José Álvaro Moisés (in memoriam)

José Álvaro Moisés (in memoriam)

A José Álvaro – amigo, mais que irmão.

Foi sempre essa a minha dedicatória – Moisés ria, “não quer mudar?” Só quando você mudar respondi por três  vezes,  zero imaginação.

Começou assim. Em  1967-68, em um movimento de estudantes pela ampliação das  vagas nos cursos de graduação em Ciências Sociais , na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia. Com a cumplicidade entre estudantes e jovens professores da área . Moisés emergia como um dos líderes desde os movimentos de secundaristas. Dessa vez,  a campanha tinha sotaque diferente , nordestino , em timbres diferentes e com vozes femininas. Em um meio no qual até então dominavam brasileiros de primeira ou segunda geração, como ele e eu. De origem italiana ,  muitos niseis , judeus da Europa Central, sírios-libaneses , radicados na cidade ou no interior de São Paulo. Mais,  a nossa era  a Faculdade da USP criada pelas missões europeias –  francesa, em ciências sociais, italiana em geologia e matemática – da área  de física, já não lembro se alguma vez soube. Mas sabíamos que Mario Schemberg era a estrela – e que era um departamento onde contávamos com aliados, alguns  até “trotskistas”  . Tínhamos alguns aliados também na Medicina e muitos na Arquitetura, no quarteirão vizinho, alguns poucos na Faculdade de Economia e Administração, praticamente na esquina.

No sistema USP , Ciências Sociais era “o foco” porque havia alta procura, número reduzidíssimo de vagas (quando eu entrei 8 anos antes eram apenas 30 e foram preenchidas apenas 18 ou 20). Mas a descrição do ambiente de efervescência política e intelectual no qual se forjou a sensibilidade política de Moisés não se esgota com o registro dos principais tópicos do movimento – democratização do acesso ao ensino superior , mudanças curriculares , crítica ao autoritarismo e a participação de alunos na gestão da Universidade.  Sim, ele estava presente nas assembleias, nos debates sobre a reforma educacional.  Os  jovens professores estávamos divididos por conta da “guerra dos 6 dias “ e , logo depois , pelo impacto liberador dos movimentos de 1968 na França –  nos usos,  costumes e práticas no interior da Faculdade. Não sei como José Álvaro reagiu a cada uma essas duas questões especificamente. Estou certa, no entanto , que os episódios  que se seguiram têm a ver com sua trajetória política e com a linhagem analítica que inaugurou como cientista. Foi antes do AI5 . O estopim foram as manifestações em protesto contra a morte do estudante carioca Edson Luís em São Paulo; depois a repressão; a resistência aos ataques dos estudantes conservadores do Mackenzie , no prédio em frente, culminando na  ocupação da Faculdade de Filosofia  por estudantes e professores  (com apoio de alguns dos mais velhos). Daí,  à participação nas redes de apoio às greves operárias em Osasco  e à militância no ABC , foi um passo – no meu caso. No de Moisés , estou segura,  foi a vivência  que  motivou seu compromisso com a fundação do PT e seus dois  primeiros livros , Greve de massa e crise política (1978), um estudo sobre a greve dos 300 mil em São Paulo (1953-1954); Lições de liberdade e opressão: o novo sindicalismo e a política (1982). O primeiro, inspirado em sua tese de mestrado na Universidade de Essex, na Inglaterra.

É quase ocioso buscar nas publicações de Moisés ,  em livros ou em artigos , temas que não remetam  a momentos críticos da democracia  brasileira e, mais tarde,  a pontos de inflexão que exigiam análise mais abrangente , em perspectiva comparada ou global. Por  isso, os temas que chamou a si , Moisés converteu-os em desafios analíticos por investigar e debater como professor e intelectual público, como se vê em sua produção individual – mas também no impulso irresistível para construir instituições  que agregassem perspectivas e até cânones distintos do seu . Por exemplo, é difícil separar os livros citados do  programa de investigação do CEDEC , Centro de Estudos de Cultura Contemporânea, fundado por   Francisco Weffort  em 1976:  autoritarismo e transição; cultura política, participação e representação; movimentos sociais. É assim que também explico o movimento inverso,  que consistiu em implantar em nosso departamento a área de cultura política –um giro na  análise empírica das bases sociais das instituições democráticas. Os brasileiros e a democracia (1995) é o subproduto disso.

