
Isabel Rio Novo
Não com pouco encantamento, li a recente e robusta biografia de Camões, “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte”, da escritora portuguesa Isabel Rio Novo. Abracei-me ao livro como desde há muito abraço o próprio poeta. Ou melhor, fui abraçado pela obra, tão extensa quanto cativante. Cativante não só pelo estilo da biógrafa quanto pela vida do biografado. A autora imprimiu a seu livro imaginação e alma. Imaginação porque é sabido quantas incertezas históricas pairam sobre a vida real do poeta. Alma porque ressuscita, de par com o escritor, toda uma época de glória e turbulência para o grão-senhor dos mares que foi Portugal.
Em 39 capítulos epigrafados com versos camonianos, seguimos a atribulada vida do poeta. Lacunas e incertezas biográficas são contornadas com grande habilidade. Rio Novo nos incita a ligar os pontos, a preencher vazios, sempre a nos lembrar, sem talvez se dar conta, do quanto é importante uma imaginação viva para tais casos. Ao fim e ao cabo, o painel que traça é soberbo e erudito, sem ser tedioso ou meramente apologético. Enfim, Camões nos surge em sua dramática humanidade, com seus vícios, desencontros amorosos, fantasias e duríssimas experiências.
Luís de Camões foi um fidalgo arruinado, sem muitas opções de ascensão social e de estabilidade econômica. Daí talvez, como já observado de Cervantes, o ter levado a praça pública para dentro de sua obra. O dedicar-se às armas, num tempo em que o exército português pouco ou nada tinha de profissional, custou-lhe um dos olhos e praticamente toda a sua vida. Mas, como diz a biógrafa, sua famosa valentia pessoal casava-se bem com os embates militares.
Não obstante a cultura que obtivera em Coimbra durante a mocidade e seu precoce talento literário, não foi a carreira eclesiástica, como costumava acontecer em tais casos, que o seduziu. Antes seduziram-lhe, desde cedo, a vida profana das ruas e as mulheres. Camões foi incontornavelmente um sensual, e foi a sífilis que o matou, após quase duas décadas no Oriente e na África. Ao que ressuma da biografia de Rio Novo, Camões foi um instável. Após tantos episódios azarados (de má fortuna) e mau comportamento (várias vezes foi preso), podemos supor, à luz dos nossos dias, que ao grande poeta faltava um pouco de inteligência emocional, o que, claro, não o impediu de levar a vida “de esperança em esperança / e de desejo em desejo”, embora tenha dividido com o destino os seus descaminhos pessoais: “Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjuraram”.
Homem cioso de seu talento, curioso e comunicativo, Camões “Era brigão e temperamental”. A biógrafa, nas páginas finais, faz uma síntese da personalidade de Camões, não esquecendo um dos seus grandes comentadores, Faria e Sousa (1590–1649), para quem o poeta, “[…] tirando a sensualidade excessiva, fora um homem virtuoso”. Rio Novo, por sua vez, o vê como homem do seu tempo histórico, mas de um “caráter contraditório”, tanto dado aos arroubos da espada quanto a gestos de compaixão e generosidade.
Camões foi ele e sua circunstância: é o que nos diz com outras palavras a sua biógrafa: “Um homem de sua época, que pensava e vivia no âmbito dos valores e preconceitos da mesma”. Para ele, católico, “[…] os muçulmanos eram torpes; os gentios, cegos; os protestantes, heréticos”. Rio Novo pontua, a nosso ver, o conservadorismo do poeta: nenhuma palavra contra a Inquisição, “[…] nenhum protesto contra a escravatura”; nenhuma referência a Nicolau Copérnico, visto crer ainda no sistema ptolomaico.
Ao morrer num hospital de caridade, não obstante o parco reconhecimento que possuía como autor já publicado, Camões não tinha um lençol com que se cobrir!… Malgrado a modesta pensão que recebia da Coroa, era praticamente um mendigo. Foi para a cova rasa dos indigentes, como a melhor misturar-se com a terra, que, apesar de tudo, amou com fervor e devoção (“Quão fácil é ao corpo a sepultura! / Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros / Estranhos, assim como aos nossos, / Receberão de todo o Ilustre os ossos.”).
Despedia-se, legando à pátria um monumento mais duradouro que o bronze: “Os Lusíadas”, a maior das epopeias modernas, cuja grandeza só rivaliza com ele próprio, ou seja, com sua belíssima obra lírica. Foi nesse lirismo que Isabel Rio Novo, com mão hábil e inteligente, apanhou o “estranho” título de seu livro. São versos tão justos e afiados (como geralmente ocorre na poesia de Camões) que parecem sintetizar o drama existencial do grande poeta: “Verdade, Amor, Razão, Merecimento / Qualquer alma farão segura e forte; / Porém Fortuna, Caso [ocasião], Tempo e Sorte / Têm do confuso mundo o regimento”.
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