Amazônia em chamas

Amazônia em chamas

A primeira página do jornal suíço Le Temps, sobre uma foto de fumaça e chamas consumindo árvores, perguntava: Na Amazônia, os cactus suplantarão as árvores?

A indagação se baseia em estudo publicado esta semana na revista Nature Communications, que revela as desastrosas consequências climáticas da desflorestação da região, acompanhada pela redução constante das chuvas e da umidade. O resultado seria uma gradativa transição para um clima semiárido, semelhante ao do Nordeste, com a substituição das árvores frondosas por moitas de cactus, areia e poeira.

Após uma leve redução no desmatamento da Amazônia, logo depois da eleição de Lula, as taxas voltaram a crescer desde meados do ano passado, impulsionadas pelas queimadas criminosas destinadas a abrir imensas pastagens de gado. Esse rebanho, por sua vez, exige vastas áreas de soja, grande parte voltada à exportação.

Outro estudo, divulgado no ano passado, já alertava para o risco de atingirmos um ponto de não retorno por volta de 2050, em extensas áreas da Amazônia, com o colapso do ecossistema e mudanças climáticas irreversíveis. A floresta deixaria, assim, de ser reguladora climática global e perderia seu papel essencial de preservação da biodiversidade.

A poucos meses da COP 30, conferência climática da ONU em Belém, essas notícias soam alarmantes. O desmatamento soma-se a outros sinais preocupantes: o derretimento visível de geleiras em todo o mundo, deslizamentos de encostas causados por chuvas extremas e a elevação do nível dos mares, acompanhada de temporais cada vez mais intensos nas zonas costeiras.

Segundo a RTBF (televisão belga), a Floresta Amazônica deixou de ser o “pulmão do mundo” há cerca de dez anos, emitindo hoje mais carbono do que absorve. Apenas nos últimos três anos, perdeu mais de 11 mil km² de cobertura florestal — o que equivale a 17% de sua área nativa. À medida que o desmatamento avança, savanas substituem a mata e a temperatura sobe pela ausência da umidade antes gerada pelas chuvas. A previsão é que até 2035 a temperatura regional aumente em 2,6 graus, provocando secas e a instalação de uma vegetação semelhante à caatinga nordestina.

Os impactos não se limitarão à Amazônia. A seca poderá atingir áreas vizinhas, reduzindo o volume de água dos rios e comprometendo o abastecimento das cidades. O centro e o sul do Brasil também sentirão os efeitos, com temperaturas mais elevadas e escassez hídrica, já perceptível em municípios paulistas onde criadores de gado enfrentam falta de água para seus rebanhos.

A única solução para evitar o agravamento dessa tragédia é clara: parar imediatamente o desmatamento na Amazônia.