 Três outros giros são quase autoexplicáveis porque os títulos ilustram a sintonia fina que Moisés estabeleceu com os desafios de governança democrática que emergiram desde então: 1) Democracia e confiança: por que os cidadãos desconfiam das instituições públicas? (2010); 2) A Desconfiança Política e os seus Impactos na Qualidade da Democracia (2013); Crises da Democracia — o papel do Congresso, dos deputados e dos partidos (2019); A Crise da Democracia Representativa e o Neopopulismo no Brasil (2020). Todos eles, creio foram produzidos no contexto institucional do Núcleo de Políticas Públicas da USP, (NUPPS) que ele criou e coordenou por seis anos, do qual fui conselheira e coordenadora de duas pesquisas financiadas pela FAPESP – de três anos cada.  Hoje está sediado no Instituto de Estudos Avançados onde plantou o Grupo de Pesquisa , “A Qualidade da Democracia”.

Essa é a parte do convívio que, um dia   ao som de uma pizza e um bom vinho (como é de praxe entre paulistas)  classificamos de  movimentos  de “abertura p’ra dentro”  , ou seja, mirando o Brasil. Que foram  coroados nos anos 90 , com a  reativação da ABCP – a Associação  Brasileira de Ciência Política – paralisada desde os anos de 1980 – a  partir de uma conversa nossa com Maria Teresa Sadek, Maria Hermínia Tavares de Almeida, , Renato Boschi e Elisa Reis.  Isso foi em um Congresso em Berlin, e foi a origem de outras iniciativas.

Na outra parte do convívio,  a da cumplicidade nos “movimentos de abertura p’ra fora” – da ciência política brasileira para o exterior ,  nunca estivemos de olho no circuito Elizabeth Arden , mas nas democracias “de mercado emergente” (em meu próprio dialeto),  e na “qualidade da democracia” ( no dele ). Foram as atividades de pesquisa na   IPSA (International Political Science Association)  onde ele criou o Comité de Pesquisa 34 – em 2014 , “A qualidade da democracia” em colaboração com a colega da Alemanha, Marianne Kneuer”, atualmente em Tübingen . Marianne , como aconteceu comigo em 2006-2009, contou com o apoio ativo de Moisés quando passou a servir   como Presidente da IPSA. Vale lembrar que os comités de pesquisa constituem a espinha dorsal das atividades intelectuais da IPSA , e o Comité 34  está em atividade hoje .

O conceito de “confiança” atravessa longitudinalmente toda a obra de Moisés, implícita ou explicitamente. Por isso transcrevo parte da linha evolutiva desse conceito, que obtive no ChatGPT 5.2 , e que compartilho com os leitores.

No livro, Os Brasileiros e a Democracia, é parte da cultura política, e surge associada  à : 1)legitimidade do regime; 2) adesão normativa à democracia; 3) crença de que instituições são preferíveis a alternativas autoritárias.

? confiança = é a disposição de aceitar regras democráticas mesmo diante de frustrações.

Marca dessa fase: o foco está no aprendizado democrático depois da transição.

Houve depois um salto teórico no tratamento das relações entre  Democracia e Confiança – visível no livro com Raquel Meneguello, A Desconfiança Política e Seus Impactos sobre a Qualidade da Democracia

 Confiança vira objeto central e mensurável, e a definição mais explícita:

confiança = expectativa de que instituições agirão de forma previsível, imparcial e eficaz.

Ela depende de: 1) desempenho percebido; 2) controle da corrupção; 3) capacidade de resposta .

Mostra que pode haver:
? apoio abstrato à democracia
? + desconfiança concreta em governos, partidos e parlamentos.

Essa tensão passa a ser o núcleo da agenda de pesquisa.

No velório, deu vontade de dizer, estamos nessa ainda, em outro grupo de pesquisa no Instituto de Estudos Avançados, continuamos de olho nisso. Mas não foi o que falei.  Bom mesmo foi ouvir a fala final da deputada Luíza Erundina, porque resiste, como eu, à ideia de que com a morte do amigo, vai embora uma parte da gente também. Não vai não – na cultura brasileira, a gente “incorpora”, embora em um timing e um espaço prescritos – como aprendi com os colegas que estudam a tradição afro-brasileira.