As bases da nova direita

As bases da nova direita

Eros Nascimento e Paulo Bracarense

Há uma cena recorrente nas bolhas intelectuais do campo progressista brasileiro: diante de um vídeo viral no WhatsApp, de uma pregação fervorosa na periferia ou de uma declaração indignada de um trabalhador informal contra a CLT, a reação muitas vezes oscila entre o deboche jocoso e o veredito sumário de ignorância.

Enquanto isso, a mulher negra, evangélica e periférica — que cria os filhos sozinha, é chefe de família e enfrenta uma dupla ou tripla jornada — atravessa uma experiência muito diferente. Para ela, o tráfico e a violência não são conceitos sociológicos derivados da histórica desigualdade da estrutura social brasileira. O tráfico é concreto: opera diante de sua casa. E o medo de que o filho morra ou seja recrutado por ele é parte inerente de seu cotidiano.

No mercado, a nota de cem reais já não é suficiente para a compra do básico, e é esse “índice do supermercado” o termômetro mais imediato de que ela dispõe para avaliar qualquer governo. Essa mulher, muitas vezes também jovem, vive em busca de microutopias realistas: conquistas possíveis, capazes de tornar a vida um pouco mais segura, digna e previsível. Há poucos grandes sonhos ou projetos de país e de sociedade que consigam dialogar com sua realidade concreta.

Durante décadas, esse voto esteve entre as bases do campo progressista. Hoje, uma parcela significativa dele migra para a direita. Não necessariamente por alienação ou ignorância, mas por uma racionalidade de sobrevivência cuja gramática o campo progressista parece ter deixado de falar — ou, talvez, de compreender.

A escolha desse arquétipo não é casual. Este é o primeiro de uma série de quatro artigos dedicados a compreender algumas das bases sociais e eleitorais que ajudam a explicar a ascensão da nova direita no Brasil. Nos próximos textos, trataremos de três segmentos centrais da pesquisa apresentada no livro O novo perfil eleitoral do Brasil: como pensa e como vota o brasileiro: as mulheres chefes de família, os jovens e os evangélicos.

A pergunta que atravessa esta série é simples, mas desconfortável: até quando o campo progressista continuará respondendo com deboche ou atribuindo ignorância a parcelas da população que, em sua vida cotidiana, buscam incessantemente respeito, segurança e dignidade?

Talvez seja necessário inverter a perspectiva. Em vez de perguntar por que essas pessoas estariam votando “contra seus próprios interesses”, é preciso compreender quais interesses elas próprias reconhecem como prioritários e quais experiências concretas orientam suas escolhas.

É essa a hipótese que defenderemos ao longo destes quatro artigos: por trás de comportamentos eleitorais frequentemente classificados como contraditórios, desinformados ou irracionais, existe uma racionalidade própria — pragmática, cotidiana e profundamente vinculada à experiência concreta de sobrevivência, pertencimento, respeito e dignidade.

Uma radiografia em cinco etapas

Foi para compreender a gramática dessa nova direita — e substituir a incompreensão pelo entendimento — que a Fundação João Mangabeira (FJM) encomendou à QCP Consultoria em Políticas Públicas e Pesquisas uma investigação de fôlego incomum sobre o eleitorado brasileiro. A pergunta é antiga, quase uma obsessão fundadora do nosso pensamento social; novos são a escala e o método.

Realizada entre outubro de 2025 e fevereiro de 2026, a pesquisa “Como pensa e como vota o brasileiro”mobilizou 42 pesquisadores, entre cientistas políticos, sociólogos, geógrafos, psicanalistas, estatísticos, especialistas em ciência de dados e economistas, entre outros profissionais. Seu objetivo não era prever os possíveis resultados da próxima eleição, mas algo mais ambicioso: mapear os mecanismos, conscientes e latentes, que estruturam a decisão do voto no Brasil.

O desenho da pesquisa combinou cinco etapas. Primeiro, uma metanálise de cerca de 400 obras sobre o eleitor brasileiro, com o apoio de ferramentas de inteligência artificial. Depois, oficinas com especialistas para testar as hipóteses levantadas. Na terceira etapa, uma pesquisa qualitativa, com 36 grupos focais, reuniu 246 participantes em grupos de 6 a 8 participantes, nas 12 regiões socioeconômicas-culturais em que a pesquisa redesenhou o mapa do país, ouvindo, em cada cidade-polo, os três públicos estratégicos do estudo: mulheres chefes de família, jovens e eleitores evangélicos.

