
Expedicionários
No livro “O tenente: cadernos de um expedicionário na Segunda Guerra Mundial”, de Celso Furtado, lançado recentemente, a tradutora e jornalista Rosa Freire d’Aguiar, viúva do autor, continua um valioso trabalho de memória já iniciado, em 2019, com os “Diários intermitentes”. Conquanto o livro apresente um variado conjunto de textos autógrafos e fotos referentes à experiência do grande economista como “expedicionário” da FEB, prendo-me aqui a tão somente analisar o livro que há dentro do livro e que Rosa Freire, ao torná-lo o primeiro capítulo, usou como uma espécie de pórtico para a obra organizada. Refiro-me a “De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária”, apressando-me a dizer que coloco o contista Celso Furtado no mesmo alto nível literário, apesar da diferença de gêneros, de Rubem Braga e suas extraordinárias crônicas de guerra.
Os dez contos foram publicados em livro em 1946. Posteriormente, Furtado, a exemplo de muitos autores, deixou para trás essa obra de estreia. Nada, como costuma acontecer, que o desabonasse, muito pelo contrário. É o que tentarei mostrar.
Julio Cortázar, citado por Nádia Batella Gotlibb em seu estudo “Teoria do conto”, desdobrando um conceito já expresso por um mestre do gênero, Edgar Alan Poe, sentenciou: “Um conto é uma verdadeira máquina literária de criar interesse”. Leia-se: um bom conto. Daí que necessite, por conta da sua brevidade, de uma compactação, como dirá o não menos magistral Tchekhov, pois “O excesso de detalhes desorientaria o leitor, lançando-o em múltiplas direções”. Por sua vez, o contista e teórico Mario Lancelotti, em sua obra “De Poe a Kafka: para una teoría del cuento”, pondera: “Por su forma y temporalidad, el cuento es el asiento ideal de la situación trágica del hombre antecipada en Kierkegaard […]. Fiquemos, por espírito de síntese, com essa breve moldura teórica.
Os contos “da vida expedicionária” são todos praticamente ambientados na Itália e antecipam uma das tendências que prosperariam no Brasil na segunda metade do Novecentos: o conto-crônica. Tendência abordada pelo crítico Alfredo Bosi em seu conhecido livro “O conto brasileiro contemporâneo” (1982).
Curiosamente, e suponho que pelos motivos certos, Furtado não quis escrever crônicas, aliás neste campo ele teria assumido participar de uma concorrência da pesada, a começar pelo citado Rubem Braga. Sob o escudo da ficção, ele abre espaço a algo mais universal e indefinível e tem mais liberdade para criar, mas isso retendo a lição de Poe de buscar um efeito único e integrado. O “acontecimento” ficcional, ou “episódio”, ainda é tradicionalmente externo, mas já comporta vê-lo, conforme dito por Mario Lancelotti, como uma “situação”. É a essa situação que Furtado se volta para, aqui e ali, fazer observações psicológicas que afastam quaisquer lugares-comuns de seu texto tão fluente e sutil. É o escritor que segura a pena do soldado, assim como é igualmente um elegante foco brasileiro que se abre sobre o diálogo e o encontro de culturas que a guerra, em terras italianas, proporcionava aos seus diversos atores: alemães, americanos, italianos e brasileiros. Furtado, como escritor, compõe, arquiteta, mas “os traços gerais”, embora verdadeiros, “não pertencem a ninguém”, porque há a “certeza de que as experiências couberam a todos”, como diz ele numa nota prévia que parece antever críticas ou pretender, como num sucedâneo de uma vivência compartilhada, a solidariedade do leitor a uma coletiva sensibilidade.
O realismo de nosso autor, embora exista e possa ser debitado à sua natureza apolínea, está longe de qualquer secura. Daí que o narrador (protagonista e/ou coparticipante) vá suavemente pontuando sua reflexão. Como neste trecho do conto “Dois cigarros”: “Cada um sabia que os outros estavam a recordar a sua terra. Mas um pudor quase místico nos coibia de pronunciar sequer o nome daqueles lugares sagrados […] E a precariedade do futuro dava ao passado uma significação e um valor que nunca lhe suspeitáramos”. Esse tipo de observação é recorrente e atravessa quase todos os contos.
