Pages Navigation Menu

Penso, logo duvido.

Raízes do Brasil

Fernando da Mota Lima

S?rgio Buarque de Holanda

S?rgio Buarque de Holanda

S?rgio Buarque de Holanda nasceu em S?o Paulo no ano de 1902. Era portanto muito jovem quando o modernismo irrompeu ruidosamente na cena cultural brasileira com a Semana de Arte Moderna em 1922. Embora intelectualmente muito atuante ao longo do dec?nio de 1920, tamb?m durante os anos seguintes, somente publicou seu primeiro livro em 1936, quando Ra?zes do Brasil veio a p?blico. No entanto, o livro, tal como hoje o conhecemos, foi muito modificado entre a primeira edi??o e a segunda, que data de 1948. Apesar de confessadamente n?o encarar Ra?zes do Brasil como seu livro mais importante (preferia Vis?o do Para?so, cuja import?ncia capital se imp?e cada vez mais aos olhos dos especialistas), o fato ? que esta ? a obra que o consagrou e se mant?m como a mais significativa e estudada no conjunto da sua produ??o intelectual.

S?rgio Buarque viveu cerca de um ano e meio na Alemanha, entre junho de 1929 e dezembro de 1930. Menciono ligeiramente essa experi?ncia porque teve muita import?ncia na sua vida e forma??o, al?m de se refletir de v?rios modos no texto de Ra?zes do Brasil. S?rgio Buarque foi para a Alemanha como correspondente de O Jornal, peri?dico de propriedade de Assis Chateaubriand. Al?m de observar? o clima de viol?ncia e tens?o social que em 1933 culminou com a ascens?o de Hitler e do? partido nazista ao poder, leu muito da produ??o intelectual alem? desconhecida no Brasil. Leu em particular Max Weber e Georg Simmel. Do primeiro aproveitou o conceito de patrimonialismo para melhor compreender a forma??o do Estado brasileiro e seu aparato burocr?tico; com o segundo refina sua percep??o anal?tica dos tipos sociais que certamente ilumina categorias como o semeador e o ladrilhador, n?cleo e t?tulo do cap?tulo 4 de Ra?zes do Brasil.

Desde j? esclare?o que as cita??es diretas que acaso fa?a da obra no texto que segue ser?o extra?das da edi??o comemorativa dos 70 anos organizada por Ricardo Benzaquen de Ara?jo e Lilia Schwarcz, Editora Companhia das Letras, 2006. Al?m de ser uma edi??o previsivelmente bem mais ampla e melhor cuidada do que todas as precedentes, vem enriquecida por textos do pr?prio autor e de estudiosos e especialistas, arrematados pelos ?Apontamentos para a cronologia de S?rgio Buarque de Holanda? assinados por Maria Am?lia Buarque de Holanda, sua companheira e colaboradora da vida inteira. Al?m de republicar o sempre citado pref?cio de Antonio Candido escrito para a edi??o dos 30 anos de Ra?zes do Brasil, s?o adicionados textos importantes de Alexandre Eul?lio, Evaldo Cabral de Mello, Bolivar Lamounier, Antonio Arnoni Prado, Pedro Meira Monteiro e Robert Wegner.

Enriquecem ainda o volume? tr?s documentos raros: o muito citado artigo no qual ? reposta a controv?rsia entre Cassiano Ricardo, autor do artigo, e S?rgio Buarque de Holanda acerca do conceito de homem cordial. Como sabemos, esse conceito, central na argumenta??o do livro de S?rgio Buarque, tem sido objeto de ampla fortuna cr?tica, mas tamb?m de muito mal-entendido. O mal-entendido aparenta originar-se das cr?ticas formuladas por Cassiano Ricardo. Portanto, ? oportuna a inclus?o do seu artigo na edi??o que comento acrescido da resposta de S?rgio Buarque em forma de carta endere?ada a Cassiano Ricardo. Essa quest?o ? ainda melhor iluminada pela inclus?o de um curto texto de Ribeiro Couto, datado de 1931, no qual ele sa?da o surgimento do homem cordial na Am?rica origin?rio da fus?o do homem ib?rico (o espanhol e o portugu?s) e as culturas nativas do Novo Mundo. Cuidarei melhor dessa quest?o no lugar apropriado, quando abaixo discutir o cap?tulo relativo ao homem cordial brasileiro. Por fim, um texto ainda mais precioso: o? ensaio ?Corpo e alma do Brasil?, publicado em 1935. Nele S?rgio Buarque sintetiza o que no ano seguinte constituiria a primeira edi??o de Ra?zes do Brasil. Como j? observei no par?grafo de abertura, a obra foi refundida e ampliada na segunda edi??o, lan?ada em1948, que passou a ser o texto definitivo da obra que estudamos.

O t?tulo da obra j? indica, de partida, sua regress?o ?s origens da nossa forma??o hist?rico-cultural com o prop?sito de explicar o Brasil. Essa ? uma caracter?stica comum a todas as obras que comp?em a tradi??o do pensamento social brasileiro. No caso do livro de S?rgio Buarque, por?m, o objetivo de estudar o passado visando as quest?es fundamentais do presente ? bem mais n?tido, como ali?s ressaltou Antonio Candido. Uma das evid?ncias imediatas desse fato consiste nos t?tulos e na mat?ria dos dois cap?tulos finais intitulados ?Novos Tempos? e ?Nossa Revolu??o?. S?rgio Buarque recua portanto a nossas origens hist?rico-culturais para projetar luz sobre o presente, para melhor compreender e esclarecer os problemas fundamentais e impasses da sociedade brasileira.

O autor ressalta nas p?ginas iniciais duas quest?es de grande relev?ncia no conjunto da obra. A primeira refere-se ao processo de implanta??o da cultura europeia no tr?pico, fator origin?rio da constitui??o da cultura brasileira. Depois de acentuar as diferen?as profundas observ?veis entre esses dois? mundos que se encontram, entrechocam e por fim geram uma realidade inteiramente nova, S?rgio Buarque escreve um dos per?odos mais citados da sua obra: ?Trazendo de pa?ses distantes nossas formas de conv?vio, nossas institui??es, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavor?vel e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra?. (p. 19)

A segunda quest?o diz respeito ? cultura da personalidade t?pica do homem ib?rico. Depois de observar que representou o tra?o mais importante desse povo, esclarece que ela traduz o valor, a originalidade de cada pessoa que assim se diferencia da coletividade e at? a esta se op?e. Salientando a oposi??o entre o culto da personalidade e as formas de associa??o caracter?sticas de toda coletividade, S?rgio Buarque assinala que essa forma de personalismo ib?rico constituiu e constitui ainda na nossa cultura uma for?a de oposi??o ? coletividade, al?m de estar na raiz das for?as an?rquicas e desordenadoras da nossa sociedade. Paradoxalmente, ela sup?e a obedi?ncia, que se afirma notadamente em situa??es de crise de autoridade. Como justamente anota, ?Em terra onde todos s?o bar?es, n?o ? poss?vel acordo coletivo dur?vel, a n?o ser por uma for?a exterior respeit?vel e temida?. (p. 21).

Assim, na terra onde medra o personalismo altaneiro, n?o raro arrogante, em termos pol?ticos o autoritarismo t?pico da Am?rica Latina, medra tamb?m a obedi?ncia imposta por uma autoridade temida nos momentos de crise. A terra do personalismo ib?rico ? tamb?m f?rtil na produ??o de for?as sociais an?rquicas, como tamb?m j? ressaltei. S?rgio Buarque acrescenta, a esse prop?sito, que essas for?as sempre se manifestaram na nossa hist?ria, n?o raro favorecidas pela cumplicidade e a leni?ncia das institui??es. Importaria esclarecer, visando melhor contextualizar a obra, que ela foi escrita em meio a esse clima no qual se manifestavam for?as an?rquicas representadas por rebeli?es armadas e combates ideol?gicos e conflitos violentos travados por comunistas e integralistas, ambos buscando solu??es pol?ticas e sociais avessas ? democracia. ? significativo que o Estado Novo, institu?do atrav?s de um golpe de Estado por Get?lio Vargas em 1937, portanto no ano seguinte ao da publica??o de Ra?zes do Brasil, tenha imposto essa autoridade temida diante da qual o personalismo assina o pacto social da obedi?ncia. Como sabemos, o Estado Novo vigorou at? 1945. Depois de um per?odo conturbado, durante o qual o Partido Comunista manteve-se na legalidade apenas por um curto per?odo, sobreveio o golpe militar de 1964 e a ditadura militar que se prolongou at? 1985. Esses poucos fatos hist?ricos conferem for?a explicativa ao livro de S?rgio Buarque.

Penso que as for?as an?rquicas sublinhadas na obra de S?rgio Buarque tamb?m se manifestam em ?mbito distinto do estritamente pol?tico acima mencionado. Elas s?o? observ?veis, por exemplo, no cotidiano da nossa cultura, na nossa incapacidade cr?nica de instituirmos rela??es de conv?vio baseadas na distin??o fundamental entre a esfera p?blica e a privada. Nossas for?as de desregramento social s?o facilmente vis?veis numa cena qualquer de rua, no estado t?pico de uso e conserva??o da rua. Afinal, ? ela quem define culturalmente a concep??o inconsciente e a pr?tica de sentido p?blico que imprimimos ? nossa experi?ncia social.

Outra quest?o relevante, tamb?m salientada por S?rgio Buarque, liga-se ? condi??o exc?ntrica do mundo ib?rico na Europa. Essa excentricidade resulta tanto da posi??o geogr?fica da pen?nsula ib?rica, espremida entre o continente europeu e o? africano, quanto de caracteres culturais diferenciadores fruto do contato do ib?rico com o ?rabe e o judeu. Essa experi?ncia de contato cultural com povos do continente africano familiarizou o portugu?s com a mesti?agem e lhe foi de grande utilidade no processo de coloniza??o do Brasil onde desde o in?cio, como bem sabemos, livremente se mesclou com as tribos ind?genas atrav?s do acasalamento com a mulher ?ndia, mais tarde com a negra. Trata-se, em suma, de uma? quest?o? antes bem explorada por Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala. Portanto, S?rgio Buarque apenas reitera o que se pode ler nas p?ginas da obra do seu antecessor.

Retomando a quest?o pertinente ao culto da personalidade, ela se irmana ao conceito de cordialidade que estudarei adiante. O personalismo ib?rico, t?o acentuado no livro de S?rgio Buarque, atua como for?a avessa ? organiza??o coletiva da sociedade. Quando se associa, tende a associar-se baseado em rela??es de sentimento, n?o de interesse. Esse ? um dos aspectos em que ? poss?vel notar a profunda diferen?a entre o individualismo moderno, t?pico da tradi??o anglo-sax?nica, e o personalismo ib?rico. Este produz um tipo de individualismo com raz?o detestado e detest?vel, pois se afirma indiferente aos interesses e direitos coletivos. Noutras palavras, o que entre n?s ainda vigora n?o ? o princ?pio segundo o qual minha liberdade termina onde a do outro come?a, mas sim o princ?pio que autoritariamente ordena: os incomodados que se mudem.

Caberia ainda acrescentar, nesse paralelo sum?rio entre o individualismo de extra??o anglo-sax?nica e o personalismo ib?rico, que este mascara interesses expl?citos naquele. J? que se baseia nas rela??es de sentimento, o personalismo rejeita a atua??o dos interesses nas rela??es associativas. Assim procedendo, tende a mascar?-los, al?m de sempre reprovar quem acaso tenha a consci?ncia de explicitar esta verdade elementar: as rela??es humanas em geral envolvem interesses unilaterais ou rec?procos. Se o individualismo moderno ? em muitos sentidos reprov?vel, na medida em que encoraja em demasia os interesses de ordem privada, tem ele a vantagem de reconhecer sem m?scara ou isento de inconsci?ncia danosa o lugar efetivo que os interesses ocupam nas rela??es humanas. Nosso personalismo, atado ?s raz?es sentimentais, repele o individualismo consciente e pr?tico, mas ? pautado por interesses inconfess?veis ou inconscientes como os que latejam nessa frase modelar da nossa cultura: antes ter amigos em casa do que dinheiro na pra?a. Ou ainda esta: para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei.

Concluo essas considera??es em torno de alguns aspectos de Ra?zes do Brasil tecendo algumas anota??es relativas ao cap?tulo intitulado ?O homem cordial?. Al?m da import?ncia fundamental que desempenha no conjunto da obra, o conceito chave a? exposto por S?rgio Buarque, o da cordialidade brasileira, tem dado margem a muito mal-entendido. Houve quem erradamente o interpretasse lendo efetivamente o livro, como foi o caso de Cassiano Ricardo, e houve sobretudo quem remasse nessa canoa furada simplesmente por opinar sem o ler. A canoa furada consiste, noutras palavras, em interpretar cordialidade como sin?nimo de bondade. Da? n?o faltou quem conclu?sse que S?rgio Buarque de certa forma endossava interpreta??es ufanistas do Brasil ao caracterizar o brasileiro como acima de tudo bom. Tentarei esclarecer agora esse equ?voco indo ao pr?prio? texto da obra.

O pr?prio autor, visando corrigir a incompreens?o de Cassiano Ricardo, assim como de tantos que traduzem cordialidade num sentido incompat?vel com aquele contido em Ra?zes do Brasil, cuidou de inserir na obra, a partir da? segunda edi??o, longa e esclarecedora nota explicativa. A ela agora se acrescenta, a partir desta edi??o comemorativa dos 70 anos? em que me baseio para a reda??o destas notas, a carta que? escreveu para Cassiano Ricardo em setembro de 1948. Divergindo deste, que identifica cordialidade com polidez e op?e cordialidade a bondade, S?rgio Buarque deixa claro, ali?s desde o texto da primeira edi??o, conceber a cordialidade como a express?o dos v?nculos de cunho emotivo caracter?sticos das rela??es sociais brasileiras. Essa caracter?stica, de resto, irmana o conceito de cordialidade com o do culto da personalidade, como acima observei.

Indo adiante na inten??o de bem esclarecer o desacordo, S?rgio Buarque alude ? etimologia da palavra cordial. Procedendo do latim cordis, isto ?, ?relativo ao cora??o?, ?s express?es humanas de fundo emotivo procedentes do cora??o, visa ele acentuar a descontinuidade, ou melhor, a oposi??o entre as rela??es de fundo emotivo ou pessoal, t?picas do homem cordial, e as rela??es de base legal, que entendo caracter?sticas da democracia moderna baseada nos valores de cunho impessoal, universal e abstrato t?picos da ordem legal inspirada no individualismo moderno. O sentido que procuro aqui esbo?ar parece-me evidente j? na abertura do cap?tulo ?O homem cordial?, onde o autor come?a por ressaltar a descontinuidade, ou mais exatamente a oposi??o, entre a ordem familiar, notadamente a ordem familiar patriarcal t?pica da forma??o da cultura brasileira, e a ordem do Estado. Como S?rgio Buarque acertadamente pontua, o Estado precisou negar a ordem privada da fam?lia para se constituir como express?o pol?tica das leis impessoais e abstratas da Cidade. Da? tamb?m deriva a oposi??o clara que estabelece entre cordialidade e polidez. Tamb?m nesse ponto volto a recorrer ? etimologia, embora S?rgio Buarque n?o repita esse procedimento que emprega para melhor esclarecer o sentido de cordial, cordialidade. O ser polido ? aquele cultivado, educado pelas leis da polis, isto ?, da cidade politicamente organizada. Penso que a oposi??o que o autor fixa entre a ordem familiar e? aquela institu?da pelo Estado ? da mesma natureza da que op?e o homem cordial ao homem polido.

Negando ao brasileiro esta qualidade, a da polidez, o que S?rgio Buarque pretende mais uma vez enfatizar ? a preval?ncia na nossa cultura das rela??es de fundo emotivo enraizadas no cora??o. Ora, ele nitidamente identifica nessa nossa caracter?stica um tra?o negativo que precisaria ser superado pela ordem social em forma??o naquele per?odo, aludo ? ?poca em que o livro foi escrito, para que no Brasil efetivamente se realizasse uma democracia moderna, isto ?, baseada no imp?rio das rela??es legais, que como tal suprimem os valores oriundos do culto da personalidade e do homem cordial. Em suma, a ordem legal na qual passariam a dominar rela??es legais baseadas em princ?pios universais e abstratos.

Fazendo uma aposta otimista acerca do nosso futuro, S?rgio Buarque acreditou que essa nova ordem triunfaria gra?as ao processo de urbaniza??o em marcha acelerada, ? institui??o de novos m?todos educativos e pr?ticas de organiza??o do trabalho, casos exemplificados no cap?tulo que comento. Embora acentue ainda a predomin?ncia do funcion?rio patrimonial em oposi??o ao burocrata, parece-me tamb?m clara sua convic??o de que este se imporia ?quele. Temos aqui uma outra ordem de oposi??o clara. Enquanto o funcion?rio patrimonial prende-se ? ordem tradicional associada ? fam?lia patriarcal que se? projeta sobre a ordem pol?tica privatizando a esfera p?blica, o burocrata pauta sua fun??o pelos mesmos princ?pios impessoais e abstratos observ?veis na institui??o do Estado moderno. Os exemplos que o autor exp?e acerca da psicologia moderna aplicada ? educa??o tamb?m reiteram e refor?am a oposi??o que percorre todos os pares acima considerados. Portanto, entendo que em resumo o universo das rela??es cordiais identifica-se com o imp?rio das rela??es de fundo emotivo, pessoais e antidemocr?ticas. No outro extremo, situam-se as rela??es de fundo legal, t?picas da democracia moderna.

No frigir dos ovos, se minha interpreta??o ? correta, sem d?vida avan?amos em muitos sentidos em dire??o ? ordem legal e democr?tica postulada na obra de S?rgio Buarque. Ele postula essa mudan?a e nitidamente declara a esperan?a de que ela venha a se consumar na sociedade brasileira. Embora possamos constatar avan?os ineg?veis na dire??o apontada, infelizmente o homem cordial ? ainda uma realidade muito viva na nossa cultura. Seus valores s?o ambivalentes, como ali?s j? o reconhecia o autor. Se de um lado est?o enraizados em muito da nossa espontaneidade, da nossa avers?o a ritualismos est?reis, mas tamb?m a ritualismos em geral, e a? a coisa j? complica o sentido dos ganhos entre espontaneidade e formalismo social, de outro lado eles est?o nas ra?zes das nossas rela??es desiguais, do favorecimento dos parentes, amigos e apadrinhados, da ordem social baseada no privil?gio e, no limite, na apropria??o corrupta do p?blico pelo privado.

Concluindo, o Brasil? encontra-se j? no in?cio do s?culo 21, sua economia est? entre as dez mais poderosas do mundo, mas no ?mbito cultural e institucional continuamos nos balan?ando sem solu??o entre os valores da cordialidade, ou das rela??es de fundo emotivo e pessoal, e os valores da ordem social democr?tica baseada em rela??es legais de fundo universal e abstrato. Pior para a maioria e portanto para o conjunto da na??o, ainda atada a uma ordem de realidade cultural que bem justifica a frase famosa de Tom Jobim: ?O Brasil n?o ? para principiantes?. Sendo assim, as explica??es aqui estudadas sem d?vida muito nos esclarecem, mas n?o s?o nem podem ser a solu??o dos problemas que entravam nosso ingresso na modernidade plena. A solu??o, suponho, depende de transforma??es socioculturais e econ?micas profundas, que ningu?m sabe quando se completar

