nascem ramificações da trama única e singela, mas a obra por muito tempo continuará a deitar raízes dentro de nós.
Não há diabo nem diabo no corpo, há, sim, uma “temporada no inferno”, sem a qual, ao que parece, não nascem grandes obras literárias. Entre timidez e audácia, o gênio de Radiguet preferiu a audácia. Ela o levou à sua obra-prima.
Quanto às diversas formas de rotular os que se proclamam “gênios”, fico com a primeira. Até porque o juízo de genialidade tem uma forte medida de subjetivismo. Conheço o livro, e vi o filme inspirado nele. Quanto a este, repudio a exploração do erotismo, de inspiração comercial, que se faz de uma história narrada com sobriedade, apesar do título de “O Diabo no Corpo”.
Não me causa estranheza a precocidade do autor. Nossa Rachel de Queiroz também escreveu “O Quinze” aos dezessete anos. Rimbaud foi precoce. E Françoise Sagan também foi precoce. Aconteceu com esta o que imagino ter ocorrido também com Radiguet: a notoriedade veio com um comportamento que feriu os padrões sociais convencionais. No caso de Sagan, a insensibilidade em relação aos laços familiares. No de Radiguet, a indiferença diante do quadro político do seu país em guerra: teve “une affaire d’amour” com a esposa de um oficial combatente na guerra de 1914/17. No de Rimbaud, o caso proibido com Verlaine.
No mais, só tenho a cumprimentar nosso colaborador, sempre a nos enriquecer com sua riqueza verbal e suas surpreendentes citações.