Dom Quixote

Dom Quixote

O papa é Leão, mas quem ruge, independentemente da mordida, é o seu conterrâneo Donald Trump. Como um leão atiçado por demônios, o americano quase não passa um dia sem rugir e ameaçar. De fato, cospe medos e avança como um furioso tirano. Enquanto isso, a “Suspensa” Corte americana guarda um silêncio cúmplice e não menos assustador. Talvez seja o caso de repetirmos como o Quixote: “Leõezinhos a mim?”. Na Espanha, essa frase irônica tornou-se proverbial. É o que garante a bela edição do IV Centenário de “Dom Quixote de La Mancha”, da Real Academia Española e da Asociación de Academias de la Lengua Española, publicada em 2004.

É no capítulo XVII da segunda parte de seu livro eterno que Cervantes nos dá uma aula de literatura, de humor e de coragem, tudo junto e misturado. É lá que lemos o divertido e pedagógico episódio da “aventura dos leões”, não menos cheio de ironia do que todo o resto da obra. O que se passa nesse capítulo é praticamente um nada, a forma de narrar é que é tudo. E a “aventura”, entende-se, é uma ocorrência. Dito isso, cometerei o crime inafiançável de resumir um antológico trecho de Cervantes. Perdoai.

Em companhia de Sancho e de mais outro personagem, Dom Quixote depara-se, numa estrada, com dois homens que conduziam, em duas jaulas, num carro puxado por mulas, um casal de leões presenteado ao rei da Espanha pelo “general de Orán” (então território espanhol na Argélia). Era um costume do tempo presentear os nobres com animais “exóticos”. Animado por, naquele passo, entrever mais uma estimulante aventura, Dom Quixote, depois de saber o que transportava o embandeirado carro, pergunta aos homens: “E são grandes os leões?”. Eram não só imensos como estavam famintos, pois ainda não haviam comido naquele dia. Nesse momento, “sonriéndose un poco”, Dom Quixote sai-se com a famosa frase: “Leõezinhos a mim?”. E, com graça, ainda acrescenta: “E a tais horas?”.

Para espanto de todos, numa reversão de expectativas, o famoso cavaleiro manda que a jaula seja aberta, convencido de que, mais uma vez, feiticeiros lhe enviavam uma armadilha a ser enfrentada. Enfim, ele arrostaria os leões.

Apavorado, o pobre Sancho tenta dissuadir o animoso cavaleiro e explica aos condutores dos animais que seu amo “não é louco, mas atrevido”. Apesar do unânime protesto dos presentes, nada demove o bom Quixote. Então, afastam-se todos para lugares seguros. Sancho logo se desespera e não se aguenta: “Chorava a morte de seu senhor”. Aberta uma das jaulas, o leão, com olhos “feito brasas”, chega à porta do cativeiro e, após olhar “de um lado para o outro”, “voltou para Dom Quixote o traseiro e tornou a deitar-se na jaula, calma e mansamente”. Fecha-se a dita jaula, e  nosso valente cavaleiro não se dá por satisfeito: insiste com o condutor que dê umas pauladas no leão, que irrite e solte a fera. A rogos e razões do tratador, que também teme por si mesmo, Dom Quixote, já tendo provado a sua coragem, dessa vez termina cedendo, e as coisas voltam à tranquilidade.

Após tão glorioso episódio, seguindo uma tradição da cavalaria andante, o bravo “Cavaleiro da Triste Figura” muda de título e autoproclama-se o “Cavaleiro dos Leões”. Finalmente, num veemente e edificante discurso pontua que que bem sabe que a coragem “é uma virtude que está entre dois extremos viciosos: a covardia e a temeridade”. Ao se dirigir a Sancho, diz ainda: “Acaso existirão encantos que possam derrotar a verdadeira valentia? Bem poderão os encantadores tirar-me a ventura; mas o esforço e o ânimo, será impossível”.

Eis aí, amigas e amigos, uma lição e uma fábula para os nossos dias de leões que rugem e não rugem, de medos que reclamam tanto a coragem quanto o equilíbrio. Há que se saber resistir. Como escreveu o grande poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942–2007): “O medo cria músculos e sólidos ossos / nas nuvens do céu. / O medo aumenta o perigo / e diminui os homens”.