Refugiados ucranianos.

 

Acordei, hoje, e liguei a tv. Vi criancinhas, protegidas contra o frio. Levadas pelas mãos de suas mães. Sorriam. Davam adeusinhos. Na inocência dos que não sabem o que é guerra. Essa é uma das imagens mais duras destes dias. Mas também uma das mais promissoras. Adeusinhos infantis. Cartas ao futuro.

Em 1918, o filósofo alemão, Oswald Spengler, publicou O Declínio do Ocidente. Apontava argumentos que, segundo ele, levariam países ocidentais a situação de declínio econômico. Uma inspiração que se esfumou com o tempo. É o que pode ter induzido Putin a erro tão emocionalmente grosseiro?

Putin é um autocrata. Está no poder há vinte anos. Mediante a realização de eleições comprometidas com sua vitória. Inseriu na Constituição russa dispositivo que o mantém no Kremlin até 2038. O pretexto dele para invadir a Ucrânia é visão imperialista do século 19. Pela qual a capacidade de afirmação de um país se mede por extensão territorial. Baseado num modelo imperial de décadas passadas.

Foi esta figura fáustica que o presidente brasileiro visitou, dias atrás. E, lá, afirmou: “Somos solidários com a Rússia”. Este posicionamento não tem nada a ver com a tradição da diplomacia brasileira. Nem com o alinhamento de neutralidade que sempre manteve o Itamaraty. Nem com a sensatez. Talvez animado com os ares de Moscou, o presidente brasileiro, semana passada, usou uma gravata com desenho de fuzis. Alegórico.

Quatro fatos podem levar a agressão de Putin a produzir consequências que escapam de seu cálculo original: primeiro, a decisão da Alemanha, inédita, depois da Segunda Guerra, de fornecer armas para a Ucrânia. O segundo fato é a decisão de governantes europeus de aplicar à Rússia a penalidade de excluir parte do sistema bancário russo da rede swift de operações financeiras. O que compromete a fluência da atividade comercial do comércio externo de Moscou.

O terceiro fato é a resistência do povo Ucraniano. Em moldura admirável de presidente que se recusou a deixar seu posto. Dispensando carona em avião estrangeiro. Sua determinação exemplar tem inspirado a população de Kiev a resistir.

O quarto fato são sinais de insatisfação do povo russo com a guerra. Que, aliás, Putin não chama de guerra. Chama de operação militar especial. Talvez para descaracterizar ação que, sabe-se, não atrai simpatia da população. Mais de 5.000 pessoas foram presas principalmente em São Petersburgo. Certamente esta insurgência pontual não impede a continuidade do projeto de Putin. Mas, dependendo dos efeitos, na economia russa, das medidas que estão adotadas nos bancos, a desaprovação a Moscou pode se tornar óbice a outras projetos autocráticos.

Um elemento estratégico deve ser considerado: a posição da China. Que, semanas atrás, anunciou acordo não escrito com a Rússia. Na ocasião, foi acentuado um entendimento sem limites. O que, francamente, inexiste no campo diplomático. Então, o lugar da China não está confirmado. A sabedoria dos chineses é proverbial. A queda de Mao Tse Tung e a restauração contemporânea de Pequim, por meio da clarividência política de Deng Shiao Ping, sugerem prudência. Penso que a China busca neutralidade. Pois os chineses costumam pensar. E pesar as tendências da alma humana.

A brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia, tão telúrica quanto universal, escreveu: “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise”.