
Assalto!
É tudo muito rápido — mas ficará na memória, perturbando meu espírito por algum tempo. Dois jovens se aproximam do meu carro, onde estou com o celular tentando falar com meu filho, que mora na rua onde estacionei. O que, a princípio, penso ser uma abordagem para pedir alguma informação, transforma-se num choque brutal: o revólver de alto calibre batendo no vidro me confronta com uma realidade que eu só vira na televisão.
— Estou sendo assaltado — penso. E, imediatamente, uma calma me invade, guiando meu gesto suave ao baixar o vidro e entregar o celular.
Mas eles, profissionais com máscaras tipo balaclava, não estavam ali apenas pelo celular. Vieram pelo carro — um Versa automático 2020, em ótimas condições.
Um deles já vai para o banco de trás. O outro ainda apalpa meu bolso — creio que para verificar se eu estava armado.
— É minha carteira, só tem meus documentos — digo.
Ele, sem nenhuma agressividade — diria até calmo, pois dono da situação — pede para que eu saia do carro.
Levanto-me e, sem olhar para trás, com a calma de um monge budista, caminho em direção à entrada do prédio do meu filho.
Eles arrancam em alta velocidade, rumo a um destino que, certamente, já conta com uma cadeia de produção intermediária pronta para transformar meu carro em valor, que será repartido pela quadrilha.
Lembrei de Délio Mendes, meu professor de marxismo no Curso de Desenvolvimento Urbano e Rural, na Católica, lá pelos anos oitenta:
— É a distribuição de renda — na lei ou na marra — dizia ele, inspirado no lema dos anos 1950 de Francisco Julião: “Reforma Agrária na lei ou na marra”.
Referia-se aos tenebrosos efeitos da desigualdade social na vida das pessoas.
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A sensação é de impotência, mas — diria — também de certo alívio por não ter sido agredido. E, pasmem, pelo fato de ter sido assaltado por profissionais.
É esse sentimento que se impõe sobre mim. Não há raiva, nem qualquer forma de pensamento agressivo sobre aqueles dois jovens.
Vem-me, sim, uma reflexão sobre a desigualdade social — essa que venho, junto com os colegas do Instituto (*) e da Revista(*), tentando investigar e pensar em possíveis soluções políticas e econômicas — e que, por uma casualidade do destino, me atingiu com um de seus milhares de tentáculos. Talvez o mais poderoso: a fome e a falta de oportunidades por meio de uma educação de qualidade para todos.
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Claro que segui os rituais: fui até uma delegacia registrar o Boletim de Ocorrência, bloqueei os chips do celular, acionei meu corretor de seguros — há 30 anos comigo — para formalizar o recebimento do valor segurado e comprar outro carro.
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Mas a reflexão mais profunda foi mesmo de ordem filosófica e espiritual. Pois são essas que permeiam nossos desejos e nos movem diante da vida que nos é dada.
A primeira delas é que, diante de um cenário onde se pode perder a vida, somos forçados a relativizar os problemas e as ansiedades do dia a dia.
A segunda, decorrente da primeira, é se desprender — e isso é muito difícil — do apego aos bens materiais que, muitas vezes, ocupam o lugar de objeto de amor. Lembro que nossa relação com objetos é parte fundamental da nossa constituição afetiva, do nosso Eu. Um carro, uma ideologia, um(a) companheiro(a), meus livros — todos são objetos que nos ajudam nessa caminhada da vida. E nos constituem como sujeitos…
O danado é que muitos se atropelam nas prioridades. Tenho um vizinho que, após exaustiva semana de trabalho, encontra prazer em passar horas limpando, lavando e polindo seu carro, outros seguem mitos políticos movidos por uma fé cega e impermeável a realidade- irredutíveis diante da crítica.
E, por fim, me lembro das palavras do Cristo — que, sendo religioso ou agnóstico, recomendo sempre revisitar. Pois o cristianismo, para o bem ou para o mal (vide Inquisição, fanatismo etc.), forjou a espinha dorsal da cultura ocidental, moldando nossos valores morais.
Diz o seguinte:
- “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde ladrões escavam e roubam; Mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam. Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
(Mateus 6:19–21)
Numa visão agnóstica, considero esse “tesouro no céu” os bens da alma ou do espírito humano — ou seja, o conhecimento e as ações que produzimos voltadas ao desvendar da existência humana.
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IEPfD Instituto de Estudos e Pesquisas para o fortalecimento da Democracia
Viva, João !
Vivo, João !
Valeu Luiz Otávio.
Um forte abraço
Grande João, primeiro que tudo, minha solidariedade diante da violência e, segundo, meu respeito pela sua compreensão e excelente interpretação. Vale a reflexão.
Muito obrigado Sérgio.
Você sabe bem o que é isto, uma vez que já foi vítima de sequestro.
Um abraço
A crônica “O Assalto!” reflete bem os traços.
