
Brasil acima…..
No capítulo LX da segunda parte do Quixote, Cervantes, pela boca de um sensato Sancho Pança, nos diz: “[…] tão boa é a justiça que é necessário observá-la mesmo entre os ladrões”. Razão, pois, assiste a Bolsonaro ao dizer que o uso de sua tornozeleira eletrônica é uma “suprema humilhação”, talvez provavelmente sem se dar conta do alusivo trocadilho que fez (até porque seus trocadilhos devem ser impublicáveis).
Na medalha que criou para agraciar seus eleitos, se é que podemos chamar tal coisa de medalha, Bolsonaro reuniu três palavras: “imorrível”, “incomível” e “imbrochável”. A primeira, “imorrível”, dispensa comentários; alguém deve ter lhe soprado que “mitos” não morrem. Quanto a “incomível”, à parte o fato de ser chula e pornográfica no contexto (coisa jamais apontada pelos santos pastores e pessoas de bem que o apoiam!), está se revelando equivocada, pois a tornozeleira, se não o come completamente, pelo menos já está abocanhando sua perna. A terceira palavra, “imbrochável”, assim como a primeira, é falsa como uma nota de 3 reais, e uma tornozeleira eletrônica não parece ser lá muito afrodisíaca.
Por ser colocada no tornozelo (uma das maravilhas do corpo humano), a tornozeleira, esse novo e tecnológico “operador do Direito”, encontra-se entre a perna e o pé, lembrando ao usuário que ambos, perna e pé, não terão passos para fugir. Enfim, um pé no saco! Ao ser um braço da justiça (que confusão de membros vai por aqui!), a tornozeleira zela por todos nós.
O jornalismo do portal UOL, atento à nossa curiosidade (aí incluída a curiosidade de sofridos “patriotas”), nos esclarece algumas dúvidas sobre as tornozeleiras eletrônicas. Afinal, tem gente pensando que elas gravam áudio. Não gravam. Outros pensam que o ex-presidente não poderá tomar banho (aliás, seria uma oportunidade de usar e abusar do perfume “Mito”, que ele próprio lançou). Será que o usuário poderá tirar a tornozeleira e pô-la num cabide? Não, elas ficam grudadas à pele como uma micose! Sim, o mencionado réu poderá tomar seu banho tranquilamente, pois tais equipamentos são à prova d’água. Se o desejar, Bolsonaro pode dar até umas braçadas, ele que boia tão bem… Portanto, nada de removê-la, sob pena de prisão preventiva. A tornozeleira é uma espécie de aperitivo prisional.
Deixei por último a cereja do bolo, o que dá razão a Bolsonaro para falar em “suprema humilhação”. Pelo menos, assim interpreto, embora eu seja um principiante nesse minado campo hermenêutico! Ocorre-me observar que o ex-presidente, ao portar uma tornozeleira, não possa usar um simples coturno militar, calçado que suponho do seu agrado. Imagino que são incompatíveis: “Ou isto ou aquilo”, como diria Cecília Meireles. Mas a cereja do bolo ainda não é isso.
A verdadeira e azeda cereja está num detalhe das instruções de uso, qual seja: a bateria da tornozeleira “deve ser carregada diariamente pelo próprio usuário”. Primitiva e decepcionante tecnologia! Inimiga da dignidade humana! “Suprema humilhação”. É o caso de se dizer como o velho ditado: “Além de queda, coice!”. Isso é como pagar pela bala que nos vai matar! “Tem que mudar isso daí, tá ok?”.
Excelente. Bendita tornozeleira… Merecida e bem humorada. Não se pode, nem devemos levar muito à sério nossos atuais “homens públicos”.
Obrigado, Sergio.
Abraço
Muito divertido o exercício de hermenêutica de Paulo Gustavo. E como escreve bem! Pois ser bem humorado nessa temática não está fácil…