Trump e a FIFA

Trump e a FIFA

Quem quiser conhecer um país, leia seus poetas. E ouça seus políticos. Os Estados Unidos são exemplares. Nos dois sentidos. A poesia moderna norte-americana, no século XIX, tem um nome: Walt Whitman (1819-1892). Pai do verso livre. Pela autoria de Folhas de Relva. Assim começa: “Eu me celebro, e o que eu presumo que você também deverá presumir, pois cada átomo que me pertence, também pertence a você”. Mas, o nome poderia ser Carl Sandburg (1878-1967). Aí vai: “Eu sou a grama e cubro tudo; os mortos de Austerlitz e Waterloo, enterra-os e deixa-me trabalhar; dois anos, dez anos, os viajantes perguntam ao condutor; que lugar é este ? onde estamos agora ? Eu sou a grama, deixa-me trabalhar”.

O sentido profundo destes dois dos maiores poetas daquele país remete a trabalho, a migração e a respeito. E o que refere a estes conceitos, relaciona-se a honra. Quem respeita o trabalho e a migração, é honrado. Os Estados Unidos, somente em poucas ocasiões, deixaram de honrar o trabalho e a migração. Pois não são o produto de larga migração e muito trabalho ?

A Copa do Mundo de 2026 tem muito a ensinar. Em três capítulos. O primeiro capítulo foi a cínica entrega de troféu celebrando a paz. Feita pelo presidente da FIFA ao presidente norte-americano. Desnecessariamente. Acocorando-se. Num gesto servil. Que apenas reforça vocações autoritárias. Italiano, como é, o dirigente da FIFA deveria ter se lembrado do escritor Alberto Moravia. E seus Contos Romanos. Nos quais ele fala sobre a gente simples e trabalhadora de Roma. E dignifica o povo italiano de maneira altiva.

O segundo capítulo foi o bizarro pedido, uma quase-ordem, do presidente estadunidense ao mesmo presidente da FIFA. Determinando que a expulsão de um jogador da seleção norte-americana fosse tornada sem efeito. Para ajudar, extracampo, eventual vitória dos americanos. A reação veio a cavalo. A expulsão foi vergonhosamente desfeita. E a derrota dos norte-americanos soou rápida.

O terceiro capítulo foi a vitória da Argentina sobre a Inglaterra, de virada, na semifinal do torneio. 2 x 1. A história desse jogo merecia crônica de Nelson Rodrigues. Que, com sua verve genial, saberia retratar o feito épico dos argentinos. A partida foi um tango transformado em ópera de Piazzolla ? Os gols foram uma inspiração eterna, inscrita nas estrelas, desenhando versos de Jorge Luis Borges ? A virada, no segundo tempo, terá sido um sonho de Adolfo Perez Esquivel, argentino detentor do prêmio Nobel da Paz de 1980 ? Ou a energia hercúlea da seleção argentina, anulando a esquadra de Wellington no gramado, foi oração soprada pelo Papa Francisco ?

Hoje, eu sou latino-americano. Sou argentino. Sou Piazzolla, Sou Esquivel. Sou o motorista de taxi de Buenos Aires que, na calle Corrientes, semana passada, ao volante, declamou uma canção para brasileiros. Fraternalmente.