• Embora ressoe com outras crônicas suas, o texto ganha força por ser motivado por um evento recente, do cotidiano urbano, oferecendo urgência e autenticidade.
• Mesmo tratando-se de violência real, a narrativa respira calma e pensamento, invertendo expectativas—no lugar da raiva, advém compaixão e análise social.
Acredito que sua experiência com práticas espirituais, deu um suporte para o fato se tornar menos traumático
A passagem ao pensamento filosófico (desapego, vínculo material, espiritualidade) acontece sem parecer fora de lugar, pois nasce da vivência e se expande organicamente.
A crônica faz referências a Délio Mendes, Francisco Julião e à “distribuição de renda na marra”, entrelaçando a experiência com o debate sobre desigualdade estrutural, muito bem lembrada.
Parabéns pela síntese do fato ocorrido a tão pouco tempo , enaltecer a oportunidade de estar relatando o ocorrido e o poder festejar hoje O Dia dos Pais, ileso, com sua família.
Muito obrigado Gláucio pela sua inteligente reflexão, que agrega conhecimento ao tema central: a violência urbana
Parece a reflexão de quem tem seguro total, saiu ileso e seu carro não é seu ganha pão. Como cidadão vejo que nosso país está entregue a governo corrupto que nesse caso vai dizer que a vítima não é vítima e sim o são os bandidos que querem tomar uma cervejinha.
Antônio Carlos,
Entendo que sua leitura seja marcada por indignação com a criminalidade e com a corrupção política, algo que também compartilho. Mas permita-me esclarecer que minha crônica não teve o intuito de inverter papéis entre vítima e agressor, nem de minimizar o sofrimento causado por um assalto.
O texto nasceu de uma experiência pessoal e do desejo de refletir sobre um fenômeno social que é complexo e multifacetado. Reconhecer que há fatores estruturais — como desigualdade, ausência de políticas públicas eficazes e impunidade — não significa “passar a mão” na cabeça de criminosos, e sim buscar compreender as raízes do problema para enfrentá-lo com mais eficiência.
Se saí ileso fisicamente, isso não diminui o impacto psicológico e social do episódio. E, mesmo que o carro não seja meu ganha-pão, a perda e o risco são reais. Meu objetivo foi provocar reflexão, não fazer apologia ou relativização da violência.
João, respeito sua reflexão, mas passar pano para criminosos estabelece um parâmetro injustificável, ou seja que o crime é culpa da vítima. Não podemos defender criminosos, as consequência, mas sim a causa a má distribuição de renda e oportunidades. No entanto quando elegemos políticos condenados por corrupção damos péssimo exemplo de que não queremos resolver as causas da má distribuição descrendo.
Caramba! Claro que preocupa ver um amigo assaltado dessa maneira. E fico contente de saber que não foi ferido, ou pelo menos não teve o corpo ferido. Mas não consigo entender de onde tiraram essa ideia de que os assaltos e a criminalidade ocorrem por causa da má distribuição de renda. Isso é uma ideia sem qualquer estudo sério que a fundamente. A desigualdade no Brasil é catastrófica, e faz com que, em seu conjunto, o padrão de vida no país seja dos piores e o desenvolvimento seja prejudicado. Mas não é o que explica o alto índice de criminalidade. Aliás, tampouco consigo acreditar que tenha sido tão “fácil” passar por uma situação dessas, como a crônica quer nos fazer crer.
Cara Helga,
Agradeço muito seu comentário e, sobretudo, o cuidado e a amizade de sempre. É claro que o tema merece mais do que impressões ou slogans — e concordo que a desigualdade, por si só, não explica automaticamente os índices de criminalidade. No entanto, há estudos importantes — tanto no Brasil quanto internacionalmente — que mostram correlações significativas entre altos níveis de desigualdade e maior incidência de crimes violentos, especialmente contra o patrimônio. Não se trata de uma relação mecânica ou exclusiva, mas de um fator que se soma a outros: desestrutura familiar, impunidade, fragilidade das instituições, cultura da violência, entre tantos.
Minha crônica, por ser uma narrativa pessoal, não se propôs a fazer um tratado sobre causas da criminalidade. Mas, ao viver a cena, foi inevitável pensar na vida que leva um jovem mascarado, armado, à beira de um carro — e no quanto a falta de oportunidades, agravada por desigualdade extrema, pode alimentar trajetórias que culminam na violência.
Sobre o “facilmente” que transparece no texto, talvez tenha sido um equívoco de leitura. Não houve facilidade, mas sim um esforço consciente para manter a calma — o que é bem diferente. E, nesse ponto, creio que a narrativa quis mais registrar o impacto emocional do que minimizar a gravidade da situação.
Um abraço e obrigado pela leitura
Apesar de agnóstico (espero que não por muito tempo), gostei de que tenha lembrado das palavras de Cristo, pois os verdadeiros bens são realmente os espirituais .