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Estância de Ginastera, quatro danças com tempero portenho – Frederico Toscano

Frederico Toscano

Dança folclórica tradicional da Argentina que remonta ao século XVII, o malambo foi homenageado por Ginastera em sua obra “Estância”. Originalmente uma dança exclusivamente masculina, é cada vez mais comum encontrarmos mulheres em suas apresentações.

Com a morte de Heitor Villa-Lobos em 1959, Alberto Evaristo Ginastera (1916-1983) tornou-se o mais popular compositor erudito sul-americano. Aos sete anos, este argentino de Buenos Aires iniciou seus estudos musicais, formando-se no Conservatório Williams com medalha de ouro em composição antes de completar seus 20 anos de idade. Mesmo sem concluir os estudos no Conservatório Nacional de Música, viu sua carreira decolar no cenário musical argentino quando o maestro Juan José Castro (1895-1968) regeu no tradicional Teatro Colón sua suíte orquestral do balé Panambí, em 1937.

A linguagem estimulante, lírica e vibrante da música de Ginastera conheceu inúmeras transformações: desde a inspiração no folclore até todas as experiências do século XX. Influenciou o desenvolvimento musical de seu país, incluindo várias bandas de rock progressivo, desdobrando-se entre o ensino, a composição e projetos de difusão da música contemporânea. Começou como professor no Conservatório Nacional e na Academia Militar Nacional San Martín em 1941, mesmo ano em que viajou aos Estados Unidos para participar do Tanglewood Music Festival. Nesta ocasião, o contato com o célebre compositor norte-americano Aaron Copland (1900-1990) rendeu a Ginastera mais que uma longa amizade: um rico confronto entre ideias nacionalistas e concepções de vanguarda.

A intensificação da política peronista provocou a demissão de Ginastera da Academia Militar. Um ambiente insustentável o convenceu a ir, em dezembro de 1945, para os Estados Unidos, onde permaneceu até março de 1947. Em sua volta, funda a seção argentina da International Society for Contemporary Music e assume a organização e direção do Conservatório de Música e Teatro da Universidade Nacional de La Plata. Ainda dissonante em relação aos peronistas, perde o cargo de diretor em La Plata, em 1952. Com a derrota do tenente-general Juan Domingo Perón (1895-1974), reassume sua carreira na Universidade em 1956.

Ginastera compôs dos anos 1930 até sua morte. Ao final dos anos 1960 fez um balanço de seu trabalho, dividindo o conjunto de sua obra em três períodos estilísticos: o do “nacionalismo objetivo” (1934–1947), que faz referências diretas ao folclore argentino por meios tradicionais; o do “nacionalismo subjetivo” (1947–1957), que sintetiza elementos folclóricos em favor de um estilo argentino original; e o do “neo-expressionismo” (a partir de 1958), em que combina procedimentos experimentais de vanguarda com inspirações surrealistas. Os teóricos identificam ainda um quarto período: o das “sínteses finais” (1976–1983), no qual suas obras articulam tradição e inovação extrema.

O ano de 1941 foi, sem dúvidas, um ano marcante para Ginastera. Naquele ano, casou-se com Mercedes Toro, com quem teve dois filhos, assumiu o cargo de professor de Composição do Conservatório Nacional e de professor titular do Liceo Militar General Saint Martín e compôs Estância, sua música mais conhecida. Como reação ao sucesso de seu primeiro balé, Panambí, composto entre 1934 e 1937 e estreado em 1940, o coreógrafo Lincoln Kirstein (1907-1996), um dos fundadores e diretores da American Ballet Caravan, encomendou a Ginastera um balé que retratasse a vida nas estâncias argentinas, isto é, nas fazendas de gado dos pampas, tradicional reduto do gaúcho.

Ginastera, que sempre nutriu uma admiração especial pelo campo, resolveu inspirar seu balé no poema do jornalista argentino José Hernández (1834-1886), El Gaucho Martín Fierro, publicado em 1872. A obra de Hernández é ainda hoje considerada por muitos como o livro nacional dos argentinose figura como um dos mais icônicos exemplares da literatura portenha. Para além da exaltação da figura do gaúcho como sofrido, corajoso e honrado, a obra é um libelo contra a política de Estado da época, que incentivava gaúchos na luta assassina contra indígenas.

