O astronomo

O astronomo

No livro “As armadilhas da luz”, já remoto, mas não envelhecido, publicado em 1992 pela Editora Universitária da UFPE, de autoria do grande e irrequieto poeta Ângelo Monteiro, hoje integrante da centenária Academia Pernambucana de Letras, há um pequeno poema que, por si só, vale não apenas por ser uma das portas de entrada para a poesia do autor como pela singularidade de um eu lírico que filosoficamente se confessa contra as balizas de um mundo convencional.

Intitulado “Os pontos cardeais”, o poema nos diz: “Não conheço os pontos cardeais / nasci sem os pontos cardeais / vivo sem os pontos cardeais / e morro sem os pontos cardeais”. A segunda estrofe é um dístico que explica a primeira: “Meu astrolábio é o ser em agonia / e meu porto é além de todo cais”.

Não vou analisar o belo poema de Monteiro nem me deter em sua enganosa simplicidade. Direi somente que o conhecido historiador inglês Jerry Brotton teria achado um curioso sabor nesses versos tão incisivos sobre assunto tão importante para a humanidade e até para outras espécies. É que o mais recente livro de Brotton fala justamente desse tema e chama-se, na edição portuguesa, “Os quatro pontos cardeais: a inusitada história da orientação” (no original inglês, “Four points of the compass: the unexpected history of direction”).

Os pontos cardeais, como praticamente tudo neste mundo, têm história e impregnação cultural. Nem sempre, como bem demonstra Brotton, estiveram onde agora estão. Por isso, ele começa emblematicamente pela famosa foto (aliás há pouco lembrada pela mídia por conta da viagem da Ártemis 2 à órbita da Lua) conhecida como “Mármore azul”. Essa foto foi tirada, em 1972, pela Apollo 17, durante a última missão da Nasa que levou seres humanos ao solo lunar. Ocorre que, nessa histórico documento, logo se notou que o Sul estava para cima e o Norte para baixo, e a Nasa, por assim dizer, pôs as coisas nos eixos, invertendo a imagem. Assim, anota Brotton, “A história da imagem do planeta mais reproduzida mostra que não existe um quadro de referência universal com a qual determinar uma direção absoluta”. Nem sempre, todavia, o Norte esteve “no alto”, como hoje vemos em mapas e globos. Por que o Norte “triunfou” é um dos temas da “inesperada” história de Brotton.

Embora exista em quase todas as sociedades, uma direção cardinal muda de sentido e pode até se apresentar como “contrária”, a depender da cultura e da língua que se fala. Mas a realidade geográfica, geoespacial (estrelas, Sol, polo magnético, etc.) é seguida e dominada pela realidade histórica. Podemos, então, dizer que, ao longo do tempo, os pontos cardeais dançaram conforme a música de lugares e sociedades. Brotton também lembra que muitos psicólogos cognitivos acreditam que a compreensão mental da direção precedeu a linguagem humana. Atualmente, a neurociência nos garante que temos, em nosso cérebro, um acurado sentido de orientação.

Bem, o livro segue apontando os sentidos mutantes, evolutivos e históricos do Leste, do Sul, do Norte e do Oeste. Mas, para nós, da Era Digital, a cereja do bolo desse belo e original estudo, é justamente o “pontinho azul”, o “quinto ponto cardeal”, sem o qual agora parecemos perdidos no espaço. Ele surgiu em 2008 em nossos smartphones e, pela primeira vez, tivemos acesso “ao vivo” da nossa própria localização, graças a uma tecnologia que envolve GPS, protocolo internet e antenas móveis. Em consequência, assinala o historiador, “Os pontos cardeais não parecem mais deter o poder que tinham no passado”… No mais, como ele realça, “Os indivíduos podem estar virtualmente conectados, mas estão desligados sob o aspecto ambiental do mundo circunstante, vivendo em um reino confuso de analfabetismo espacial” (veja-se, por exemplo, o caso dos motoristas de aplicativo).

Como se nota, o poeta Ângelo Monteiro mal poderia imaginar que seus metafóricos e rebeldes versos tomassem, com esse novo “analfabetismo”, um sentido tão literal e prosaico, mas que mesmo assim continuam a nos fazer refletir. Estou convicto de que Jerry Brotton, se os tivesse lido, os tomaria para epígrafe de todo o seu livro ou, pelo menos, do último capítulo: o do “pontinho azul”. Com eles também termino esta resenha: “Não conheço os pontos cardeais / nasci sem os pontos cardeais / vivo sem os pontos cardeais / e morro sem os pontos cardeais”.