Freud

Freud

Embora no mais célebre dos seus ensaios, “O mal-estar na civilização”, de 1930, Freud toque apenas de passagem no tema da guerra, esse desafiador assunto surge mais analisado em dois outros textos: “A desilusão causada pela guerra”, de 1915, e “Por que a guerra”, de 1932, uma carta a Albert Einstein, escrita por sugestão do Instituto Internacional de Cooperação da então Liga das Nações, antecessora da ONU. Um e outro texto que aqui serão citados reportam-se às “Obras Completas” (respectivamente aos volumes 12 e 18) na tradução de Paulo César de Souza para a Companhia das Letras.

Sem outro propósito que o de evocar dois trabalhos importantes em tempos de novas guerras imperialistas, reconheçamos que os nossos comentários e paráfrases adiante beiram o superficial, sem deixar todavia de aspirarem a ser  sugestivos para uma leitura mais complexa. No mais, mudaram as guerras, não mudamos nós.

Em “A desilusão causada pela guerra”, Freud, à época com 58 anos, logo nos traça um cenário desolador: “A guerra na qual não queríamos acreditar irrompeu e trouxe a… desilusão. […] Ela transgride todos os limites que nos impusemos em tempos de paz, que havíamos chamado de ‘Direito Internacional’, não reconhece as prerrogativas dos feridos e dos médicos, a distinção entre a parte pacífica e a parte lutadora da população, nem os direitos de propriedade”. Eis um atualíssimo testemunho, já que o Direito Internacional vem sofrendo agora o mesmo escárnio dos violentos autocratas de plantão.

Freud continua: “O Estado beligerante se permite qualquer injustiça, qualquer violência que traria desonra ao indivíduo […]”, de imediato também censurando o autoengano das pessoas, causado por “[…] julgarmos os homens melhores do que são na realidade”, superestimando “[…] a sua aptidão total para a cultura em sua relação com a vida instintual que permaneceu primitiva”.

Essa ilusão de uma “aptidão total para a cultura” dos seres humanos faz com que acreditemos que a educação nos extirpa todo o mal e nos civiliza por completo. Com efeito, a Primeira Guerra Mundial eclode numa Europa “soi disant” civilizada e ciosa de sua racionalidade. Atento a essa contradição, Freud argumenta: “Na realidade não existe nenhuma ‘extirpação’ do mal. A investigação psicológica — em sentido mais rigoroso, a psicanalítica — mostra, isso sim, que a essência mais profunda do Homem consiste em impulsos instintuais de natureza elementar, que são iguais em todos os indivíduos […]”. Os que então promoviam a guerra “[…] não desceram tão baixo como receávamos, porque não tinham se elevado tanto como acreditávamos”! Eles, na verdade,  liberaram-se da “pressão da cultura” para satisfazer seus instintos refreados… Ao fim do texto, Freud anseia por tempos em que haja uma “renúncia pulsional” que evite as guerras.

Hoje, novamente mergulhadas em autoengano e voltadas às simplificações políticas, as massas, elas próprias, parecem, ai de nós, fatigadas da democracia. De par com isso, ressurge um novo imperialismo, pronto a submergir o Direito Internacional e a fazer emergir juristas  e outros atores que advogam e trabalham apenas para a conveniência dos poderosos…

Finalmente, em “Por que a guerra?”,  Freud entende que ela existe como uma “decorrência do instinto de destruição”, contra o qual sugere que se recorra a Eros, o seu antagonista. Ele propõe então uma espécie de ativo papel de Eros, afinal de contas é este que está por trás do que une as pessoas e de suas mútuas identificações, nas quais “[…] se baseia, em boa parte, o edifício da sociedade humana”. Finalmente, termina por nos deixar não mais que um fio de esperança: “Tudo o que promove a evolução cultural também trabalha contra a guerra”.

Muitos anos mais tarde, refugiado em Londres em decorrência do nazismo, e  já instalado em avançada idade, numa entrevista ao jornalista americano George Sylvester Viereck, Freud dirá, com a segura e clara síntese dos muitos anos vividos, que “A psicanálise não apenas nos ensina o que temos de suportar; ela também ensina o que temos de evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado”. Ocorre-nos pensar que os verbos “suportar” e “evitar” constituiriam, dentre outros, dois vigorosos pilares para uma ética que leve à paz.