IA

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Sou um tradicionalista em termos de tecnologia. Mudanças me perturbam. Tenho um microcomputador de mais de dez anos, e ele me serve muito bem. Como máquina de escrever e para apoiar algumas buscas na internet, é mais do que suficiente. Ainda assino os serviços da Microsoft e não quero mudar. Esse software eu domino.

Meu velho orientador de mestrado, com quem tenho o privilégio de almoçar pelo menos uma vez por mês, sempre insiste nas maravilhas das plataformas abertas e na necessidade de me readequar. Para quê? Tenho tudo de que preciso na minha velha máquina e não acho ruim pagar quinhentos reais por ano para manter-me na confortável inércia de não mudar.

A onda agora são as lives, em geral virtuais. Tive de me adequar. No início era o Zoom. Depois vieram o Google Meet e o Microsoft Teams. Até aí, tranquilo, sem muita sofisticação.

Na semana passada, chamaram-me para uma apresentação virtual. Ao entrar, vi que seria em outra plataforma, da Rede Nacional de Pesquisa. Todos os meus colegas já a utilizavam. Para mim, uma complicação. Primeiro, para configurar o áudio; depois, para compartilhar a tela. Passei cerca de meia hora me adaptando. Daqui a pouco surgirá outra plataforma e, com minha aversão às mudanças, sei que voltarei a ter dificuldades. Nada, porém, que não possa superar.

Esses são detalhes. Há algo mais essencial. A onda agora é a inteligência artificial. Estou trabalhando numa pesquisa sobre digitalização na indústria regional. Algumas observações iniciais fazem-se necessárias.

Nas empresas, o uso começou com o famoso ChatGPT, da OpenAI. A novidade pegou, e os modelos Claude, da Anthropic, entraram com força. O Gemini, do Google, e o Grok, da xAI, também ganharam espaço.

Nos últimos anos, nota-se uma mudança significativa. Empresas chinesas, como DeepSeek, Alibaba e Baidu, passaram a conquistar parcelas importantes desse mercado. Oferecem custos muito mais atrativos, com características operacionais semelhantes às das empresas americanas.

Críticos afirmam que essas empresas foram financiadas pelo governo do grande país asiático e que seria preciso cautela, pois tudo aquilo que se oferece gratuitamente faz de você o produto. Como? Seus dados ficariam armazenados em bases chinesas e poderiam ser facilmente manipulados.

O que pouco se diz é que, no caso dos serviços em nuvem, isso também pode ocorrer com modelos americanos ou europeus.

Anos atrás, assisti a uma palestra sobre a Web, ainda em seus primórdios, ministrada por um pesquisador pernambucano. Ele dizia que nada do que se coloca nessas plataformas pode ser considerado realmente secreto. Quando há interesse, tudo acaba se tornando de domínio público.

Um especialista em inteligência artificial, com todos os “pedigrees” acadêmicos, consultado sobre o tema, afirma que “a segurança e a privacidade de um modelo de IA não dependem de sua origem, mas da arquitetura de implantação, da conformidade jurídica e dos controles adotados. Modelos chineses ou americanos podem ter diferentes fontes de investimento, mas isso não determina o nível de proteção de dados”.

Mais adiante, acrescenta: “Softwares gratuitos podem ser seguros por meio de código aberto, enquanto serviços pagos podem coletar dados por telemetria.”

E ressalta ainda: “Não é possível concluir que um modelo seja inseguro apenas por ser chinês, indiano ou de qualquer outra origem, nem que seja seguro apenas por ser pago ou americano. A avaliação deve ser baseada em requisitos técnicos.”

Esse debate, evidentemente, envolve aspectos ideológicos e preconceitos já estabelecidos. No entanto, convém notar que, para médias e pequenas empresas, que têm muito a ganhar com o uso da inteligência artificial e não possuem tantos segredos capazes de torná-las vulneráveis diante da concorrência, contar com ferramentas de menor custo e capazes de agilizar e reorientar suas atividades é algo extremamente interessante. Isso vem sendo observado tanto em escala mundial quanto regional.

Um sujeito criado na era analógica, vendo todas essas transformações, que acabam se convertendo em querelas e embates por razões meramente ideológicas, fica naturalmente confuso.

Como gosto dos chineses, voltarei aos ábacos, que eram muito mais seguros.