A quarta etapa consistiu em um survey nacional probabilístico, com 2.242 entrevistas presenciais, abrangendo desde municípios com até 10 mil habitantes em localidades no interior do Amazonas ou de outros estados do país até as grandes capitais, acompanhado de uma análise de sentimentos destinada a captar também o que as respostas revelavam nas entrelinhas. A quinta etapa consolidou todo esse material em um relatório de cerca de 1.800 páginas, posteriormente sintetizado no livro “O novo perfil eleitoral do Brasil: como pensa e como vota o brasileiro”, organizado pelo Dr. Carlos Siqueira, com autoria de Paulo Bracarense, Sinoel Batista, Eros Nascimento, Adriana Silva e Matheus Cabús.

Para interpretar esse vasto material, a pesquisa construiu uma matriz composta por cinco camadas: a simbólica — fé, família e identidades; a material — renda, trabalho e segurança; a midiática — os espaços em que a opinião se forma; a política — escolhas e crise de representação; e a camada de dinâmicas latentes, que atravessam todas as demais.

É com essa lente que esta série examinará cada um dos três públicos. Antes, porém, é preciso compreender o achado que dá título a este artigo e ao primeiro capítulo do livro.

Uma direita nova, mas nem tanto

Em 1987, enquanto o país se preparava para redigir a Constituição que fundaria a Nova República, o sociólogo Antônio Flávio Pierucci publicava, na revista Novos Estudos Cebrap, um ensaio intitulado “As bases da nova direita”. Nele, Pierucci descrevia um conservadorismo popular que crescia não nos quartéis, mas no cotidiano dos bairros: pessoas que se sentiam ameaçadas por todos os lados — pela criminalidade, pelos meninos de rua, pelos migrantes, pelas mulheres “liberadas”, pela permissividade que julgavam generalizada — e que, abandonadas por um Estado em crise, investiam suas energias naquilo que entendiam como legítima defesa: a proteção da própria vida, da família e de seus valores.

Quase quarenta anos depois, a sociedade mudou de rosto. Tornou-se mais evangélica, mais urbana, mais conectada, e a direita adquiriu uma velocidade digital que Pierucci dificilmente poderia imaginar. Mas parte de sua gramática profunda permanece: medo, autodefesa moral e ressentimento contra um sistema que promete e não entrega.

A nova direita brasileira é nova na estética, nos meios de comunicação e no ecossistema político; é, porém, tradicional em muitos dos afetos que mobiliza. Por isso, o livro abre com esse tributo a Pierucci: a onda atual pode ser compreendida como uma ressignificação de sentimentos, medos e demandas — e, sobretudo, de uma gramática que a Nova República nunca conseguiu dissolver. Talvez esses sentimentos tenham permanecido latentes por algum tempo, mas certamente não desapareceram.

O que mudou foi a escala. A voz de pequenos grupos ganhou algo que antes não possuía: força de opinião de massa. Transformou-se na voz rouca das ruas, passando a ecoar uma profunda descrença nas mediações tradicionais e no estamento político-burocrático. A chave para compreender esse fenômeno parece estar, neste momento, muito mais próxima de uma leitura weberiana das relações de poder e legitimidade do que da tradicional oposição marxista entre classes.

Esse colapso de legitimidade aparece com nitidez nos números da pesquisa. Para 73,9% dos entrevistados, o Congresso representa mal o povo, enquanto 52% afirmam não confiar no STF. Quando convidados a apontar quem mais atrapalha o país, os eleitores mencionam o bolsonarismo (44,1%), o lulismo (33,9%), o STF (24,1%) e o Congresso (15,1%), deixando banqueiros (9,2%) e beneficiários de programas sociais (6%) em lugares mais abaixo da lista.

O inimigo percebido, portanto, não aparece prioritariamente como uma classe social, mas como parte de um estamento político-burocrático. Isso não significa que as desigualdades de classe tenham desaparecido ou perdido importância. Significa que, na percepção imediata de parcela expressiva do eleitorado, a urgência se deslocou da oposição entre o topo e a base da pirâmide social para as estruturas políticas e burocráticas vistas como distantes, autorreferentes e incapazes de entregar resultados. Pode-se argumentar, inclusive, que essas próprias estruturas ajudam a reproduzir as profundas desigualdades de classe existentes no Brasil. É o bom e velho patrimonialismo, na expressão consagrada por Raymundo Faoro: concentra poder, mas não entrega resultado.