De par com esse realismo psicológico calibrado pela brevidade da forma, o lirismo, tal qual acontece em Rubem Braga, cria hiatos poéticos na aflição da guerra, como lemos neste outro trecho: “À minha esquerda, uma janela aberta mostrava um pedaço desse belo céu italiano, onde as estrelas parecem que se reproduzem à proporção que o contemplamos”. Esse lirismo vai estar presente até mesmo numa descrição de personagem, como no início do conto “Um intelectual em Florença”. Reparem: “O meu amigo Mário era desses rapazes altos e de elegância natural, mãos vastas e gestos medidos, que pela bondade nos dão sempre a impressão de meninos grandes”. Só um grande autor consegue certas sínteses e a convocação de sugestivos opostos como nas expressões “mãos vastas” e “gestos medidos”. Não precisa, o narrador, mais do que isso para que Mário surja inteiro da sua cartola de mágico. Eis, de inúmeros, um último e magistral exemplo de análoga forma semântica: […] tinha olhos ao mesmo tempo vivos e lânguidos, como os olhos dessas jovens pudicas que escondem a curiosidade nas pálpebras semicerradas”.
Quanto aos temas e subtemas principais, diga-se que ficam praticamente todos sob a redoma compreensiva de uma sociologia da cultura. A guerra, como entrevemos no livro de Furtado, favorecia uma espécie de cosmopolitismo aos provincianos de ambos os continentes, da América e da Europa. Em todos os momentos, um narrador culto (duplo ou alter ego do autor) ousa pensar filosoficamente. Mas isso, diga-se aos menos “metafísicos”, nada tem de entediante. Porque os contos de Furtado são como devem ser: ágeis, breves e até bem humorados, cada um se fechando sobre si mesmo, mas encadeados numa só corrente. De resto, quem pensa também pensa em meio à guerra; quem é poeta o é igualmente na turbulência mortal das trincheiras. Alain chegou a dizer que “Uma batalha é, sem dúvida, uma das circunstâncias em que menos se pensa na morte”.
Não são crônicas como parecem à primeira vista os contos de Furtado, não obstante haver neles altas doses de verdade factual. A verdade estética, tão vilipendiada ontem e hoje, eterno alvo da inveja, é o que mais parece importar ao eu lírico que move personagens, diálogos e cenários. A rigor, é uma estrutura pertinente a esse difícil gênero que faz com que tudo se erga, da mesma forma que é uma estrutura romanesca que faz existir “Em busca do tempo perdido”, que não é só “memórias” como inicialmente se pensou: uma visão equivocada que, no Brasil, foi brilhantemente refutada pelo crítico pernambucano Álvaro Lins. Em suma, o que faz os textos de Furtado uma ficção é a intencionalidade autoral, o domínio virtuoso da linguagem e elementos técnicos muito bem concatenados. Tudo isso por um escritor que, apesar de sua juventude de então, sabia muito bem o que estava fazendo.
Demitido da SUDENE em 1964, e respondendo a três IPMs, pensei em sair do país e escrevi ao Dr. Celso Furtado, para me aconselhar. Transcrevo trecho da resposta dele:
“Há vinte anos quando eu voltei da guerra, enfrentei uma situação parecida com essa em que você se encontra agora. Tinha um curso de direito mas não estava convencido de que dispunha dos elementos para enfrentar a vida da forma que desejava. Tomei um navio e fui para a Europa e terminei fazendo-me economista. Os meios materiais de que eu dispunha eram muito limitados, mas eu levava uma vantagem pois ninguém dependia de mim”.
Mas eu já estava casado, e não quis incomodar amigos já exilados, nem, afinal, corria risco de vida. Assim, optei por cumprir aqui mesmo meu “exílio”.
Mas o que quero demonstrar aqui é que Celso Furtado, antes de optar pela economia, já era um ESCRITOR. Já produzira textos sobre questões da administração pública, e artigos jornalísticos sobre questões de artes. E isso explica duas coisas: a qualidade do seu primeiro livro “De Nápolis a Paris – Contos da Vida Expedicionária”, tão bem ressaltada pelo autor deste artigo, e a visão abrangente do autor do livro comentado. É do próprio Dr. Celso a observação de que nunca considerou um problema como puramente econômico. E é isso que sempre o distinguiu no universo dos acadêmicos e planejadores.