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Penso, logo duvido.

Noites recifenses III – O calçadão

Teresa Sales?>

 Cal?ad?o da praia de Boa Viagem

Cal?ad?o da praia de Boa Viagem

Quando eu vim morar no Recife, meus amigos aristocr?ticos foram un?nimes: venha pra Casa Forte. E eu comigo: nem pensar. Depois de trinta anos em terras paulistanas banhadas apenas pelos rios/creme Tiet? e Pinheiros, o que eu mais queria ent?o como agora era uma beira de mar.

A primeira discuss?o urbana que acompanhei pelos jornais (naquele tempo n?o acompanhei pelas redes sociais ? haveria?) foi sobre a reforma no cal?ad?o da orla Pina/BoaViagem. Muitos cr?ticos atacando os desprop?sitos da obra. Onde j? se viu? Trocar as tradicionais pedras portuguesas por uma cer?mica qualquer (depois vim a saber pelo Dr. Malaquias Batista, que o incontest?vel IMIP colocou essas mesmas pedras, a cer?mica intertravada, em suas ?reas externas, por motivos ecol?gicos). Acompanhei a obra passo a passo, atrapalhando meus roteiros de caminhada matinal.?

E fui achando aquilo cada vez mais bonito. Outro desentendimento de opini?es com meus amigos. O fato consumou-se, n?o se falou mais nisso. Ficou um fen?meno social novo, muito de acordo com a emerg?ncia das novas classes m?dias urbanas. O cal?ad?o virou uma formid?vel ?rea de lazer. N?o que n?o fosse antes. Mas n?o tinha as propor??es que tem hoje em dia.?

Essa imensa orla cont?nua Pina/BoaViagem/Piedade ? uma b?n??o para o Recife. Foi mudando seu uso desde o tempo em que apenas algumas fam?lias judias do tempo dos holandeses ocuparam o Pina (sobrenome de uma dessas fam?lias); at? o tempo muito depois, quando a burguesia a?ucareira construiu suas casas de veraneio ? beira mar (cad? a Casa do Navio?); at? os dias de hoje, em que o caminhar cont?nuo dos aterros povoou por ricos e pobres toda a imensa Boa Viagem.

?No meu tempo de estudante universit?ria, quando ?ramos toda a sociedade mais magra e n?o tinha ainda essa moda de caminhar e correr, quando se caminhava sim, pelo simples viver, porque n?o se tinha carro, nesse tempo Boa Viagem era n?o apenas a praia a frequentar nos finais de semana, como era j? uma ?rea de lazer noturna. Vamos tomar uma ?gua de c?co em Boa Viagem? Muitas vezes uma cantada que poderia resultar em namoro.?

Voltemos ao cal?ad?o. A primeira impress?o, quando ainda era poss?vel comparar o novo com o antigo, era de que tinha ficado mais largo. Pura ilus?o de ?tica, pois n?o houve alargamento algum, mas apenas mudan?a do piso. Conversei na ?poca com v?rios caminhantes matinais e, mesmo os cr?ticos, concordavam com essa impress?o. Por outro lado, em vez de uma faixa de cimentado pintada no meio das pedras brancas marcando a quilometragem no ch?o, a ?rea caminhante passou a ser apenas um discreto detalhe no todo da bela pagina??o do cal?ad?o, com suas pedras vermelha, cinza escuro, cinza claro e cor-de-burro-quando-foge.?

Logo depois de pronto, algu?m teve a iniciativa de fazer um novo uso no cal?ad?o no happy hour e ? noite dos finais de semana. Estacionava uma combi na ?rea de estacionamento do lado do cal?ad?o e vendia cerveja, queijo de qualho assado, churrasquinho e outros petiscos. O uso se expandiu rapidamente. Lucro certo para quem vendia, divertimento barato para quem frequentava. Os bancos eram usados qual cadeiras de um bar ao ar livre e, entre os bancos, no espa?o mais baixo, o gar?om servia os petiscos em pratos descart?veis devidamente ladeados de guardanapos, com cestos de lixo no ch?o. Tudo muito organizado, sem sujeira e sem m?sica, que essa foi desde logo proibida. Era uma festa. Na informalidade, a cervejinha dos amigos, dos namorados ou da fam?lia ficava mais barata, com a serventia dada pela natureza na brisa do mar, sem pre?o de aluguel, sem pre?o de climatiza??o. N?o sei se por press?o dos moradores dos pr?dios, ou, mais provavelmente, dos donos das barracas de c?co, essa informalidade teve curta dura??o.

Acabo de chegar de uma caminhada pelo cal?ad?o ao por do sol e come?o da noite desse abril de 2013, com os ?ltimos estiados do ver?o e j? o pren?ncio das chuvas de inverno. Aos poucos, fui compassando meus passos para acompanhar o passeio. Sim, porque hoje ? s?bado, como diria o nosso bo?mio poeta de Copacabana. Quase n?o se viam corredores ou caminhantes em passo r?pido, como ? comum durante a semana. Eram fam?lias inteiras passeando, pais, filhos, av?s. Casais de m?os dadas. Jovens casais com carrinhos de beb?s. Meninos andando de bicicleta n?o na faixa de ciclismo (exerc?cio ou trabalho) e sim no cal?ad?o, qual uma grande pra?a. As partidas de futebol com grandes torcidas, acomodados todos nos bancos. Os bancos. Essa foi uma grande inven??o desse novo cal?ad?o. O passeio pede descanso. Toma-se uma caipirinha, uma cerveja, uma guaran?, um salgadinho, tudo o que a barraca de c?co pode oferecer al?m da ?gua de c?co. E os casais se beijam e se abra?am nos bancos, ao lado de meninos que correm. Fica quieto, menino danado!

Quando um equipamento urbano d? espa?o para o bom lazer compartilhado por ricos e pobres.

2 Comments

  1. Tereza
    Gostei muito de sua crônica, tanto do estilo como da descrição convivial da orla de Boa Viagem. A mim, tampouco, as pedras portuguesas me disseram grandes coisas.
    Como ciclista de longo curso, só achei estranho a sinuosidade da ciclovia que obriga manobras de 45 graus a cada 10 metros. Parece que prevaleceu a estética do arquiteto-urbanista, em detrimento do pedalar confortável por lazer ou a trabalho.

  2. Tereza! Há quanto tempo! Fico contente de reencontrá-la do jeito que sempre a percebi, com grande sensibilidade e inteligência. Já naqueles tempos de Colégio intuia que você seria uma daquelas que não passaria pela vida ‘em brancas nuvens!’. Esse seu texto ‘delicioso'(presumo que seja – hum – ‘num palheiro’) me remeteu à infância e a adolescência, vividas nessa praia maravilhosa! Qualquer dia desembarco por aí e vou lhe procurar para um longo ‘papo’. Abraços da amiga Eliane.

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