Esse colapso da confiança nas instituições favorece a busca pela dominação carismática: o eleitor procura um ator capaz de provocar um “curto-circuito” no sistema que, aos seus olhos, deixou de funcionar. Mudou também o horizonte. Com o enfraquecimento das grandes utopias coletivas, o futuro encolheu e passou a caber em projetos individuais de sobrevivência e ascensão. Mudou, ainda, a relação com o trabalho: a precarização passou a ser ressignificada, em determinados segmentos, como liberdade e autonomia, a ponto de a carteira assinada — espécie de santo graal para gerações anteriores — ser hoje rejeitada por 57% dos jovens pesquisados.

Aqui se impõe uma distinção fundamental: conservadorismo não é sinônimo de extrema-direita.

O conservadorismo popular brasileiro constitui uma camada cultural e defensiva, uma linguagem de sobrevivência de quem aprendeu que, quando o Estado falha, os últimos refúgios são a fé, a família, a comunidade e o esforço próprio.

A extrema-direita é outra coisa: um projeto de poder capaz de capturar essa camada cultural, oferecendo-lhe reconhecimento e acolhimento dentro de uma gramática que o campo progressista vem perdendo a capacidade de falar. Faz isso, entretanto, ao mesmo tempo que pode corroer as instituições democráticas e converter o adversário político em inimigo a ser eliminado.

Confundir esses dois planos produz um duplo erro. Analítico, porque o conservadorismo popular continuará existindo independentemente de quem ocupe a Presidência da República. E político, porque tratar todo conservador popular como fascista talvez seja o caminho mais curto para empurrá-lo definitivamente para os braços daqueles que dizem compreendê-lo.

O ornitorrinco e o voto que pune

O eleitorado brasileiro, tomando emprestada a clássica imagem de Francisco de Oliveira, assemelha-se a um ornitorrinco político: uma criatura que reúne traços arcaicos e modernos, aparentemente desarmônicos, mas que, observados em seu contexto, compõem uma lógica própria.

Para 75,2% dos brasileiros, a democracia é sempre o melhor regime; ao mesmo tempo, 59,8% desejam um líder forte que não dependa do Congresso. A desigualdade é apontada como o maior problema do país por 75,3%, enquanto 55,8% acreditam que quem trabalha duro vence na vida. A família tradicional é considerada o modelo ideal por 76,4%; ao mesmo tempo, 57,2% entendem que cabe à mulher decidir sobre a interrupção da gravidez. As cotas raciais têm o apoio de 62,9%, e 57,3% reconhecem a importância do feminismo.

Não há necessariamente incoerência nessas combinações. Há uma racionalidade situada, própria de quem articula sobrevivência material, religiosidade, medo, autonomia e esperança em uma equação que as categorias políticas clássicas nem sempre conseguem capturar.

O que parece unificar esse eleitorado fragmentado é menos um projeto comum do que um repertório: o punitivismo.

Com o enfraquecimento da capacidade de imaginar um projeto coletivo de sociedade e um horizonte de país de longo prazo que faça sentido na vida individual, acumulam-se frustração e raiva. Há uma distância crescente entre a profunda fé que o brasileiro ainda deposita nas possibilidades do país e aquilo que percebe como efetivamente alcançável em sua vida cotidiana. Nesse vazio, punir o outro — o corrupto, o criminoso, o adversário político — transforma-se em uma das formas mais acessíveis de participação política. O voto deixa de ser apenas instrumento de construção e passa também a funcionar como instrumento de negação e punição.

Uma simetria captada pela pesquisa resume o espírito do tempo: 55,1% consideram correta a prisão de Lula na Lava Jato, enquanto 57,4% consideram correta a prisão de Bolsonaro por tentativa de golpe. A punição parece ter se tornado uma das poucas linguagens que atravessam os diferentes campos políticos.

Das Diretas Já à Constituição de 1988, consolidou-se uma certa hegemonia progressista, que atravessaria o Plano Real e chegaria à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Em suas diferentes vertentes, essa hegemonia depositava grande confiança no Estado democrático de direito e na construção de um welfare state capaz de produzir um país mais justo e menos desigual, livre das agruras da fome e da miséria que tão profundamente marcaram o tecido social brasileiro.

