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Penso, logo duvido.

Venezuela: a tragédia e a ameaça – Helga Hoffmann

Helga Hoffmann

Campo de refugiados venezuelanos em Bogotá, Colômbia.

Mês passado o Fundo Monetário Internacional disse que a inflação na Venezuela em 2018 vai encerrar o ano em 1.350.000%. Isso significa que na média os preços aumentaram 2,7% cada dia de 2018. O Banco Central da Venezuela informou a taxa de inflação pela última vez em 2015: fechou em 180,9% naquele ano. Desde então o BC não mais informa nem taxa de inflação nem de crescimento da economia. De fato não dá para ter contas nacionais sem preço dos produtos. E não dá mesmo para ter política monetária se a posição do governo é a de que as empresas, os armazéns e as lojas, os capitalistas exploradores e açambarcadores, é que são os culpados do aumento de preços e da escassez, e em que os opositores ainda têm que explicar ao povo que inflação é responsabilidade do governo. Isso depois da estatização de empresas e fazendas ao menor pretexto! Segundo a Assembleia Nacional da Venezuela a inflação em 2018 será quase 4.300.000%, o triplo do que estimou o FMI. Diz o FMI que a inflação está acelerando, passa de 3% ao dia, vai a 10.000.000% em 2019!

Tentei imaginar o que é um número desses no dia a dia. Impossível, é o colapso das trocas e da circulação de mercadorias. O Brasil estava próximo da hiperinflação na passagem dos 1980s para os 1990s, de 40% ao mês chegou a um extremo de 100% ao mês, mas não dá para comparar. No Brasil haviam inventado a famosa indexação diária, que protegia minimamente quem tinha conta em banco e, com preços e salários indexados tinha-se a impressão de que não era tão ruim assim. A maioria de nós já nem sabe mais como era o cotidiano no Brasil com hiperinflação. Os 3% ao dia da fase final não ficaram por muito tempo. Então lembro uma amiga que administrava ela própria sua pequena mercearia e quitanda de bairro, no Rio de Janeiro: todo dia tinha que correr ao banco, ficar na fila, onde todos tratavam de depositar rapidamente qualquer dinheiro recebido, dia seguinte já valeria 3% menos. E o tempão que ela e dois empregados gastavam mudando as etiquetas de preços todo santo dia. Fora a desordem geral, a impossibilidade de planejar e calcular qualquer gasto ou poupança, a dificuldade de comparar quaisquer preços, que se alteravam em ritmo diferente nos vários locais, ninguém sabia bem o preço ou o custo de produção de coisa alguma, estimar produtividade nem pensar, e a estocagem agravava o problema, pois recebido o salário tratava-se de gastá-lo imediatamente, o dinheiro já valeria menos no dia seguinte. Foi quando comprei um apartamento na planta no Brooklin paulista, pago em vários anos. Jamais consegui calcular quanto de fato paguei, o tal do “ruído inflacionário” desorganizou todas as minhas tentativas de estimar preço real, descontada a inflação. Em suma, quem não viveu isso nem consegue entender o caos que isso representa, mesmo que durante um ano fosse só 1,4% ao dia.[1]

Tentei então imaginar o que é o cotidiano da alta de preços venezuelanos com base na mais famosa das hiperinflações, a da Alemanha em 1923. De lá temos as imagens de gente carregando dinheiro em um carrinho de mão e, quando se aproximava o inverno de 1923, a imagem de pessoas queimando notas para se aquecer, porque era mais barato que comprar o carvão correspondente. Não sei de cálculo geral da inflação naquela época. Mas há registros de preços de certos produtos básicos: um ovo, um litro de leite, um quilo de batatas, uma passagem do bonde, um pão de centeio. Um litro de leite, em 9 de junho de 1923, custou 1440 Reichsmark. Em 2 de dezembro de 1923 – ou seja, 176 dias depois, custou 360 bilhões de Reichsmark. Chequei: Milliarden é mesmo bilhão. A impressora rodava sem parar, os salários eram pagos, mas algumas horas depois já valiam a metade. Os camponeses se recusavam a vender produtos agrícolas em troca do dinheiro sem valor, os alimentos se tornaram escassos. Muitas pessoas estavam visivelmente com fome, emagreciam por falta de alimentação, os pintores da época registraram.

Confesso a minha dificuldade de percepção do que seja um aumento de preços de 25 bilhões por cento em pouco menos de meio ano, entre junho e dezembro de 1923 (minha estimativa com base no preço do leite). Mas consigo entender porque ficou para sempre instalado na memória coletiva da Alemanha tamanho horror da inflação e de déficits fiscais e endividamento público que podem facilmente gerar tal inflação, um medo de inflação que já virou até estereótipo da alma alemã e da alma da Chanceler Angela Merkel.[2]Já se disse que medo de inflação tornou-se parte do DNA alemão. O espantoso é que essa experiência histórica do colapso causado pela impressora rodando sem parar, que acaba com a confiança na moeda, não tenha funcionado como lição para outros países mundo afora.

A Venezuela hoje, ao menos nos números, é o mais parecido que vi com a hiperinflação alemã de 1923. Parecido só nas cifras e na Casa da Moeda em Maracay imprimindo notas ininterruptamente.[3]Pois as causas um pouco mais remotas são bem diferentes. A Venezuela não está pagando dívidas de guerra. É um estado que foi se autodestruindo pouco a pouco, em que as empresas e fazendas estatizadas foram produzindo cada vez menos. Até a PDVSA, da qual dependiam 80% das receitas do governo, produz muito menos que no passado.

