Porta

Porta

Dentre os objetos produzidos pelo ser humano, a porta com certeza figura dentre os mais imortais, duradouros e indispensáveis. Sem ela, literalmente, não teríamos saídas. Tampouco entraríamos em qualquer lugar. Por isso, desejamos portas e desejamos que também se abram ou se fechem. Não estou muito certo se na literatura a porta já foi louvada como merece. Talvez as janelas recebam mais a atenção de poetas, prosadores e artistas em geral. (Mas o que é uma janela senão uma porta atrofiada?) Lembro a propósito que o nosso genial Machado estabeleceu, pela voz de Brás Cubas, “a lei da equivalência das janelas”, segundo a qual “o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência”. Lei quem sabe aplicável ao caso que aqui tratamos. Arejamento faz bem a consciências e ambientes.

Voltemos às portas. Elas estão na moda entre celebridades e novos ricos. Estes, não satisfeitos, como nós outros, com as portas mais usuais, resolveram agigantá-las, pondo-as à frente de suas mansões. Isso mesmo, agigantá-las, e não encontro outro verbo à disposição para aguentar o tamanho e as dimensões dessas portas. Algumas chegam a ter a altura de um edifício de quatro andares! o que reduz seus usuários a seres liliputianos, embora liliputianos quase todos já sejam pela própria natureza. Os preços dessas imensas portas são, é claro, igualmente gigantescos, variando de 300 mil a um milhão de reais.

Esse gigantismo ostentatório nos faz pensar em Veblen e sua clássica tese do consumo conspícuo, tão bem exposta no conhecido ensaio “A teoria da classe ociosa”. É nessa obra que lemos que “Para obter e conservar a consideração alheia não é bastante que o homem tenha simplesmente riqueza ou poder. É preciso que ele patenteie tal riqueza ou poder aos olhos de todos, porque sem prova patente não lhe dão os outros tal consideração”. É o caso.

Proust já nos dizia que tanto a sociedade quanto a vida sexual podem chegar a perversões inimagináveis. Pois agora o Brasil tem, entre os seus superabastados, mais uma perversãozinha: a moda das portas gigantes. Portas que também serão largas, e não estreitas, como aquelas da parábola do evangelho. E, como se vê, bem maiores que aquelas de templos e instituições públicas, o que é muito simbólico numa sociedade como a nossa em que a vida privada tende a se sobrepor à pública. 

Ao abrir suas portas colossais (vi recentemente, na TV, a apresentadora Angélica abrir uma dessas!), seus donos, ao que parece, devem entrar em celestes domínios, vedados aos pobres mortais e aos mortais pobres. Ao cerrá-las, sentir-se-ão mais seguros que todos, longe das vicissitudes e perigos das endiabradas ruas nacionais. A propósito, não é de hoje, como explicam nossos sociólogos, que as ruas brasileiras são vistas como um perigo pelas elites. Poucos, como João do Rio, para perceberem “a alma encantadora das ruas”. O que bem mostra a nossa dificuldade com a vida pública, com a vida em comum, o que já é um clichê da nossa identidade nacional. 

A Bíblia ensina que um homem não pode aumentar uma polegada à sua estatura. E, por sua vez, o maior dos pernambucanos, Joaquim Nabuco, advertia que “Não se fica grande por se dar pulos, mas simplesmente sendo”. Os super-ricos das portas gigantes parecem acreditar no contrário: não podendo ser grandes, dão pulos ostentatórios e simbólicos, se agigantam através de suas mansões e de suas portas. Geralmente, nada mais são, como já dissemos, do que liliputianos: o dinheiro que conquistaram perturba-lhes o equilíbrio, infantiliza-os e apequena-os, como costuma acontecer nos enriquecimentos súbitos. O recurso à ostentação só mostra que essa gente prefere um mundo à parte, uma realidade paralela, com portas bem fechadas.