Pages Navigation Menu

Penso, logo duvido.

Iluminismo brasileiro – Luiz Otavio Cavalcanti

Luiz Otavio Cavalcanti

Os artistas modernistas – 1922.

O Brasil é iluminista. O iluminismo brasileiro é renitente. Vai e volta. Qual fênix. Surge diante de uma crise. Passa. E ressurge diante de nova crise. Intervalo. Até que nova crise o faça renascer. O iluminismo brasileiro é uma cultura. Uma forma de viver. Conviver. Ou mesmo sobreviver.

Foi assim nos anos 20/30. Na crise da República Velha. Que redundou na Revolução de 30. A resposta do iluminismo brasileiro foi a Semana de 22. O Movimento Regionalista (1926). E o Manifesto da Educação Nova (1932).

Foi assim no golpe de 64. Aprofundado no AI 5, em 68. A resposta do iluminismo brasileiro foi a Bossa Nova, o Tropicalismo, a arquitetura de Niemeyer. E a invenção literária de Clarice Lispector e Guimarães Rosa.

1930: novo patriciado nacionalista.

O povo bestializado assistiu o parto da República. Rebento tomado nas mãos ásperas de dois generais: Deodoro e Floriano. Um berço feito de armas. Que se opunham entre si. E permitiam que velhas oligarquias civis continuassem a operar seus domínios.

Mudou o regime. Mas a nação não mudou. As estruturas políticas e econômicas permaneceram dormindo o sono do atraso. Deixando de lado o sonho da transformação social.

O germe da revolta começou a se infiltrar na alma do povo. Criando força. Até tomar o corpo da sociedade. E virar revolução.

A Revolução de 30 foi ação. E interrogação. Conforme A. Lopez e C.G. Mota (História do Brasil, 2008), “em páginas antológicas, Manuel Correia de Andrade fez o balanço desse período – que inclui a deposição de Washington Luís, indo até 1932 – e sublinha a dificuldade que os próprios revolucionários encontravam para definir os rumos do processo” (p. 633).

Os clubes jacobinos acirravam os ânimos. Opostos aos batalhões patrióticos. Os capoeiras foram deportados para Fernando de Noronha. A população pobre percebeu que a República não conseguiria satisfazer suas expectativas de melhorar de vida. As oligarquias se articulavam em torno da ordem (p. 617).

Um dado curioso: o país continuava a receber a contribuição de imigrantes. No período de 1908 a 1920, foram 190 mil imigrantes subvencionados, orientados para as fazendas. E 340 mil imigrantes não subvencionados, espontâneos, destinados a trabalhar na indústria e no comércio. Total: 530 mil imigrantes.

Na perspectiva política, era o fim da República Velha. Com o atestado de óbito da política de café com leite. Na dobradinha revogada de presidentes paulistas e mineiros. No horizonte, a alvorada de novo patriciado nacionalista. Que amadureceria nas manhãs de um trabalhismo inspirado no operariado nascente.

Esse patriciado trazia a imagem de um charuto. Cuja fumaça desenhava um nome: Getúlio Vargas.

O iluminismo brasileiro reagiu com três iniciativas culturais, enérgicas e criativas. A primeira delas foi a Semana de 22. Movimento que trazia o sentido antropofágico. Deglutir o que era nacional e internacional. E produzir obras brasileiras. O modernismo da poesia de Manuel Bandeira; as raízes telúricas de Mario de Andrade; o traço transversal de Cícero Dias; a nuvem paulista de Oswald de Andrade.

A segunda iniciativa foi o Movimento Regionalista de 1926. Liderada por Gilberto Freyre. À frente de um grupo importante de escritores e pesquisadores do Nordeste. Era o ventre aberto da cultura brasileira mais profunda. A moenda das usinas descobertas por José Lins do Rego. A renda e as redes, agrestinas, litorâneas, tecidas na pena de Raquel de Queiroz. O sensualismo cromático de Jorge Amado nas cores e amores da Bahia. Um país inaugurado a si mesmo.