Há em comum a fome. Latinobarómetro, um prestigioso instituto de pesquisas de opinião sediado em Santiago do Chile, apresentou recentemente um relatório sobre 18 países da América Latina. O foco é satisfação ou insatisfação com a democracia. No caso da Venezuela o que chama a atenção é que mais de metade das pessoas disseram não ter o suficiente para comer. Outras pesquisas já relataram que 60% da população venezuelana perdeu peso nos últimos anos. As fotos de prateleiras vazias nos supermercados venezuelanos já nem mais espantam. Os produtos já não chegam às lojas. A distribuição de itens básicos é feita por cartões de racionamento. Serviços públicos não funcionam, o transporte quase parou, há apagões frequentes, turistas na ilha Margarita já ficaram no escuro, há falta d’água, pais deixam suas crianças nos orfanatos na esperança de que ali chegue mais comida, doenças que já estavam erradicadas voltaram. E isso em um país que já foi rico. Sim, com imensas desigualdades, mas a Venezuela já foi país rico. E não é verdade que a melhor maneira de combater desigualdade é gerar pobreza. A pobreza de hoje não é resultado direto do aumento de preços, mas sim da desorganização da economia, agravada agora pela falta de confiança na moeda.

Os milhares de refugiados venezuelanos nos países vizinhos, sobretudo os que entraram em massa na Colômbia, em Roraima no Brasil, onde chegam caminhando pelas estradas, no Perú, no Chile e outros países próximos, assim como os que chegaram antes à Espanha e aos Estados Unidos em números inéditos, por si só já indicam que a Venezuela precisa de ajuda. E os vizinhos também precisam de ajuda para abrigar os mais pobres. Os venezuelanos precisam de alimentos e remédios. O que a América Latina quer é encontrar uma maneira viável de dar ajuda humanitária à Venezuela e aos refugiados que chegam, considerando que o governo Maduro impede entrada de ONGs e ajuda direta à população em território venezuelano. Em agosto deste ano o Ministério das Relações Exteriores e a Presidência da República da Venezuela chegaram até a emitir declarações negando a existência de uma crise migratória, para espanto geral. Seria apenas xenofobia dos vizinhos.

Como ajudar a Venezuela, em crise humanitária que desborda suas fronteiras? A América Latina está pedindo apoio dos Estados Unidos para buscar um remédio para a crise humanitária que a atinge. Os Estados Unidos continuam sendo o maior importador do petróleo venezuelano. Mas a eficácia dos embargos é um tema controvertido. Não se sabe se um embargo da exportação da PDVSA, que agravaria ainda mais a crise humanitária, não reforçaria o grupo que controla o poder e domina o que resta da economia.

A recente ameaça do governo Trump de incluir a Venezuela na lista de países terroristas não ajuda absolutamente nada. A ameaça que vem da Venezuela são as multidões de venezuelanos chegando nos países vizinhos e o colapso nos serviços públicos que a sobrecarga repentina está causando. Nenhum país vizinho falou em terroristas venezuelanos. Existe sim, dentro da Venezuela, indícios de que há quem pense em uma solução armada para derrubar o governo Maduro. Um erro, e por ora os serviços de segurança providos por Cuba em ampla escala, assim como as armas russas e chinesas, parecem inamovíveis. Melhor trabalhar por um embargo na exportação de armas ou de agentes de segurança. E é bom lembrar que boa parte da oposição síria já disse mais de uma vez que foi um erro adotar a opção armada depois dos protestos pacíficos de 2011 contra o ditador Assad. Os latino-americanos não querem uma Síria junto às suas fronteiras.

A Venezuela não está exportando terroristas. Está exportando pobreza. Nem vem ao caso, para os países que estão recebendo os refugiados, essa discussão atual nos Estados Unidos sobre se essa lista dos estados que promovem o terrorismo, criada em 1979, em geral faz algum sentido. Apenas quatro países receberam tal designação: Irã, Coreia do Norte, Sudão e Síria. Essa lista de países é determinada por considerações políticas nos Estados Unidos e não capta de fato países que apoiam ou toleram terrorismo, como o caso notório do Paquistão e da Arábia Saudita. Seja como for, colocar a Venezuela na tal “lista do terror” não faz sentido algum. Pode até ser que torne mais difícil para empresas americanas continuar comprando petróleo da Venezuela. Mas é duvidoso que possa mudar o governo Maduro. Como na hipótese do embargo ao petróleo, pode até ter o efeito contrário, ao reforçar alegação de que é o imperialismo americano a verdadeira causa dos sofrimentos da população da Venezuela.

***

[1]Em Saga Brasileira, Miriam Leitão conta, no capitulo 8, algumas peripécias no cotidiano das pessoas durante a hiperinflação brasileira do fim dos 1980s e começo dos 1990s.

[2]Desconfio até que, no fundo, cá estou eu sentada escrevendo sobre a hiperinflação alemã exatamente porque sou de certa forma um produto dela: meu avô materno, engenheiro Carl Reger, chegou em Santos em 1922, contratado por uma firma alemã para construir estandes para a Exposição Industrial do Centenário da Independência do Brasil. Terminado o contrato não quis voltar para a Alemanha. Era bem informado: voltar para uma Hamburgo empobrecida, em que o desemprego chegava a 25%, e as pessoas iam com grandes cestos comprar um pão por 105 bilhões de Reichsmark?

[3]A Casa da Moeda de Venezuela funciona produzindo moeda desde 1999/2000; é considerada um feito do governo bolivariano, pois a ideia é produzir moeda também para os países centro-americanos. Mas é sabido que não deu conta de imprimir o suficiente em épocas de troca de moeda, quando foram contratadas casas de moeda no exterior, até nos Estados Unidos, onde existiram conflitos e acusações com a Crane Currency.

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