
José Álvaro Moisés (in memoriam)
Começo com a célebre frase de João Guimarães Rosa, quando de sua posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967. Disse ele: “O mundo é mágico: as pessoas não morrem, ficam encantadas… a gente morre é para provar que viveu”.
A memória tem um papel decisivo. Não é só a lembrança, é também a ideia de que a pessoa permanece viva no coração dos que ficaram. Principalmente naqueles que tiveram o privilégio de viver com quem não está mais presente fisicamente.
Nesse momento de tristeza, quero também evocar Santo Agostinho que dizia: “O que eu era para vocês, continuarei sendo (…) Por que eu estaria fora dos teus pensamentos, apenas por que estou fora da tua vista? ”.
Sim, Moisés, agora encantado, continua sendo o que era para cada um dos que compartilharam seus dias. Ele se dava por inteiro em suas aulas, seus artigos, seus livros, suas palestras, seus depoimentos, suas amizades. Seus ensinamentos e seu companheirismo, permanecem em múltiplas formas. Seja alimentando o desejo de continuar suas inciativas, seja impregnando-se de seus ideais e divulgando suas ideias.
Falar de Moisés hoje é também reconhecer sua contribuição acadêmica e sua presença no espaço público. Moisés tinha um ideal, uma paixão – a consolidação e o aprimoramento da democracia. Dedicou sua vida para alcançar esse ideal. E, de fato, todos os seus escritos e falas possuíam um denominador comum – a batalha pela democracia e pela participação cidadã. Nesse sentido, apontava a transparência, a igualdade e a liberdade como essenciais para a institucionalidade democrática.
Sua carreira na Universidade de São Paulo foi marcada pelo rigor acadêmico, pela importância de pesquisas empíricas, mas, sobretudo, pelo esforço para conquistar e aperfeiçoar a democracia.
Como professor no Departamento de Ciência Política, suas aulas inspiraram alunos e colegas. No Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas colaborou para a construção de um espaço marcado por discussões, elaboração e desenvolvimento de projetos com temas relativos à cultura política, à qualidade da democracia.
De seu ponto de vista, a confiança nas instituições é um aspecto fundamental nos índices de qualidade da democracia. Ou seja, a democracia depende fortemente do apoio de cidadãos. Assim, baixos índices de confiança colaboram para expor as instituições a ataques e, no limite, para a perda da democracia.
No último ano, entre outras atividades no Instituto de Estudos Avançados, dedicou-se à organização de um livro em homenagem a seu grande amigo e orientador Francisco Weffort, falecido em 2021, de quem foi secretário de Apoio à Cultura e de Audiovisual no Ministério da Cultura, nos governos de Fernando Henrique Cardoso.
Além disso, atuava no movimento Direitos Já!, como coordenador. Uma iniciativa da sociedade civil na defesa da democracia e de valores consagrados na Constituição de 1988. De caráter suprapartidário, uma ONG empenhada na busca de diálogo com partidos políticos. Agora em 2026, entre outros objetivos, o esforço está em conseguir candidatos do campo democrático para um Congresso que se tornou mais poderoso.
A lista de livros importantes é extensa. Cito apenas alguns, por serem indispensáveis para todos os que estudam e/ou militam pelo aprimoramento da democracia, pelo papel primordial da cultura política na consolidação do Estado Democrático de Direito:
Os Brasileiros e a Democracia, São Paulo: Editora Ática, 2010; Democracia e Confiança: Por que os Cidadãos Desconfiam das Instituições Públicas, São Paulo, EDUSP, 2019; Qualidade da Democracia: Teoria e Análise, (org), São Paulo: EDUSP, 2013.
Suas qualidades têm sido reconhecidas por um amplo espectro de intelectuais e de políticos, à esquerda e à direita, o que demonstra que Moisés era uma pessoa extremamente afável, disposta ao diálogo e avessa a radicalismos.
Termino evocando novamente Guimarães Rosa: Moisés não morreu, está encantado!
[1] Professora Senior da USP, com livros e artigos sobre o Sistema de Justiça e, mais importante, amiga muito próxima de Moisés.
Ah, que sensível esta sua definição do prof Moisés, profa Teca!! Ele com certeza está duplamente “encantado” com esta declaração!