Guerra

Guerra

Em seu livro “Oliveira Lima, Don Quixote Gordo”, Gilberto Freyre recorda que, quando menino de treze anos, acompanhando seu pai, presenciou o grande historiador e diplomata afirmar, em solenidade no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, que, sempre que voltava a esse estado, sua terra natal, os conterrâneos estavam brigando. Imagine-se agora um extraterrestre que estivesse, de seu superior planeta, estudando a Terra há muitos anos. Talvez essa criatura fantástica, xeretando nossos povos, repetisse Oliveira Lima: “Eles estão sempre brigando”…

No século XVII, o escritor e moralista francês La Bruyère, em seu famoso “Os caracteres”, fez a seguinte reflexão: “Indaga-se por que todos os homens juntos não compõem uma só nação e não quiseram falar a mesma língua, viver sob as mesmas leis, combinar entre si os mesmos usos e um mesmo vulto; e eu, pensando na oposição dos espíritos, gostos e sentimentos, admiro-me de ver até sete ou oito pessoas se juntarem sob um mesmo teto, num mesmo recinto, compondo uma família”. Ah, para apurar sua admiração, o ilustre francês precisava ter conhecido de perto uma vara de família da atualidade!…

Por sua vez, o pacifista, matemático e filósofo Bertrand Russell confessou-se surpreso quando, durante a Primeira Guerra Mundial, viu colegas universitários e pessoas de bom nível cultural perderem a sensatez e deixarem-se levar por um verdadeiro entusiasmo pelo conflito. O fato cru é que há uma linhagem humana que vibra com a guerra (não formada só por militares, longe disso, até porque há militares que temem secretamente as guerras!). E não se deve esquecer de que essa excitação se estende ao campo econômico-financeiro: uns perdem dinheiro, outros ganham fortunas. Como sabiamente anotou o estadista francês Georges Clemenceau, “A guerra é um negócio muito sério para ser deixado por conta dos generais”.

Dentre os lugares-comuns mais lembrados sobre a guerra, consta uma famosa frase do general prussiano Carl von Clausewitz. Confesso que, como tantos que conhecem essa sempre citada frase, jamais li seu ilustre autor. Rogo, pois, a Deus que o grande teórico militar não venha do além me arcabuzar por criticá-la. A frase nos diz que “A guerra é a continuação da política por outros meios”. Essas palavras, se originalmente não o eram, passaram a ser uma frase de efeito. Ou seja, de algum modo nos enfeitiça, e por certo foi pinçada por dedos insidiosos. Ignorante em coisas da caserna, perguntei à Inteligência Artificial sobre o estilo literário do bom militar, ao que esta me respondeu, como eu já desconfiava, que seu estilo era “denso, filosófico e profundo”, seja lá o que for que esses adjetivos signifiquem em tal caso. Noutras palavras, algo intimidante para um leigo como eu.

Mas perdi o meu temor a esse “algo intimidante” e confidencio que sempre pensei nessa frase como uma frase tola, senão uma empulhação. Uma guerra não pode ser continuação da política. Que a diplomacia possa ser uma continuidade da política (da grande política), parece óbvio. Mas a guerra? A guerra, por definição, é a antipolítica. A política tem na palavra, no discurso, no Logos, uma de suas razões de ser. A guerra é naturalmente a antipalavra. Assim, ela é antipolítica no sentido de que sua essência está na ação considerada em si própria, sendo certo que esta é irracional, perigosa, mortal e carregada de paixões como a ira, a arrogância, o ressentimento, a vingança e o desespero. A frase eufêmica do general parece bater continência a uma consciência pesada de ter abandonado a política, de tê-la deixado em segundo plano. O que a política e a diplomacia filtram, estabelecem e apuram, a guerra anula pela força e pela até hoje irrevogada “lei do mais forte”. No que toca à política, o diálogo, ainda que eventualmente difícil, engendra a civilizada continuidade não só do próprio diálogo como do Direito e da vida, enquanto a guerra é mortífera e, em sua fogueira, todas as razões são queimadas. .

Finalmente, devo dizer que descobri que o psicólogo e neurocientista Steven Pinker traz água ao meu modesto moinho. Diz ele que a força dessas palavras de Clausewitz vem de uma época em que “a guerra fora considerada gloriosa, heroica e honrosa” (Cf. “Os anjos bons da nossa natureza: por que a violência diminuiu”). Hoje não há mais esse enobrecimento dos conflitos de outrora, quando então brilhavam heroicas coragens, embora as guerras continuem excitantes e cheias de fervor. Decerto um fervor menos político do que tecnológico e econômico.