
On Liberty
A ideia de liberdade de muitos bolsonaristas, seguindo as teses de seu líder e ex-presidente Jair Bolsonaro, tem a ver sobretudo com a incapacidade de raciocínio dos defensores de tal “liberdade”. É uma ideia que se encasqueta em mentes de grosseiros, voluntaristas, que ainda não se deram conta de que os humanos vivem em sociedade. E tampouco se puseram a pensar no que seria “liberdade” de uma mulher (ou de um homem) no meio do deserto, sem vivalma ao redor.
Tomar ou não tomar vacina não é questão de liberdade individual. Assim como não é o porte de arma. Nem mesmo a liberdade de expressão, garantida no artigo 5º da nossa Constituição, é liberdade sem responsabilidade nem limite. Que o caput do artigo começa com “todos são iguais perante a lei”, inclusive no que se refere à liberdade. O que já sugere que a liberdade que vale para um tem que valer para todos, e que a garantia de liberdade para todos tem que estar na legislação, que é um produto social, e no respeito às leis.
Essa tal ideia de liberdade sem contexto, de libertários, ou como quer que se denominem, nada tem a ver com a doutrina liberal. Nem com democracia. A doutrina liberal jamais defendeu o direito de ser socialmente irresponsável. Sempre mostrou que a liberdade de um indivíduo termina onde começa a liberdade de outro. A doutrina liberal é teoria para a vida em sociedade, e não uma defesa de direitos individuais como se tal indivíduo não vivesse em sociedade.
De acordo com a doutrina liberal, o Estado deve intervir para controlar a ação de indivíduos ou empresas cujo efeito secundário cause danos a terceiro ou à sociedade em geral. Insisto no que já escrevi na “Será?” em 2020 tratando de mostrar que nem o governo Bolsonaro e nem seu Ministro da Fazenda praticavam o “liberalismo” que alegavam. Era liberalismo de fancaria.
O rótulo mais benigno que podemos dar à tese de que existe, por exemplo, liberdade antivacina, ou liberdade de desrespeitar disposições municipais para reduzir a difusão do coronavirus ou da dengue, é “liberalismo de egoísta”. É o liberalismo do “Cavalão” que não aprendeu nada. É mais maléfico, mas é tão simplório quanto o “marxismo de galinheiro” que de capitalismo só repete que a função do capital é explorar o trabalho e tomar os recursos do Brasil. Pois não acabamos de ver o pessoal em campanha contra o marco legal do saneamento básico dizer “não podemos entregar nossa água aos capitalistas”? Pois também temos “liberalismo de fancaria” do sujeito tosco que nunca se deteve para pensar o que significa “ser livre”.
O que o liberalismo sempre disse é que o Estado deve intervir para corrigir “externalidades negativas” da economia de mercado – no nosso jargão de economista. Um “liberal clássico” (no sentido da doutrina) defende a economia de mercado e considera que o governo deve se concentrar em suas funções essenciais de segurança interna e externa, fornecimento de bens públicos que o mercado não consiga oferecer, e em tentar corrigir os piores efeitos colaterais (as tais “externalidades negativas” do jargão) de atividades privadas e do comportamento individual.
Sim, o liberalismo defende a liberdade individual contra a microadministração de governos autoritários sobre o comportamento pessoal. Mas isso nada tem a ver com liberdade do indivíduo de dizer ou fazer o que lhe dá na telha. Há que considerar os “efeitos colaterais”, já que o ser humano não vive sozinho e isolado. O movimento antivacina nada tem a ver com a doutrina liberal, que não abriga a ideia de liberdade individual quando esta causa danos à sociedade, como seria, no caso, a propagação do vírus. O corolário do argumento de que é preciso considerar os danos a terceiros é que não há o direito de o governo interferir ou regular comportamento individual quando não causa danos a terceiros, quando não há identificação clara de danos a terceiros.
Se continuamos com o exemplo de vacinas e ações de combate à propagação de doenças infecciosas, é preciso ter em conta que saúde não é apenas bem individual, é bem público. E um indivíduo não pode alegar sua liberdade individual quando seu comportamento individual causa danos à saúde de todos. Samuel Brittan, um grande economista liberal, já advertia contra o primarismo de “um falso raciocínio que identifica individualismo com interesse próprio e interesse próprio com egoísmo”.
Como não posso acreditar que o ex-Presidente da República, com sua propaganda de cloroquina. não conseguia sequer entender que, quando as pessoas se recusam a tomar vacina (ou antes dela, usar máscara) implicitamente admitem o pior efeito colateral, que é uma população inteira infectada e as mortes prematuras, só posso entender sua proclamação libertária como demagogia para alimentar as fantasias de liberdade sem responsabilidade de uma multidão de egoístas. Nada a ver com liberalismo. Da doutrina liberal, ao contrário, deriva o direito do Estado de punir um indivíduo antissocial: o liberalismo sempre disse que é obrigação do Estado proteger a sociedade contra os piores efeitos colaterais do comportamento individual.
Claro que podem existir debates sobre o que sejam “piores efeitos colaterais” em cada circunstância. No caso de vacinas já existe um consenso mundialmente estabelecido. Mas em cada lugar e em cada circunstância histórica, o que sejam “efeitos colaterais” aceitáveis ou inaceitáveis é decidido no jogo democrático. Inadmissíveis são as imposições do governante fora desse jogo democrático, em nome de um liberalismo que é de fancaria.
Oi, Helga!
A famosa expressão “os pingos nos iis” tem no seu texto uma ilustração perfeita.
Pessoalmente, meu “marxismo civilizado”, como dizia meu querido mestre Cláudio Souto a meu respeito, sempre foi matizado pela leitura de gente como Stuart Mill.
Indo mais longe, cito meu gentil e querido Montaigne, que no capítulo “Os Canibais”, dos Ensaios, inaugura o que hoje é conhecido como estudos decoloniais…
Valeu!
Abração, Luciano
Oi, Luciano, feliz de ser “pingo no i”. Saudades do teu “Hebdomadário da Corte”. Meu “liberalismo social” está longe da tua erudição. Eu sinto que é apenas “pé no chão” e cabeça “aqui mesmo” tão longe das estrelas. Destroçadas todas as utopias, andam mais didáticas as distopias.
Magistral, Helga!