Paulo Gustavo – ator e humorista.

 

Poucas vezes, vi comoção popular tão forte e espontânea em torno de um ator. Nas ruas, durante o dia, pessoas lamentando em conversas seu desaparecimento. À noite, na hora do noticiário, pessoas nas sacadas dos apartamentos batendo palmas à sua arte.

O ator Paulo Gustavo legou ao povo brasileiro dois desempenhos exemplares: como gente comum, o exercício de sua liberdade mais profunda, no companheirismo, na adoção de duas crianças.

E como ator, o desenho de uma sociedade com direito a rir. Com ironia, com naturalidade, extravasando as agudezas do transcendente. Como disse o filósofo do riso, Bergson, rir está no ridículo.

O brasileiro, sempre tão tropical, tão descontraído, de braço dado com apertados abraços, ultimamente desaprendeu a sorrir. O clima pesou. Nas duas vertentes fluviais em que navega nosso cotidiano. Do lado da política, a ameaça programada da autoridade, sua truculência atemorizante, o estado permanente de tensão. Em cada frase, um látego. Em cada aparição, um verdugo.

Do lado da gestão, uma cordilheira de omissões na saúde, de deformações na educação, de perseguições na justiça, de desconstrução no meio ambiente. Governança sem plano, sem consciência social, sem diretriz, ancorada no século 18. E autofágica na sua servidão.

Mas, talvez a memória política mais expressiva de Paulo Gustavo seja a compreensão que ele, como pessoa, guardou e transmitiu: a de que o brasileiro recusa o negacionismo barato, recusa a incompetência. E faz do sofrimento um modo de protestar. E, como disse Paulo Gustavo, faz do riso uma forma de resistir.

Sim, o brasileiro traz, na sua trigenética formadora, índia, branca e negra, a semente do sorriso. O brasileiro legítimo sabe sorrir. Não a risada escandalosa, escancarada, sem alma, sem sentimento. Um esgar. Mas o riso brando, empático, respeitoso, que vemos na morenidade de Darcy Ribeiro, na tropicologia de Gilberto Freyre, na inspiração Debussyana de Tom Jobim.

Sim, este é o país que queremos. Que mostre compaixão, que sinta dor, que seja solidário, que construa pelo senso de dever e de humanidade. E não porque negocia com o centrão, porque precisa de votos, porque não sabe fazer outra coisa. A não ser versões de opróbio.

Sejamos fieis ao Brasil brasileiro, de Ary Barroso, de Osvaldo Cruz, de Leite Lopes, de Paulo Gustavo: vamos resistir.