
Sobrados e Mocambos
Não tivesse Gilberto Freyre escrito “Casa-grande & senzala” (1933), “Sobrados e Mucambos” (1936) teria se fixado como sua obra-prima. O livro, como se sabe, é uma continuação da história social do patriarcado brasileiro iniciada pelo primeiro e, a rigor, “originalmente planejado para ser parte daquele” (Cf. “Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre”, de Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke; São Paulo: Editora Unesp, 2009). O subtítulo, por si mesmo, anuncia a vastidão do tema: “Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano”.
A propósito da importância dessa obra para o próprio Freyre, trago aqui, por curioso e pertinente, o testemunho pessoal do historiador e sociólogo Vamireh Chacon em sua palestra “Significado de ‘Sobrados e mucambos’”, inserida no livro “Sobrados e mucambos: entendimento e interpretação”, organizado por Edson Nery da Fonseca e publicado pela Editora Massangana em 1996. Confessa Chacon: “Eu mesmo perguntei a Gilberto Freyre qual livro seu da sua íntima predileção. Insinuou-me, apenas insinuação, ‘Sobrados e Mucambos’ ao lado de ‘Nordeste’, por mais que se sentisse preso a ‘Casa-grande & senzala’. Também ele fora menino de sobrado, não menino de engenho”… Mas não conta apenas nesse caso o passado infantil, conta mais, creio, a própria lucidez de Freyre. De resto, para alguns especialistas, “Sobrados e mucambos”, na esteira do autor, é que seria a sua verdadeira obra-prima.
Se há uma continuidade com o famoso “opus magnum”, a começar pela homologia dos títulos e pela sequência historiográfica, também, por outro lado, há, quanto a forma geral, uma descontinuidade, apresentando-se “Sobrados e mucambos” como um livro mais apolíneo que “Casa-grande & senzala”, ensaio que teve um ímpeto e um pioneirismo, por assim dizer, dionisíacos, para usar aqui uma distinção nietzschiana tão do gosto do autor.
Evidentemente, numa e noutra obra, o autor se detém numa de suas obsessões de antropólogo, sociólogo e historiador social: a casa, em especial em sua relação com a formação social do brasileiro. O tema voltaria a ser monograficamente retomado com a publicação, em 1979, de “Oh de casa! Em torno da casa brasileira e de sua projeção sobre um tipo nacional de homem”. Nesse livro, numa “Nota do autor”, Freyre reconhece que, ao lado do que é inédito, “Há repetições que são ênfases quanto a aspectos do assunto que o autor considera sob perspectivas porventura novas […]”. “Repetições”, grife-se, um assumido e inconfundível hábito estilístico-hermenêutico freyriano.
À semelhança do que vemos em “Casa-grande & senzala”, também em “Sobrados e mucambos” é um espírito proustiano que guia o autor. É ele próprio quem o diz na “Introdução à segunda edição”: “Do passado se pode escrever o que Proust escreveu do mundo: que está sendo sempre recriado pela arte. E quase como a arte pode ser a ciência, busca ou procura de realidade complexa que adormeça em fatos aparentemente mortos tanto como em naturezas chamadas igualmente mortas: uns e outros valorizados e incorporados ao conhecimento humano pelo impressionismo revelador de aspectos equívocos ou fugazes de realidade ostensivamente viva ou aparentemente morta”. Peço perdão por essa tão longa quanto necessária citação, uma vez que nela se vislumbra o próprio ânimo criador de Freyre, toda uma lente com que escreve as suas obras.
Se quero apresentar o livro aniversariante, sem a pretensão de falar para especialistas, devo dizer, embora numa síntese infinitamente redutora, que, entre os polos emblemáticos e icônicos do título, “sobrado” e “mucambo”, estende-se toda uma ampla paisagem social. Paisagem esta que recobre os séculos XVIII e XIX e é explorada em relação a personagens e tipos (pai e filho, mulher e homem, bacharel e mulato, brasileiro e europeu), além de pares como casa e rua, engenho e praça, Oriente e Ocidente, com destaque para a miscigenação do povo brasileiro, um tema sempre nuclear para o autor. Freyre nada de braçada no que os historiadores da Escola dos Anais chamaram de “longa duração”. A “Sobrados e mucambos”, suponho, também se aplicariam as palavras do grande historiador Fernand Braudel sobre “Casa-grande & senzala”: “O milagre crucial foi ter sabido como juntar uma narrativa histórica exata e cuidadosa com uma sociologia fina e impecável”, como mencionado por Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke no livro já citado.
Finalmente, a propósito de mocambos (palavra cuja atual grafia é exclusivamente com a vogal “o”), relembro, “a latere”, que, durante o Estado Novo, Freyre polemizou com o governo do interventor de Pernambuco Agamenon Magalhães. Polêmica que se deu em 1939, quando Magalhães lançou a Liga Social contra o Mocambo, uma campanha pela erradicação desse tipo de habitação popular. O historiador Gustavo Mesquita, professor da Universidade de Brasília, em seu premiado livro “Gilberto Freyre o Estado Novo: região, nação e modernidade”, toca no polêmico ponto (Em “Oh de casa!”, um capítulo volta ao tema: “Mucambos do Nordeste como exemplo do tipo mais primitivo de casa popular brasileira”).
Segundo Mesquita, o sociólogo achava que “O poder público deveria resolver os problemas de insalubridade [no Recife, os casebres ficavam, geralmente, em áreas alagadiças] dos ambientes ao redor dos mocambos, mas não demolir as casas construídas com matéria-prima nativa e adequada ao clima tropical”. Freyre e intelectuais aliados buscaram a revogação de tal política cujo propósito “atendia o interesse do interventor de afastar o proletariado urbano da doutrina marxista da luta de classes, costurando certo consenso sobre a importância do saneamento básico […]”. Para o autor pernambucano, que correu o risco de ser mal interpretado e tido por pitoresco, “era algo negativo” “mudar a identidade afro-brasileira das duas cidades [Recife e Rio] sem observar a demanda pela valorização desse modo de ser autóctone e benéfico para a vida social sob o condicionamento agreste dos trópicos […]”.
Polêmicas à parte, celebremos os 90 anos deste clássico incontornável: “Sobrados e mucambos”.
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