Luiz Otavio Cavalcanti

Pai com filha, após a explosão em Beirute.

Tenho velho amigo descendente de libaneses: Ricardo Elias Asfora. Mora em Natal, no Rio Grande do Norte. É comerciante, como todo bom libanês. Fomos colegas de turma no Nóbrega. Ele era dos primeiros da turma. E dos mais queridos. Afável. Com sorriso pronto no rosto largo.

Num júri simulado, o prof. Sady Torres promoveu o julgamento de Martinho Lutero. Ricardo e eu fomos advogados de defesa. O grande líder religioso foi absolvido. Muito mais graças ao discurso de Ricardo do que ao meu parco dote advocatício.

Quando ouvi a tragédia de Beirute, lembrei dele e de seus irmãos: de George, o mais velho, e de Beto, o mais moço. Foram os long plays de George que despertaram meu interesse pelo jazz. Ele os mandava buscar nos Estados Unidos.

Lembrei também de Khalil Gibran, um dos maiores poetas árabes do Líbano. E de uma das cem mais poderosas mulheres árabes, escolhidas há cinco anos: a libanesa Joumana Haddad. Jornalista, escritora, diretora de revista. Segundo ela, o problema mais complexo do Oriente é o extremismo religioso. É o fator que desestabiliza a ordem racional da prática política nas nações árabes.

Lembrei ainda que um de meus professores de Direito acentuou a tradição jurídica no Líbano. E a menção feita por jornalista francês de que a qualidade mais sensível do povo libanês é a resiliência. Sua infinda capacidade de lutar com crises.

O Líbano, por essa nota afetiva, sempre teve para mim valor específico. E Beirute, cidade e porto, uma cidade-porto, exala perfil recifense. Mar e terra, terra e mar. O porto invadindo a cidade, como o Recife dos anos cinquenta. Também lá a vocação marítima que é um dos destinos do Recife.

Outra confluência, esta humana, social: o comércio, os comerciantes, os mascates. Não somos nós, do Recife, antigos mascates de açúcar? Não continuamos mascates das frutas tropicais do Vale do São Francisco? E, no Agreste, não expandimos a mascataria de tecidos e roupas no polo de Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru? Não nos tornamos mascates tecnológicos no Porto Digital? Tanto quanto são mascates os libaneses em Beirute e em São Paulo?

Recifenses e libaneses, mascates na América e no Oriente, mascates todos. Vocacionados para trocas econômicas, permutas culturais, na Babel tecnológica em que se tornou esse mundão de Deus.

Há outro aspecto, ainda pouco nítido, no Brasil, que é o traço de fundamentalismo religioso. Que torna mais complexo o processo político no Oriente, de modo geral. E, no Líbano, de maneira particular. Esse traço vem sendo alimentado por uma ala do atual governo em Brasília. E pelo prefeito do Rio de Janeiro.

Ora, religião é fé, fervor, ardor. Política é razão, racionalidade, lógica. São espaços opostos. Sua mistura provoca rupturas que são descabidas ao universo político. Pois, como disse outra árabe, esta israelense, Hannah Arendt, política é o agir conjunto.

O Papa João Paulo II afirmou, em 1984, ao se reunir com os patriarcas católicos, que “o Líbano é mais que um país, é uma mensagem”. Ele se referia ao papel relevante que o país desempenha na região. E que requereu o zelo do santo padre.

É hora de retribuir aos libaneses seu contributo ao Brasil. E seu fazer empático disseminando o trigo da paz no Oriente. Força e esperança à Beirute!