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Penso, logo duvido.

Amigo é pra essas coisas… – Fernando Dourado

Fernando Dourado

A solidão digital.

“Eu agradeço mesmo que você tenha aceitado esse convite, rapaz. Um almoço é pouco tempo, mas já é alguma coisa. Eu sou até capaz de dizer que boa parte dessa desorientação que me aflige decorre da falta de bons amigos com quem conversar. Aquela cidade onde vivo é um oceano de impessoalidade. Cada vez mais as pessoas acham que só de trocarem um aceno por WhatsApp, já estão presentes o bastante na vida umas das outras. Não se dão conta do quanto isso é ilusório. Mas ainda bem que temos as ancoragens do passado. São elas que funcionam como uma espécie de cabo de amarração com nosso eu profundo. Na verdade, não sei nem por onde começar. Mas resumir tudo ao dilema entre voltar a viver aqui ou continuar por lá, ou mesmo escolher uma terceira cidade, tudo isso me parece bem ilusório. Deve haver uma questão fundamental, uma camada mais profunda a que não consigo acessar a cru.”

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“Deixa eu só te interromper um pouquinho, tenho até umas coisas que julgo interessantes a dizer a esse respeito. Mas é que estou com uma coisa martelando a minha cabeça desde a madrugada. Na verdade, eu já estava dormindo quando despertei com essa mistura de sonho e pesadelo. O negócio é o seguinte. Lembra daquele cliente difícil e teimoso de que te falei? Aquele que é dono de meia cidade? Pois bem, consultei todas as empresas parceiras e elas disseram que 15% de retorno para a operação é excelente. Pela tua experiência – não no ramo, mas em negociação de forma geral -, qual a melhor estratégia para apresentar esse porcentual? Digo que estão acenando com 13% e espero um tempo até apresentar os 15%, ou dou de cara os 15%, dizendo que foi a palavra final do agente financeiro? Como mostro mais credibilidade? Um minutinho só enquanto você pensa. É ele na linha. Alô?”

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“Por outro lado, se eu não voltar agora, vou terminar voltando nos próximos cinco anos. O que é certo é que preciso sair de onde vivo. Não dá para sobreviver a uma poluição infernal daquela. Sinto que os pulmões começam a se queixar. Já não subo uma ladeira com a desenvoltura de outros tempos. Por outro lado, como posso voltar, se nunca soube o que fui buscar lá? Isso para mim começa a ficar evidente. Todo mundo que fez o caminho que fiz, tinha um objetivo concreto. Eu sempre achei essas metas uma baita filigrana burguesa, uma espécie de placebo que não me interessava tomar. A vida se fazia no dia a dia, na busca permanente de prazeres que se renovassem. É claro que esse princípio continua a ser norteador, não há dúvida. Mas ando inseguro, muitas vezes você fica intrigado quando alguém diz que isso é uma fuga para frente, ou que você se prepara para uma colisão frontal.”

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“Isso parece acertado. Se você me permite, deixa só eu dizer mais uma coisa extra pauta. Não tome como pouco caso por seu tema, pelo contrário. Mas veja como estão as coisas por aqui. Há um mês, nós destratamos um negócio que tinha mobilizado o melhor de meus esforços por quase dois anos, está lembrado? Fiquei chateado, é claro, quem não ficaria? Pois depois disso, pelo menos três novos negócios surgiram. E o menor deles, é talvez mais rentável e mil vezes mais fácil de resolver do que aquele que vinha drenando minhas energias. Não é incrível? Diga-se o que quiser, mas estamos em melhor forma do que estávamos há um ano. E aí nem se trata de mérito ou demérito do presidente. A questão é mais simples. Os agentes econômicos ficaram de saco cheio e resolverem ignorar a miuçalha política. Percebe-se isso por lá também? Seu amigo aqui está com negócios mais polpudos do que nunca.” 

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Não deixa de ser alentador saber que por aqui tenho amigos. Podemos não ter convivido muito nesses últimos 40 anos, mas os laços de sangue contam. Depois, se nada disso funcionar, temos sempre a natureza. Quando ando por essas ruas, de alguma forma me sinto nutrido e gratificado. As cores, a brisa, tudo isso conta. Mesmo sentadinho num bar, tomando uma cerveja, só de ouvir dois caras papeando, uma série de códigos familiares parece vir à tona. Gosto disso. Por outro lado, como viver longe das paisagens que foram as minhas durante dois terços da vida? O que vão significar as saudades daqui para frente? Uma espécie de poupança a que eu posso recorrer de olhos fechados para alimentar os dias de isolamento e solidão? Ou uma motivação extra para não entregar os pontos e, pelo contrário, buscar me acercar de pessoas que tenham um acervo parecido a compartilhar?

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“Pode parecer até engraçado, mas essa conversa me lembrou a do português que me ofereceu uma área ali na região das madeireiras, sabe qual é? Pense num sujeito unha-de-fome. É um cara que veio de baixo, mas que está rico. Semana passada ele me chamou lá e disse que está doente. Não vai morrer agora, mas o médico disse que não deve ir além de dois anos. Para quem tem mais de oitenta, disse ele, até que se sente no lucro. Veja só que cara inteligente – desmentindo o que a sabedoria popular diz do povo dele -, veja bem o que ele me disse. [Consegui manter minha família pacificada todos esses anos. Não vou partir em paz se souber que começarão a se esmurrar na hora seguinte a meu enterro. Quero vender tudo e eu mesmo vou distribuir o que acho que deve caber a cada um. E foi o senhor que escolhi para me dar a melhor alternativa]. Quase beijei o português, acredita?”

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“Olá pessoal, resolvi reativar minha conta Facebook. Para os velhos amigos que estavam ativos até 2017, peço que façam seus pedidos de amizade por aqui. De minha parte, farei o mesmo. A verdade é que andei saudoso do calor humano que nos congregava à época da turbulência política e de vívido debate sobre costumes. Continuo aqui, na cidade imensa, escondido atrás de um pontinho de luz quase invisível do outro lado da rua – tantos são os pontinhos de luz à minha volta. A novidade que encantará muitos de vocês é que, afinal, resolvi constituir uma família para chamar de minha. Depois de muito hesitar, divido meu pequeno apartamento com Meko, um gato indolente que, sem sair do lugar, parece se distrair com um universo imaginário que, pouco a pouco, também começo a descobrir. Nunca pensei que minhas prateleiras abrigassem tanta vida. Amanhã posto uma foto com meu querido amigo.”

 

 

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