José Álvaro Moisés (in memoriam)

José Álvaro Moisés (in memoriam)

A última mensagem que enviei ao José Álvaro Moisés foi na sexta-feira, dia 13, às 17:15. Respondia uma pergunta que ele me havia feito na manhã do mesmo dia. Sexta-feira que haveria de marcar o fim prematuro deste diálogo e parceria que me trouxeram sempre tanto conhecimento e orgulho. Conversávamos sobre duas bolsas de doutorado sanduíche que o projeto Scripts (Universidade Livre de Berlim) oferecia para estudantes da Universidade de São Paulo.

O Cluster of Excellence on Contestations of the Liberal Scripts foi a razão pela qual eu primeiro contactei o Moisés. As atividades do projeto buscavam um interlocutor institucional na USP, e quem melhor que o Moisés para abraçar este desafio de pensar a democracia, a qualidade da democracia, através da lente da contestação ao script liberal? Fui recebida por ele com curiosidade e entusiasmo. Trocamos ideias, pensando como o grupo de pesquisa sobre a qualidade da democracia que o Moisés coordenava no Instituto de Estudos Avançados da USP poderia funcionar como uma plataforma para explorar a sinergia entre as respectivas agendas de pesquisa. Logo em diante, o Moisés me convidava para integrar o grupo. Aceitei. Não sem antes explicar que a minha trajetória acadêmica era no campo das Relações Internacionais, que eu não tinha investimento no tema da “qualidade da democracia,” e que tampouco poderia me transformar em uma pesquisadora do tema. Poderíamos ter continuado a parceria relacionada aos assuntos do projeto Scripts de outra forma, mas o Moisés insistiu – e assim eu me juntei ao grupo de pesquisadores. Com isto, estive presente em reuniões de pesquisa e seminários – inclusive dialogando com Antônio Lavareda, quando da discussão de sua pesquisa mais recente. Também quando outra pernambucana de destaque, Nara Pavão, apresentava sua pesquisa.

Para uma pernambucana que chegou a São Paulo apenas em 2008, recém formada nos Estados Unidos, ser acolhida pela Ciência Política paulistana não foi sempre natural. O Moisés desponta no grupo seleto de professores que me abriu portas e espaço institucional. Esta generosidade intelectual, da parte de um pesquisador tão engajado na produção do conhecimento e na formulação de políticas públicas, foi singular. Em meio a sua agenda sobrecarregada – como ficou claro ontem, na fala de inúmeros colegas que enumeraram os muitos projetos nos quais estavam envolvidos junto com o Moisés, ele sempre abriu espaço para conversarmos sobre iniciativas conjuntas.

Do Moisés guardo muitas lembranças e muita saudade. Dentre estas lembranças, sobressai o seu olhar atento, a sua capacidade de escutar, de estar presente integralmente naquele momento. Me senti sempre muito acolhida e escutada – algo tão valioso em uma ciência dominada por paradigmas e estereótipos. Mais recentemente, conversávamos com os colegas de Berlim (Tanja Börzel e Thomas Risse) sobre um seminário para discutir o tema da confiança política. Você deixa um vazio enorme, Moisés! E nem começamos a enxergá-lo.

Cristiane Lucena é Professora Associada do Instituto de Relações Internacionais da USP. Formada pela Universidade Federal de Pernambuco e pela New York University.