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Penso, logo duvido.

Reminiscências II – A boneca de melancia

Teresa Sales?

Sala da aula em Sapucaia do Sul (RS)

Sala da aula em Sapucaia do Sul (RS)

No quarto, ? luz de velas. Era frequente, antes de chegar a energia de Paulo Afonso. A m?e fazia com as m?os figuras de bichos na parede, para distrair os filhos pequenos. Acharam gra?a, mas a menina se assustou. O irm?o viu. Ent?o lhe mostrou a figura colorida de uma mulher que ocupava toda a p?gina de uma revista velha. Meticulosamente, tirou a p?gina e partiu a mulher em duas. A irm? gritou de medo. E ele teve a cumplicidade da m?e para com a divers?o de assustar a irm?. ?N?o est? vendo que ? s? um peda?o de papel??

Habilidosa, a m?e fazia disputados bichinhos com miolo de p?o ao final das refei??es. Um dia, melancia ? sobremesa, o mesmo irm?o teve a ideia de esculpir uma boneca com a casca da melancia. Feita a boneca, olhou para a irm?, e, sem dizer palavra, partiu-a ao meio. Um terror se apoderou da menina. Saiu correndo da mesa, ele a lhe perseguir com a boneca partida.

O pai convoca os irm?os de volta ? mesa. Repreende-o e chama a filha para junto de si. Quando vai lhe mostrar que aquilo ? apenas um peda?o de melancia e pede para ela segurar, a menina come?a a tremer de medo. O pai desiste da li??o e apenas recomenda ao filho para n?o fazer mais isso at? que a irm? ficasse mo?a feita. De pouco adiantou a recomenda??o.

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Uma escola nova na cidade. Gente conhecida do pai. Era uma casa antiga com enorme ?rea na frente e nos oit?es. ?rvores, terreiro batido, um quintal de verdade. O pai vai matricular o filho de cinco anos e a filha de quatro. Vai com os dois para falar com dona Isabel. O filho foi correr e subir nas ?rvores. A filha, quietinha ao lado do pai. A dona de escola canta para ela ?bonequinha linda, dos cabelos louros?.

No come?o, Dona Auxiliadora, ainda estudante do curso Pedag?gico e j? professora, lhe pedia para desenhar o vestido de sua formatura. Estrelas, sol, c?u, ?rvores, todas as coisas bonitas do mundo enfeitavam os vestidos desenhados. E a menina acreditava que a professora escolheria o mais bonito para seu modelo. Esse encantamento a acompanharia pelo resto da vida, toda vez que sentisse o cheiro de l?pis de cor nas papelarias.

O fantasma do medo, por?m, voltou mais forte na escola.

O irm?o n?o parava de conversar na aula. Dona Auxiliadora era suave e n?o castigava. Apenas amea?ava, possivelmente em tom de brincadeira. Dizia que ia colar a boca dele com esparadrapo. Ele n?o se importava, devia compreender. A menina n?o. Pensava que era de verdade e o irm?o n?o ia poder falar mais nunca. Ficava pedindo para o anjo da guarda proteg?-lo.

Ao medo se juntava a timidez. A menina n?o tinha coragem de pedir ? professora para ir ao ?quartinho?. Para ela, uma cerim?nia: levantar o bra?o para chamar a professora; dizer que queria ir ao quartinho; a professora olhar se a pedra estava em cima da mesa. Sem coragem de iniciar o primeiro ato, de levantar a m?o, a menina ficava aliviada quando pediam na sua frente. Adiava a vergonha. At? que, n?o aguentando mais, fazia xixi na cal?a.

Para ir ? escola, o pai ou a m?e atravessava os dois para o outro lado da rua. Seguiam sozinhos quatro quarteir?es, na mesma rua, com a recomenda??o expressa: v? segurando a m?o de sua irm?. Era a vez dele ficar morrendo de vergonha e com muita raiva das filhas do dono da padaria, que vinham at? o port?o para ver os noivinhos. ?Ela n?o ? minha noiva! ? minha irm?!?

A velha casa ainda est? l?. Onde estar?o os personagens dessa escola? Dona Isabel, de quem a menina tem uma lembran?a de av? trocando a calcinha molhada por uma enxuta, que a m?e tinha o cuidado de mandar na lancheira. Os dois filhos de dona Isabel, que faziam o papel do ca?a gazeteiro das hist?rias de Bolinha. O marido, que veio uma vez contar para os alunos os horrores da II Guerra, onde ele comera at? sola de sapato. E Dona Auxiliadora, que a menina achava parecida com uma princesa.

De Educand?rio Nossa Senhora Auxiliadora, logo passou a ser Instituto S?o Jos?. At? hoje. Uma escola estadual onde a menina continuou estudando at? concluir o curso prim?rio.

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Quando, em 1968, os policiais cercaram a Igreja do Esp?rito Santo na Pra?a Dezessete no Recife, para espancar e prender os que saiam de uma missa em mem?ria do estudante carioca Edson Luiz, que havia sido baleado e morto pela pol?cia da Ditadura, foi o irm?o quem protegeu a mo?a feita. Aproximou-se dela na hora do perigo, e, j? na Rua Duque de Caxias, com o bra?o em seu ombro, interrompeu o cassetete do policial. ?N?o est? vendo que estou aqui fazendo compras com a minha mulher?? ?Desculpe, doutor.?

 

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