A partir das Jornadas de Junho de 2013, porém, começa a ganhar força a antítese dessa hegemonia. Ela se expressaria, por diferentes caminhos, no impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018. Desde o retorno de Lula à Presidência, em 2023, vivemos algo próximo do que Gramsci chamou de interregno: um tempo suspenso em que o velho perde a capacidade de organizar plenamente a sociedade, enquanto o novo ainda não consegue se estabelecer — e, nesse intervalo, proliferam os fenômenos mórbidos e quase tudo parece possível.

Nenhum dos dois grandes modelos em disputa é hoje claramente majoritário. Em 2022, a diferença entre os dois candidatos no segundo turno foi de apenas 1,8 ponto percentual, cerca de 2,14 milhões de votos. E quem pode arbitrar esse equilíbrio é justamente o contingente de eleitores movido por aquilo que chamamos de auditoria pragmática do cotidiano: o preço da comida, a vaga na creche, o tempo no transporte, o emprego e a segurança na esquina.

O paradoxo da dignidade

Se há um fio capaz de costurar os diferentes achados da pesquisa, ele está no que chamamos de paradoxo da dignidade: o brasileiro desconfia profundamente do Estado, mas, ao mesmo tempo, exige sua presença.

O que ele rejeita não é necessariamente a proteção pública, mas a tutela que humilha; não é o serviço público, mas o serviço que não chega; não é a política social, mas o discurso ilustrado que desqualifica sua experiência e sua moral cotidiana.

Essa dignidade reivindicada assume três formas principais, correspondentes aos três públicos centrais da pesquisa.

O jovem, órfão da ilha coletiva que Thomas More desenhou em Utopia, refez o sonho em escala individual. Busca a dignidade da autonomia: quer o Estado como ferramenta, e não como obstáculo, para construir as microutopias que lhe restaram.

A mulher chefe de família busca a dignidade do cuidado. Seu voto obedece a uma rigorosa lógica intergeracional: ela avalia a política pela capacidade de garantir a sobrevivência e o bem-estar dos seus. Espera que o Estado entregue o que promete e assegure condições dignas para ela, seus filhos, seus pais, seus netos e sua família. Ao mesmo tempo, deseja um trabalho digno e a possibilidade de viver sem ser sufocada por múltiplas jornadas. Ao contrário da velha caricatura misógina do voto feminino como sentimental, trata-se de um voto carregado de uma certa racionalidade, pragmático e objetivo.

O eleitor evangélico, por sua vez, busca a dignidade do reconhecimento. Sua distância em relação ao campo progressista possui forte dimensão ética: é, nos termos de Weber, uma ação racional orientada por valores. Seu ascetismo religioso reivindica o reconhecimento da moral de quem acorda cedo, trabalha duro, cuida da família, vai ao culto e não aceita que seu modo de vida seja tratado como atraso, ignorância ou inferioridade cultural.

Nos três casos, a busca por dignidade não significa desejar a ausência do Estado. Pelo contrário. É justamente quando o Estado falha nas necessidades mais básicas que emerge um profundo sentimento de perda de dignidade e humilhação.

E a humilhação produz raiva. A raiva alimenta o punitivismo. E o punitivismo abre um enorme espaço para o discurso da extrema-direita.

São essas três gramáticas que os próximos artigos desta série procurarão destrinchar. Mas é possível antecipar uma conclusão que atravessa as cerca de 270 páginas do livro: esse eleitor não é ignorante, não é irracional e não está necessariamente perdido para a democracia. Está exausto, desconfiado e à espera de que a política volte a fazer sentido na materialidade de sua vida.

A tarefa das forças democráticas, portanto, não é simplesmente vencer o debate nas redes sociais, tampouco repetir o tribunal moral que ajudou a afastar essas parcelas do eleitorado. É reaprender a língua do cotidiano: a do transporte, da fila no posto de saúde, da vaga na creche, do emprego, da segurança na esquina e do preço do arroz. E é nessa língua que será preciso voltar a disputar a esperança.

Na grande ópera política brasileira, o leitmotiv da dignidade já está dado. Os atores estão em cena. E a plateia ainda não deixou o teatro.

[1] Artigo 1 de 4 sobre o livro O novo perfil eleitoral do Brasil: como pensa e como vota o brasileiro. Segue o link para baixar o livro https://www.fjmangabeira.org.br/wp-content/uploads/2026/07/O-novo-perfil-eleitoral-do-Brasil.pdf