A terceira iniciativa foi o Manifesto da Escola Nova. Em 1932. Defendendo a escola pública de qualidade, laica, obrigatória e gratuita. Congregando um grupo de educadores que se antecipou à melhor orientação da educação brasileira: Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Hermes Lima, Cecília Meireles, Roquette Pinto.

1964: fim do mito do homem cordial

O golpe de 64 provoca uma decisão inédita dos militares: a tomada e permanência no poder. A continuada estadia dos militares no seu exercício. Não há devolução aos civis. O ciclo militar consome vinte e um longos anos. De 1964 a 1985.

Nesse período, o homem cordial brasileiro extravia-se na violência e na tortura. Entre outros, desaparece o deputado Rubens Paiva. São mortos, na prisão, o operário Manuel Fiel Filho e o jornalista Wladimir Herzog.

O Estado mete-se num labirinto. Alcança porões tenebrosos. Num combate intestino. No qual o Exército divide-se em duas alas. Refletindo o embate de posições dos que são a favor da distensão segura, lenta e gradual. E dos que são contra. A dupla Ernesto Geisel / Golbery do Couto e Silva desenrola o enredo da redemocratização.

O processo político segue sua via crucis pelas mãos hábeis de Tancredo Neves. E termina no colo improvável de José Sarney. A burguesia nacional é politicamente conservadora. E economicamente não competitiva. O Brasil tem dificuldade de se inserir na competição mundial. Apresenta um dos menores índices de abertura para o exterior. Participa com apenas 1% do comércio internacional.

No cenário ideológico, as matrizes do pensamento definem duas opções: o liberal moderno e o marxismo não dogmático. Roberto Campos e Florestan Fernandes. José Guilherme Merquior e Leandro Konder.

A bifurcação de ideias não impediu a reação iluminista do Brasil. E os brasileiros responderam à violência com a beleza da arte: a fundação de novo marco na música, a Bossa Nova. A inscrição de novas formas geométricas na arquitetura de Oscar Niemeyer, em Brasília, capital da esperança (segundo André Malraux). A criação literária nos gênios da literatura: Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

Entre 1960 e 70, o iluminismo brasileiro produziu uma das mais ricas produções artísticas na história do país. No teatro de Cacilda Becker. No cinema de Glauber Rocha. Na música de Tom Jobim, afinada em sons fluviais de Debussy. Nos poemas musicais (dramaticamente) urbanos de Chico Buarque.

No capítulo musical, o iluminismo brasileiro vem com gloriosa energia baiana. É o Expresso 2222, de Gilberto Gil. Trazendo Caetano Veloso, Gal Costa e o tropicalismo.

Minas, que já nos ensinara a poesia moderníssima de Carlos Drummond, avisa que suas montanhas pariram Rosa. Grandes sertões. Silvos. Silêncios. Silvestres veredas. E vinda da Ucrânia, a brisa misteriosa de Lispector, Clarice. Clara, sem jaça.

O homem cordial findou entre desaparecidos. Mas continuou existindo, resistindo. Na beleza, na invenção. No iluminismo redivivo.

Pagu e Marielle: verso e anverso

Duas mulheres, duas vidas, duas lutas. Distantes no tempo cronológico. Confluentes no tempo existencial. Ligadas no essencial.

Patrícia Galvão, Pagu, escritora, poeta, jornalista, ativista. Ex mulher de Oswald de Andrade. Presa e torturada. A versão horrorosa de patriarcalismo. Que não se vê decadente.

Marielle Franco, socióloga, vereadora, ativista. Morta a tiros de fuzil. Numa noite impensável no centro do Rio de Janeiro. A inversão criminosa de valores. Que não se quer humanos.

Um paralelo congelado no tempo. Tempo que parece não andar. Mas que caminha, sim. Há aurora no horizonte. Iluminista. Vinda da terra dos homens. Do sonho das mulheres. De brasileiros.

 

One Comment

  1. Delicioso. Boa perspectiva. A prosseguir.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *