Copa 2026

Copa 2026

As vitórias suscitam muitos heróis, e as derrotas só supõem bandidos.  A segunda assertiva, porém, é simplória e injusta, no caso que focamos: resumiu-se ao juízo precipitado do nosso time, considerado fraco, e do seu técnico, julgado incompetente. Mas como todos os brasileiros se arvoram a juízes de futebol, eu também me atrevo a opinar sobre a matéria.

Em primeiro lugar, cumpre-nos resgatar o treinador. Ancelotti tinha um currículo de vitórias à frente de todos os times que comandou. Se teve pouco tempo para arrumar a nossa equipe, não lhe cabe a culpa, mas sim à desorganização, às irregularidades e suspeitas de corrupção da CBF.

Em segundo lugar, não é bem o nosso time que é ruim, são quase todos os concorrentes que revelaram um alto nível do esporte: o caso do Cabo Verde, um país jovem, de menos de 500 mil habitantes, foi emblemático. E o mesmo se pode dizer sobre o desempenho do futebol africano, em seu todo: Marrocos, Costa do Marfim, Senegal, Egito, são outros exemplos de brilhantismo.

A situação se deve a vários fatores: entre eles, a participação de jogadores africanos em times da Europa, contribuindo para a mescla de estilos. Fato bem observado pelo nosso conselheiro Sérgio Buarque em artigo nesta revista, recorrendo aos conceitos de Gilberto Freyre, de futebol “dionisíaco” e “apolíneo”, este dos europeus, aquele de latino-americanos e demais “periféricos”.

É também animador observar como as equipes europeias, quase todas, se não todas, estão enriquecidas com afrodescendentes ou imigrantes negros.  Até a da Suíça, que nunca teve colônias, e a da Noruega, terra dos grandalhões alourados, sem falar a da França, em que predomina, gloriosamente, a negritude. Podemos dizer que este é o lado nobre, civilizatório, do chamado “esporte bretão”.

Aliás, cabe ressalvar que os ingleses apenas regulamentaram, no século XIX, o jogo do “bola no pé”, já registrado no século XVII pelos jesuítas, nas Missões ao sul do nosso país, na língua guarani. (Que me desculpo de não reproduzir neste momento. Esqueci).

Por outro lado, não podemos deixar de considerar um fenômeno que está destruindo o futebol-arte, de que tanto se fala: a tolerância de juízes e técnicos com a violência. É triste constatar que espetáculos como os de Garrincha, nas copas de 1958 e 1962, não se poderiam presenciar agora. Nenhum jogador admite ser driblado. Há que se deter o atacante a qualquer preço: rasteiras, empurrões, pisadas nos pés, culminando com puxões pela camisa. Este covarde recurso, que hoje vemos em qualquer partida, e não admite nenhuma desculpa, deveria merecer cartão vermelho, independentemente de estar o driblador na reta final do gol ou não.

Falemos agora do evento da derrota, não pelos seus traços aparentes, mas pelo que escapa à visão superficial: uma radiografia do desastre.

Mesmo sem desmerecer os méritos do treinador, alguns fatos exigem explicações. Por que ele não recorreu a Neymar com mais frequência? O jogador estava recuperado, e era mais moço que Cristiano Ronaldo e Messi, que ajudaram, na plenitude, as suas seleções.  Com sua presença em campo, não teríamos desperdiçado um pênalti que poderia ter mudado o curso do jogo. E mais: ao lado de Vini Jr., Neymar poderia ter vencido a retranca da Noruega, atacando por qualquer dos lados, já que, depois da revelação do “carrossel holandês”, em 1974, não há mais posições fixas na linha de ataque. Pois só se vence um time retrancado com jogo individual: driblando, o atacante pode chegar à meta, ou sofrer uma falta – até um pênalti – ou, no mínimo, atrair dois ou três marcadores, abrindo espaço para os companheiros de equipe.

A pior saudade é a daquilo que não se fez. Numa perspectiva mais ampla, da “vida que poderia ter sido, e que não foi”. E não adianta “chorar o leite derramado”. Para a dor de tal reflexão não há lenitivo. Resta-nos apenas lembrar que o Brasil continua sendo o único país pentacampeão, e também o único que participou de todas as copas, desde a primeira, em 1930. A próxima copa ainda está longe, a quatro anos de distância. A lembrança vai, pois, como consolo para os que, dentre nós, talvez não cheguem até lá.