7 Comments

  1. Muito bom, Há que refletir antes de comentar.
    Ingressar em qual modernidade? A da democracia dos drones e da sobrevivência a custa da individualidade?
    Leio Mota Lima e digito em voz alta. Existe um horror moderníssimo Os não cordiais bandidos de hoje que assaltam e matam, incendeiam com a cordial banalidade do mal.
    Maluf já pediu: estupre, mas não mate.
    Ainda não temos fundamentalistas com cimitarras nos dentes, mas os eleitores cordiais enviarão para o Congresso, em 2014, um maior número de felicianos e malafaias?
    Vou ler de novo e pensar. Em tese, gostei.

    • Caro David Hulak: Muito grato pelo comentário. Não preciso salientar que estamos aqui para discutir livremente. Este é o meu critério e também o da revista. Portanto, sinta-se à vontade para reler e discutir. Um abraço.

  2. Camarada Fernando

    Excelente artigo. Gostaria de fazer um adendo, com minha opinião pessoal sobre a polêmica em torno da expressão “homem cordial”.
    Como você, entendi perfeitamente o contexto em que Sérgio Buarque usa a expressão, tomada emprestada de Ribeiro Couto. Até porque, a partir da segunda edição, como você bem assinalou, ele se estende de maneira a explicar seu conteúdo exato, tal como ele o entende.
    Conceitualmente, o trabalho do intelectual paulista tem a envergadura, por todos percebida, de obra seminal nos estudos brasileiros.
    Entretanto, do ponto de vista comunicativo – ao qual me atenho aqui – o brilhante ensaísta cometeu um erro feio, um ruído grosso. Tanto que teve de se explicar melhor (e quando temos que explicar tanto uma palavra é porque não usamos a palavra exata). E ele passou a vida inteira se explicando! Nas mudanças da edição citada, na resposta a Cassiano Ricardo, em entrevistas, artigos, o escambau.
    É óbvio que não era seu objetivo levantar polêmica, ameaçando reduzir a dimensão da obra a uma discussão meio bizantina.
    O fato é que, para expressar o conceito – que sua análise exaure – ele poderia usar outra expressão, outra palavra: “emotivo”, “sentimental”, “impulsivo”, ou outra ao seu (dele) gosto – quem sou eu para “copidescar” o texto canônico! Cito exemplos apenas para evidenciar que o ruído poderia ter sido evitado.
    O primeiro problema foi emprestar da expressão de Ribeiro Couto – inicialmente creditada e depois tendo o crédito omitido – para usá-la numa acepção diferente. Complicação desnecessária para o entendimento dos receptores!
    (Na carta ao embaixador mexicano Alfonso Reys, de 1931, Ribeiro Couto se alonga: “Nossa América, a meu ver, está dando ao mundo isto: o Homem Cordial. O egoísmo europeu, batido de perseguições religiosas e de catástrofes econômicas, tocado pela intolerância e pela fome, atravessou os mares e fundou ali, no leito das mulheres primitivas e em toda a vastidão generosa daquela terra, a Família dos Homens Cordiais, esses que se distinguem do resto da humanidade por duas características essencialmente americanas: o espírito hospitaleiro e a tendência à credulidade. Numa palavra, o Homem Cordial.” E adiante: “Somos povos que gostam de conversar, de fumar parados, de ouvir viola, de cantar modinhas, de amar com pudor, de convidar o estrangeiro a entrar para tomar café, de exclamar para o luar em noites claras, à janela: – Mas que luar magnífico! Essa atitude de disponibilidade sentimental é toda nossa, é ibero-americana… Observável nos nadas, nas pequeninas insignificâncias da vida de todos os dias, ela toma vulto aos olhos do crítico, pois são índices dessa Civilização Cordial que eu considero a contribuição da
    América Latina ao mundo.” (Grifo meu).
    Até certo ponto, o contrário do que Sérgio Buarque queria dizer!
    O segundo problema está na acepção mesma da palavra. Registra o Houaiss:
    “cordial – adjetivo de dois gêneros
    1 que demonstra afabilidade, sinceridade; caloroso, franco
    Exs.: abraço c.
    palavras c.
    2 que revela disposição favorável em relação a outrem
    Ex.: um chefe c. mas rigoroso
    3 em que há boa vontade ou convergência de pontos de vista
    Exs.: reunião c.
    relações c.
    4 Estatística: pouco usado.
    referente a ou próprio do coração (‘órgão’)”

