Homero Fonseca foi um grande amigo, e quis o destino que tenha sido ele quem, à mesa de um café no Recife Antigo, depois de muita conversa descontraída sobre o mundo pós-marxista, sentenciou:

— Você tem que conhecer Sérgio, pois vocês são muito parecidos!

Sérgio C. Buarque tinha um restaurante na Rua do Lima, O Banquete, onde costumava reunir convidados para eventos e debates sobre política, economia, literatura e áreas afins. Fui a um deles e, de fato, Homero tinha razão. Sérgio e eu formamos uma parceria que foi além de atuações conjuntas em consultorias e acabou desembocando na criação da Revista Será?.

Se o apartamento de Teresa Sales foi o útero onde a Será? foi gestada, durante nossas reuniões gastro-etílico-literárias, coube a Homero, sem que disso tivesse consciência, a função de uma espécie de avô da revista.

A foto do sofá, que tirei dos fundadores, tinha o propósito de deixar claro que a Revista Será? seria um espaço para a produção e a difusão de conhecimento sobre os desafios da contemporaneidade, porém sem nunca perder a “ternura” — como diria Che Guevara —, o humor e o clima descontraído de amigos que sentem prazer em estar juntos.

Com a morte de Teresa Sales, decidi homenageá-la colocando sua imagem, em tom sépia, na parede do apartamento. Então, por que não homenagear também nosso querido Fernando da Mota Lima, que se encantou em 2016?

E, mais recentemente, Bertini, que também nos deixou — intelectual militante da cultura e criador do Cine PE.

Dessa forma, a foto do sofá vem, muito a contragosto, transformando-se num painel em homenagem àqueles colaboradores da Será? que já se foram.

Homero, que sempre me chamava de “camarada”, lutou bravamente contra um câncer de pâncreas e faleceu na semana passada. Havia lançado seu último livro poucas semanas antes, numa demonstração comovente de sua determinação em cumprir a função de escritor até o último momento.

Está agora no “panteão” da Será?, junto daqueles que partiram e dos fundadores que continuam ativos, vivos e “bulindo”…

Sigamos, porque a vida é rara, e temos que fazer valer o tempo que nos é dado — a cada edição, a cada artigo, a cada charge.