big techs

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Quando o célebre General Ludendorf publicou a brochura “A guerra total”  por volta de 1935, o grande poeta, teatrólogo e ensaísta francês André Suarès escreveu um artigo intitulado “Ludendorf, ou o perfeito bárbaro”, posteriormente publicado em seu livro “Visões da Europa”, de 1939.  Suarès, convém caracterizá-lo um pouco mais, foi, conforme o historiador Michel Winock, seu conterrâneo, “um dos mais lúcidos intelectuais desse período – e dos menos ouvidos […] Ele percebe desde logo o perigo que o nazismo representa, antes mesmo de a Alemanha ser envolvida em sua  bandeira negra […] Republicano moderado, redige uma série de artigos proféticos em que condena seriamente a atitude dos dirigentes franceses que não levam a sério a doutrina de Hitler (Cf. “O século dos intelectuais”).

Pois bem, em “Ludendorf, ou o perfeito bárbaro”, Suarès nos diz que o general alemão “declara que a guerra terá por objeto não mais a destruição do exército inimigo, mas o aniquilamento  dos povos das nações inimigas” e que para ele, Ludendorf, “o teatro de operações se estenderá à totalidade dos territórios e dos povos inimigos”. O militar pretende a exterminação total do adversário. Suarès cita que para o velho general “É preciso destruir também tudo o que faz a vida da nação, suas cidades, seus monumentos, seus arquivos, sua cultura”. Ludendorf, diz o escritor, “possui todos os meios da vida civilizada para os colocar a serviço da vida bárbara. Ele e os seus dispõem de toda a ciência, mas, na raiz, não há senão o ódio da espécie e todos os apetites do canibal”.

Isso visto, logo entendemos por que o renomado sociólogo brasileiro Sérgio Amadeu da Silveira, em seu último livro, “As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial-datificado”, faz ecoar já no título o conceito do general alemão. Se há uma profecia mínima implícita na visão totalitária ludendorfiana, esta atende pelos nomes de radicalismo e completa militarização, os quais, atualmente, ganharam aliados de peso que convém não subestimar, nomeadamente as big techs, a Inteligência Artificial e, como esclarece Silveira, a “datificação das relações econômicas e sociais”, ou seja, o processo de transformar aspectos da vida social, comportamentos humanos, interações e o mundo físico em dados quantificáveis e legíveis por plataformas digitais.

As mesmas empresas que hoje nos entretêm e participam da vida civil e cotidiana (aliás operantes em áreas tão diversas quanto a agricultura, o serviço público e o comércio) são também aquelas que, por assim dizer, se acoplam aos desígnios geopolíticos e militares americanos. Para citar apenas dois exemplos, isso fica especialmente claro com os projeto Nimbus e o sistema Lavender, operados recentemente pelas forças armadas de Israel e discutidos pelo autor. Como sonhou Lunderdof, a política passou a ser subordinada à guerra e, com isso, encontramo-nos num patamar até então inimaginável.

Num mundo em que as big techs guardam e tratam os tesouros dos mais diversos tipos de dado sobre nosso comportamento, estamos de fato vendo que a vida civil nunca foi de tanto interesse para a vida militar, em especial para os esforços americanos no sentido de uma hegemonia global. Bom lembrar que “dados são ativos de alto valor agregado, além de insumo fundamental da economia informacional”. Para se fazer uma ideia do gigantismo dessa economia, Silveira lembra que “Os armazéns de dados já consomem a quantidade de energia similar à de um país como o Japão”. E, grife-se, “As infraestruturas de armazenamento e processamento são muito superiores às que estão em poder dos governos da maioria dos países”!

Não é de se admirar que num mundo assim a democracia esteja em perigo e a própria vida política esteja, senão sob um visível e explícito ataque, pelo menos em vias de ser desfigurada. Como diria o historiador italiano Steven Forti, os altos executivos das big techs, que inegavelmente compartilham com governos estatais o controle político, perderam qualquer pudor e vão direto ao ponto, como nas palavras de Peter Thiel, da Palantir, citadas no livro de Silveira: “Não acredito mais que liberdade e democracia sejam compatíveis”.

Com um estilo claro e acessível, além de lastreado na melhor bibliografia internacional, sem falar de sua já longa convivência com o tema, o professor Sérgio Amadeu da Silveira demonstra como as big techs, em conjunto com as forças armadas, “formam uma perigosa aliança antidemocrática” e que com isso “A gestão da guerra virando unidade de negócios das big techs pode levar à monetização de conflitos contínuos com baixo custo e alta lucratividade”.

Eis, num livro oportuno e de didática lucidez, o mundo assustador para o qual, o cidadão e a cidadã comuns, sem que o suspeitem, vêm contribuindo com uma robusta passividade. Como sugere um dos títulos de capítulo do livro de Silveira, “A Inteligência Artificial realmente existente no rumo da guerra”, os sistemas de algoritmos estatísticos e probabilísticos estão nos levando a uma nova forma de conflito bélico. Uma guerra que faria o “profeta” Ludendorf e suas dragonas estremecerem de gozo.