    Ou seja, somente na quarta acepção, assim mesmo na rubrica “estatística” e com a ressalva “pouco usado”.
    Para se explicar (mais uma vez), na discussão com Cassiano Ricardo, Buarque diz: “A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração.”
    E aqui emerge o terceiro problema: na linguagem (mesmo na norma culta) a palavra cordial tem conotação positiva, benfazeja. Cordial é quem (com Houaiss) “demonstra afabilidade, sinceridade; caloroso, franco.”
    No imaginário coletivo, o coração é o órgão que abriga o amor (o Cupido flecha corações, imagem universal), o que transborda para a fala cotidiana (“você está no meu coração”, “um coração de ouro”, “coração” como vocativo para a pessoa amada etc.). Na religião católica, venera-se o “Coração de Jesus”, ícone da suprema bondade (pessoalmente, acho a imagem sangrenta meio grotesca, mas isso é outra história). Na comunicação visual, o coração é símbolo de amor ou simpatia (que é quase amor, segundo os foliões cariocas): está nos antigos caderninhos das adolescentes e nos atuais emoticoms das redes sociais.
    É realmente muito raro alguém usar, na fala cotidiana ou na escrita, a imagem do coração vinculado a sentimentos negativos, como ódio ou inimizade, como Buarque tenta fazer crer numa notória acrobacia linguística.
    Portanto, sem desmerecer em nada o imenso valor de “Raízes do Brasil”, fica patente que, do ponto de vista da comunicação, doutor Sérgio deu uma bela escorregadela.
    “Cordialmente”, acredito que se um determinado emissor usa um termo mal-entendido por uma grande parcela dos receptores, um dos dois está errado (o emissor ou o receptor). Do ponto de vista da comunicação, o errado é o emissor. (Espero ter me expressado com clareza e ser entendido, rssssssssss.)

    • Meu caro Homero: Concordo com as considerações muito pertinentes e esclarecedoras que você faz no seu comentário sobre esse tão mal-entendido conceito da cordialidade. Portanto, Nada teria a acrescentar, salvo agradecer a paciência e zelo com que você comenta minha resenha acrescentando-lhe esclarecimentos tão oportunos. Concordo também que Sérgio Buarque foi infeliz na escolha do termo, cuja ambiguidade ele próprio contribui para agravar, coisa que não ressaltei na resenha porque minha preocupação exclusiva era tentar na medida do possível dissolver esse mal-entendido conceitual que ronda ainda a recepção de Raízes do Brasil. Muito grato, Homero.

  3. Excelente interpretação, para um livro que extrapola áreas de conhecimento! Eu mesma, sendo arquiteta, o li em 1991 para uma prova de Estética, em concurso para especialização em História Cultural.

    Visões do Paraíso tem linguagem mais literária. Deixa entrever o gosto do autor pela poesia, e seu papel de crítico literário, tão bem expresso em livros seus, como O Espírito e a Letra, e em seus textos para a revista Ariel.

    Parabéns, Fernando.
    Eliane Lordello.
    Vitória. ES.

  4. Fernando

    É sempre bom ler seus textos. Sobretudo este sobre uma questão tão atual e ainda mais com enriquecedores e pertinentes comentários, como o de Homero.
    Um abraço
    Sonia

    • Eliane e Sônia: Muito grato pela leitura generosa. Também estou atento ao que você escreve nesta revista, Soninha. Um abraço,Fernando.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *