
Lua
“O de que preciso / é de Lua nova”, escreveu Manuel Bandeira, cujos 140 anos de nascimento transcorrem no dia 19 deste abril tão pleno de Lua quanto de guerra. O grande poeta pernambucano era, com perdão pela palavra, um incorrigível selenófilo. Também amava as estrelas, mas é a Lua que mais comparece à constelação dos seus versos, até mesmo quando, provavelmente instado pelo espírito incipiente da corrida espacial, escreve um poema como “Satélite” em que isola a Lua de seus conhecidos atributos “lunares”: “Desmetaforizada, / Desmitificada, / Despojada do velho segredo de melancolia. / Não é agora o golfão de cismas, / O astro dos loucos e dos enamorados, / Mas tão somente satélite […] Fatigado de mais-valia, / Gosto de ti assim: / Coisa em si, / — Satélite”.
Neste abril, tivemos, os terráqueos, uma Lua nova captada pela missão “Artêmis II”, da Nasa, que, um tanto ousadamente, capturou uma pudenda face lunar. Pudenda como só no céu pode existir. A mídia sobre o “histórico” evento, tomada por um lirismo mais fabril do que febril, talvez num contraponto à escalada da guerra, tentou (creio que sem sucesso) emocionar com chavões as multidões aterradas pelos conflitos cá de baixo.
Se, por um lado, como bem o exemplifica o aniversariante Manuel Bandeira, a Lua pertence ao vasto domínio da Literatura, em especial à Poesia, por outro lado está enraizada na humanidade pelas práticas sagradas e míticas dos cultos e das religiões. Vale a pena ler as eruditas páginas que sobre ela escreveu Mircea Eliade no seu “Tratado de História das Religiões”. Numa precária síntese, sugerida pelo próprio autor, a Lua está simbolicamente relacionada à fertilidade (água, vegetação, mulher); à regeneração periódica; a tempo e destino; ao devir, a mudanças e dualismos… Não por acaso, sobretudo os poetas e outros espantados, vibramos todos com essa esplêndida companheira celeste. A Lua, por assim dizer, não paira sobre o mundo com sua beleza única e solitária, ela está no mundo e permeia praticamente todas as culturas e religiões.
Mas adeus, paz, silêncios, quietas crateras, enigmáticas sombras! Adeus ao “grande passo da humanidade”! Talvez um passo para trás!… Infelizmente, a guerra pela Lua já começou. Logo ela será despojada, não como no poema de Bandeira, mas literalmente despojada. Uma espécie de imperialismo cósmico e colonizador, além de fincar bandeiras, irá caçar seus tesouros. Sim, a Lua deve estar cheia de “terras raras” e, assim, há de se violá-la para gozo e poder deste “bicho da Terra tão pequeno”, como o classificou Camões.
Sabemos que Donald Trump telefonou para os astronautas que circum-navegaram em torno da Lua. Ao que parece, foi uma fala efusiva de parabéns, na qual, em seu autoritário modo, ele acrescentou que “Os Estados Unidos não serão superados na exploração do espaço”. Enfim, assim na Terra como no céu, o imperialismo promete ainda mais guerras: é o que talvez se chame de “Fúria Épica”.
Consta do noticiário que a ligação de Trump recebeu dos astronautas um constrangedor silêncio. Nada como a Lua e o espaço sideral para eclipsarem os supostos gigantes da Terra. Se Trump alguma vez tivesse lido Blaise Pascal, talvez se perturbasse um pouco e repetisse para si mesmo: “O silêncio eterno desses espaços me assusta!”. Mas ele, o temível, que nada lê, também com nada se assusta. Considerada, portanto, a coragem trumpiana, a missão da Nasa bem que poderia ter levado o presidente americano não propriamente à Lua, mas à órbita lunar, a qual, como se sabe, está se afastando da Terra…
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