Do poema de Hernández, Ginastera tomou de empréstimo principalmente a estrutura temporal, de modo que o balé descreve o ciclo de um dia inteiro passado numa estância, numa estrutura amanhecer-dia-tarde-noite-amanhecer. Ademais, versos do poema são cantados e recitados no balé. Seu enredo, no entanto, difere do poema ao narrar a história de um jovem da cidade que se mudara para uma estância e ali se apaixonara por uma jovem do campo, que o desprezaria até o momento em que o jovem fosse capaz de provar ser um verdadeiro gaúcho.

Apesar da encomenda, Kirstein viu sua companhia de dança se dissolver antes mesmo que tivesse a oportunidade de montar o balé de Ginastera, que optou então por reunir numa suíte para orquestra quatro das mais expressivas seções da obra original. A mais executada dentre as obras sinfônicas argentinas e uma das mais emblemáticas obras do nacionalismo objetivode Ginastera, a suíte Estânciaconta com três movimentos extraídos da segunda cena do balé, La mañana, e com um movimento final isolado de El amanecer, quinta e última cena do balé.

De estilo stravinskiano,Los trabajadores agrícolassugere através de uma dança vigorosa e impetuosa o esforço dos trabalhadores na colheita do trigo. Danza del trigoé um interlúdio lírico que evoca o cenário bucólico de uma estância pela manhã. Los peones de haciendaé um curto scherzoinspirado na figura do vaqueiro. E a Danza finalretrata o começo de um novo dia através da estilização do tradicional malambo, dança originalmente masculina argentina na qual o dançarino executa uma série de movimentos com os pés e que, no século XIX, era tida como a principal forma de um gaúcho demonstrar destreza e vigor.

Escrita entre 1941 e 1943, a obra-prima de Ginastera conta em sua instrumentação com o flautim, duas flautas, dois oboés, dois clarinetes, dois fagotes, quatro trompas, dois trompetes, tímpanos, percussão, piano e cordas. No vídeo a seguir, o maestro Eduardo Diaz Muñoz interpreta Estânciade Ginastera diante da SCM Symphony Orchestra:

Ginastera foi um compositor completo. Além de desenvolver modernas técnicas de composição, valendo-se do estilo microtonal, construiu um currículo acadêmico respeitadíssimo. Sua obra – que inclui óperas, balé, música para teatro, concertos para piano e música de câmara, entre vários outros gêneros – foi utilizada até mesmo em trilhas sonoras de filmes, como Rosa de América(1945) e Enigma de mujer(1956).

Ao contrário de sua agitada carreira, o mestre argentino levou uma vida pessoal com relativa discrição. Em 1970 resolveu mudar-se para Genebra, na Suíça, onde conheceu e casou-se pela segunda vez, com a violoncelista Aurora Natola. Longe das turbulências políticas e econômicas da Argentina, o compositor passou a utilizar cada vez menos a temática folclórica e dedicar-se mais à criação de obras neo-expressionistas, que foram fontes de inspiração de bandas como Yes, Gênesise Pink Floyd.

Alberto Ginastera morreu no dia 25 de junho de 1983, curiosamente no mesmo ano em que a Argentina voltava à democracia com a convocação de eleições

One Comment

  1. Bacana Frederico Toscano apresentar mais uma estrela argentina. Outro dia, um grupo de amigos fizemos uma lista de argentinos queridos, que começou com Quino (o pai da Mafalda, a garota destemida que já tem museu em Buenos Aires), e seguiu com Jorge Luis Borges, Mercedes Sosa, Carlos Gardel, Ricardo Darin, Carlos Monzón, e até Raul Prebisch, que foi menos cepalino do que em geral se supõe. Nem chegamos aos filmes, que há alguns argentinos ótimos. E agora Toscano resgata Alberto Ginastera. Lindo.

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