caminhantes

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Em “Sociologia da medicina”, livro que não perdeu o frescor de obra pioneira, Gilberto Freyre, sempre antenado, sempre propositivo e sempre apoiado em vasta bibliografia, tocou num ponto sensível da civilização ocidental: o  sedentarismo. No Brasil,  o imperador Pedro II chegou a gracejar com o assunto ao dizer que o brasileiro só andava por prescrição médica. Temos, os brasileiros, um sedentarismo histórico, e isso, reconheçamos, em grande parte, por conta da escravidão, sem excluirmos, é claro, outros agravantes socioculturais.

É no capítulo 14, já no último terço de “Sociologia da medicina”, que Freyre aponta com proustiano dedo a “civilização do homem sentado”.  Diz ele: “Quando se define a civilização contemporânea como uma civilização de ‘homem sentado’, toma-se em especial consideração o fato, na verdade social e higienicamente significativo, de ser,  nas suas áreas tecnologicamente mais avançadas, uma civilização em que os seus agentes, os seus líderes e os seus  participantes  passam grande, talvez a maior parte, do seu tempo físico e do seu tempo socialmente mais valioso sentados. Sentados em estudos, nas escolas […] Sentados em trabalhos de escritório, de oficina, de fábrica, de banco, de estabelecimentos comerciais e industriais. Sentados em tratores, nos campos. Sentados na direção de arados, de caterpillars, de outras máquinas agrárias e de várias, urbanas. Sentados na direção de automóveis, de aviões, de lanchas, de caminhões, bem como de locomotivas […] Sentados nas assembleias, nos congressos, nos parlamentos, nos conselhos municipais. Sentados quando moços, quando homens de meia-idade, quando velhos. […] […] Sentados na cadeira do dentista, na cadeira do barbeiro, na do cabeleireiro. Na de engraxate, no banco dos réus e até — não é frequente, mas acontece — em cadeira elétrica, para cumprir sentença de morte”. Trata-se de pessoas que “[…] não se movimentam senão de uma cadeira para outra”.

Como se pode observar, Freyre aponta o óbvio que não vemos, traçando um  diversificado arco de atividades sociais e culturais dominadas pelo sedentarismo. A essas posturas “passivas” e não poucas vezes “tensas”, o sociólogo-antropólogo pernambucano propõe “situações físicas de participação de pessoas de todas as idades”, a exemplo de jogos, recreações, hobbies, artes, etc. que compensem o tempo inevitavelmente absorvido pela postura sentada. Uma frase de efeito de um cardiologista, citada por Freyre, será agora um bom gancho para, sobre o mesmo tema, andarmos numa outra direção. Dizia esse médico que “A saúde começa no calcanhar”…

A marcha humana, culturalmente louvada e praticada por filósofos, escritores literários e cientistas (basta pensarmos em nomes como Montaigne, Kant,  Heidegger, Rousseau, Robert Walser, Frederic Gros, Rimbaud, Miguel Torga, John Muir, David Le Breton) vem recebendo da neurociência um especial e indiscutível reconhecimento, como o prova o livro recentemente publicado no Brasil “A magia da caminhada” (no original, “In praise of walking), de autoria de Shane O’Mara, professor de neuropsicologia no Trinity College, em Dublin.

Esqueçamos o sistema circulatório, o coração, a panturrilha e outros lugares-comuns das conversas sobre o assunto. Não são apenas estes os beneficiários de uma boa caminhada. O’Mara explica: “Além de melhorar o controle cognitivo, não há dúvida de que caminhar proporciona uma infinidade de outros benefícios. Todos sabemos que faz bem para o coração, mas também favorece o restante do corpo. Caminhar protege e restabelece a saúde de órgãos que passaram por estresse e tensão e é bom para o funcionamento do intestino, pois facilita o trânsito dos alimentos. Andar com regularidade também atua como um freio no envelhecimento do nosso cérebro e pode, de maneira significativa, reverter esse processo […] Previne várias situações adversas que surgem com o envelhecimento. Caminhar também está ligado ao aumento da criatividade, à melhora do estado de ânimo e ao refinamento de nosso raciocínio”. Não é por acaso, diz o cientista, que as pessoas, na nossa “civilização do homem sentado”, queixam-se tanto de dor lombar: elas não andam!

Em meio a inúmeras informações úteis ou simplesmente curiosas, o autor capricha em nos mostrar cientificamente como a marcha e o bipedalismo humano são vantagens evolutivas da nossa espécie. Segundo ele, a principal lição é que “[…] os cérebros evoluíram para o movimento. Se for ficar preso, imóvel, em um único lugar, cercado dos alimentos de que necessita, então por que precisa de um cérebro complexo?”. O caminhar moldou a humanidade, é o fundamento de sua ampla dispersão pela Terra.

Um dos pontos mais interessantes do livro é o que diz respeito ao caminhar nas nossas cidades. Citando o grande urbanista Jeff Speck, O’Mara menciona que, não por acaso, as melhores cidades coincidem em ser aquelas com melhor caminhabilidade. Eis por que os especialistas em urbanismo têm o desafio de, “no mínimo”, considerar o trânsito de pedestres tanto quanto vem considerando o dos veículos automotores. Daí a enorme importância das áreas verdes. Daí a expectativa por novas sociabilidades e saudáveis interações humanas.

Em suma, fomos feitos para andar! É preciso nos livrar, como sugeriu Freyre, do “imperialismo” das poltronas, e, poderíamos acrescentar: do das rodas. “As recompensas, diz O’Mara, serão maiores do que se pode imaginar”. Marchemos, como convoca a Marselhesa! Caminhar também é liberdade!