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Penso, logo duvido.

Impressões de um viajante: Machu Picchu – João Rego

João Rego

Machu Picchu by João Rego

Machu Picchu by João Rego

A visita a Machu Picchu, no que diz respeito à estrutura turística do Peru, é algo de se admirar, pela competência e organização. Cusco, cidade que foi centro do domínio Quéchua, cujo imperador foi o Inca, recebe trinta e cinco voos diários com turistas do mundo inteiro. É de Cusco, cidade de meio milhão de habitantes, que se parte, em um trecho de ônibus e outro de trem, para se chegar a Águas Calientes, a cidade ao pé de Machu Picchu.

Subimos em um pequeno ônibus num ziguezague de uma curta trilha até a entrada de Machu Picchu. Até ali nada de novo nem surpreendente. A surpresa foi quando, após andar uns duzentos metros, nos deparamos com a cidade de Machu Picchu. O cenário é estonteante e, dependendo da crença do viajante, todos os pensamentos explodem em nossas mentes. Para o místico, sente-se a energia de um lugar outrora sagrado. Para o trilheiro é apenas um ponto de chegada, após quatro exaustivos dias embrenhado no meio das montanhas da região. Para outros, apenas mais um lugar interessante para se dizer que foi e tirou belas fotografias.

No meu caso, inicialmente, veio a mim uma enorme sensação de insegurança, pois estava chuviscando, e as escadas de pedras irregulares com os abismos que nos cercam nos impõem  a exata limitação do homem diante de uma amplitude infinita.

Machu Picchu é uma plataforma que coloca o homem, pequeno e isolado, cara a cara com o enigma do universo.

Havia lido algo sobre as diversas e antigas culturas que existiram no que é hoje o Peru. A civilização Chavín, que existiu durante mil e quinhentos anos antes do império Inca, a Wari com sua arte bastante distinta, a cultura Nasca com suas intrigantes linhas no deserto só visíveis de um avião, denunciando uma complexa e rica tecnologia sobre astronomia, entre outras áreas do conhecimento.

Os Incas, ou a cultura Quéchua, tiveram o grande mérito de dominar, em apenas trezentos anos, toda a região que vai da Bolívia à Argentina, envolvendo sob seu domínio uma população de dez milhões de habitantes! Algo equivalente a ter, nos dias de hoje, um país com várias vezes o poderio bélico e cultural dos Estados Unidos, tudo concentrado no oeste do continente Sul Americano, espremido pela cordilheira dos Andes. Do lado de cá, incompreensivelmente, nossos nativos viviam alijados de tecnologias avançadas, sobrevivendo com raras e primitivas estratégias de sobrevivência.

Ao ouvir a guia – competente, como todos os outros guias de nossa viagem  – falar sobre como em Machu Picchu se praticava a religião, a ciência e a tecnologia, o sexo como ritual, a dominação e a morte, não  pude evitar de fazer comparação com nossas culturas ocidentais e modernas, ambas perdidas em busca de algo que dê sentido às suas existências, tamponando a angustiante sangria  da incerteza do não-sentido civilizatório com a religião ou a lei, sempre através  da força de uma elite dominante sobre a incauta e inculta  maioria, que somos nós, a população dominada.

Machu Picchu seria algo como a Igreja de São Pedro no Vaticano, tendo no mesmo espaço os modernos laboratórios da Nasa ou CERN na Suíça, associado a uma prática de dominação bélica, econômica e cultural, mais ou menos como Roma ou os Estados Unidos fizeram e fazem com as outras nações hoje, com uma pitadinha  da prática charlatã da Igreja Universal do Reino de Deus – os sacerdotes escolhiam as mais belas jovens de 12-13 anos para serem suas concubinas, entre outros privilégios –usando da autoridade mítica do poder para extrair bens e favores para si.

Enfim, trata-se de um microcosmo que a história nos oferece como exemplo do caminhar da humanidade sobre as trilhas do tempo: dominando o outro, criando e destruindo e recriando num movimento incessante da luta da cultura contra a pulsão.

 

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

8 Comments

  1. João,

    Foi um privilégio ter compartilhado com você este encontro com um mundo fascinante. Espero poder compartilhar de novas “aventuras”. João se prepara para as viagens. Lê tudo e vira um “guia particular”, com erudição, mas simplicidade, e análises psicanalíticas fantásticas. Programemos outras e, com certeza, incluindo mais amigos.

  2. Proponho à JR TOURS uma rota pelo Danúbio( é linda) e uma escapada para Viena. Com vários guias de várias formações para evitar a hegemonia lacaniana. Ao menos um deles freudianemente ortodoxo.Chamo atenção para um guia de neuropsicanalise, na onda de Pfefer e de Solms.
    estou nessa.

    • Caro David
      Grande Dica. Tenho apenas que tomar cuidado com essas correntes da psicanálise, pois Lacan já dá um trabalho arretado. Em Viena será obrigatória a visita a Bergstrasse 19, onde viveu Freud. Como diria meu colega Luciano Oliveira : ir lá para beijar a pedra.

  3. Oi João,
    Parabens pela viagem. Um dia pretendo faze-la. Machu Pichu significa “velho pico ” no idioma quechua e foi o último refúgio dos incas perseguidos por Pizarro, na destrutiva conquista peruana. Fica próxima do Rio Urubamba, que também é nome de uma banda de música folclórica. Salvo engano, esta cidade só foi descoberta no começo do século XX por um professor americano, durante uma expedição. Se puder mandar algumas fotos, fico grato, pois assim me delicio enquanto a viagem não vem.
    Um forte abraço.

    André

  4. Caro Abraham
    Vamos nos preparar para a próxima.
    Abraço para Lúcia Helena

  5. João, Caríssimo!

    Belo texto sobre os mistérios do mundo no topo dos Andes…
    Mas, só para provocar, me diga: você acha mesmo que pessoas como nós (você, eu etc), que podemos discutir onde serão nossoas próximas férias, se em Aracaju ou em Viena, fazemos parte da maioria incauta e inculta de dominados?…

    Luciano, o Materialista Franciscano

  6. Caríssimo Luciano:
    Diante daqueles que tem o poder político sou, assim como os cidadãos e cidadãs, um incauto pois sempre sou apanhado de surpresa pelas diretrizes da política brasileira que moldam nossa sociedade; agora inculto se comparado a sua erudição de sociólogo e pensador da democracia e outras coisas mais….um dia chego lá.
    P.S E ainda por cima franciscano materialista, que privilegio para um pensador abrir mão dos desejos consumistas para se preocupar só com a verdade efetiva das coisas.

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