Helga Hoffmann

Mãe e sua bebê atravessam região em Tovarnik, na Croácia – Matthias Schrader / AP.

Há uma parte do público brasileiro que merece que se aplique o adjetivo de politicamente imbecilizado. Deliberadamente opto por imbecilizado: ninguém nasce imbecil, é imbecilizado, com diversidade de gradações, pela maneira de viver, pela educação em casa e na escola, e pelo tipo da informação que absorveu. Um montão de gente expressou seu encantamento pela Presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, mulher bonita que surgiu na Copa da Rússia torcendo por sua equipe e pagando ela mesmo sua viagem a Moscou, e no fim distribuiu abraços apertados entre derrotados e vencedores, jogadores e torcedores. Um sucesso internacional! Todos queriam um abraço da loura! Um sucesso de Facebook também, sobretudo entre a nova leva de neofeministas em busca de alguma mulher para louvar.

Então aí vai um pouco de história para fãs da Presidente croata Kolinda que esquecem que um personagem político não deixa de ser personagem político em festa e muito menos em solenidade para o grande público. A Croácia tornou-se membro da União Europeia em julho de 2013, depois de 10 anos de negociações. Desde a crise de imigração de 2015 é um dos sete países membros da União Europeia radicalmente anti-imigração. Esses países, todos de alta renda, são os seguintes (por ordem decrescente de tamanho da população): Polônia (38,6 milhões), Tchecoslováquia (10,6 mi.), Hungria (9,8 mi.), Áustria (8,6 mi.), Bulgária (7 mi.), Eslováquia (5,4 mi) e Croácia (4,2 mi.). Juntos têm uma população de 84 milhões, equivalente grosso modo à Alemanha, ou algo mais que França e Itália. E tem se recusado, teimosamente, a participar de um acordo europeu sobre tratamento e alocação de refugiados e imigrantes.

A crise imigratória na Europa, ainda que já não esteja nas manchetes, continua em fogo brando, ameaçando gravemente os acordos de Schengen sobre abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países membros da União Europeia.[1]Quem ainda se lembra dos trens repletos de refugiados sírios chegando a Munique em setembro de 2015? Naquela época a Hungria, transformada em rota de passagem de milhares de refugiados, sofreu um colapso do processo de registro desses refugiados e decidiu fechar as fronteiras. Com o fechamento do caminho pela Hungria, milhares de migrantes ficavam acumulados na Sérvia, vizinha da Croácia, sem poder prosseguir para o norte, para a Alemanha e a Suécia, os destinos preferidos.

Nessa ocasião, em setembro de 2015, em uma situação bastante complicada, o Primeiro Ministro da Croácia, Milanovic, declarou bem-vindos os migrantes que vinham da Sérvia, e em menos de uma semana cerca de 9 mil migrantes entraram na Croácia. E aí as autoridades croatas mudaram de posição radicalmente. Fecharam as fronteiras, começaram treinamento intensivo em policiamento de fronteira, e trataram de passar adiante ou devolver os refugiados: o Ministro do Interior Ostojic declarou simplesmente que “se [os refugiados] querem salvar suas vidas, por favor, devem ir para os centros de recepção na Sérvia, Macedônia ou Grécia”.

E a Presidente Kolinda pediu ao exército que se preparasse para defender a Croácia da imigração ilegal.  Sem esquecer que naquela ocasião era “ilegal” qualquer um dos milhares de refugiados que ainda não tivesse formalmente aprovado seu status de refugiado. Na Croácia, assim como na Polônia, dois países católicos, a posição anti-imigração é particularmente abjeta quando vem, com frequência, misturada com motivação ou alegação religiosa, de suposta defesa da “civilização cristã” contra a “invasão muçulmana”. O que não passou despercebido pelo Papa Francisco que, ao visitar a Polônia em 2016, apelou (sem grande resultado, diga-se de passagem) para “a disposição de acolher aqueles que fogem da guerra e da fome”, a “solidariedade perante os que foram privados de seus direitos fundamentais”, chegando a dizer, naquela ocasião, que “cabe fazer o possível para minorar o sofrimento”.

Sim, essa mesma Presidente Kolinda, com seus fãzocas por ser bonita e distribuir abraços, é a que ordenou o exército a fechar a extensa fronteira contra os refugiados, da noite para o dia. Não estou dizendo que quem quer que seja devesse devolver o abraço com um pontapé. Mas deveria ser politicamente reconhecido que o trato com autoridades e entre autoridades deve ser sempre protocolar. Não se pode simplesmente ignorar as posições de política pública no simplório entusiasmo pela Presidente torcedora e seus abraços. Abraço de político é protocolar, não há outra possibilidade, em público. Não indica que existam relações pessoais ou identidade política entre os políticos que meramente se cumprimentam. Vale para qualquer autoridade e qualquer político, demagogo ou não, em qualquer país. Não se pode fazer para um político, figura pública, distinção entre o pessoal e o público para admitir comportamento de fãzoca inocente e simplório. Tampouco para admitir agressões pessoais e protestos individuais contra políticos em voos, aeroportos, hospitais ou restaurantes, como faz outro grupo de imbecilizados da política no Brasil. Fãzocas ou críticos sem boas maneiras são, ambos, coisa de país sem cultura política.

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Mãe e sua bebê atravessam região em Tovarnik, na Croácia – Matthias Schrader / AP

[1]Publiquei aqui mesmo na “Será?” uma série de artigos sobre a crise de refugiados na Europa.