Trio nefasto

Trio nefasto

Se Donald Trump fosse o presidente dos Estados Unidos em 2022, provavelmente Jair Bolsonaro teria tido chances reais de dar o golpe de Estado, impedindo a posse do presidente eleito Lula da Silva e implantado uma ditadura. A democracia brasileira deve muito a Joe Biden, então chefe de governo estadunidense, que defendeu o modelo eleitoral brasileiro antes mesmo das eleições e foi o primeiro governante a reconhecer a vitória de Lula. Não foi um gesto trivial e, seguramente, desestimulou as articulações golpistas nas Forças Armadas e nos segmentos da direita brasileira. Não foi o único fator de vitória da democracia brasileira, mas com certeza, teve muita importância na desmobilização dos golpistas.

A história é marcada por determinadas configurações de estrutura de poder com suas ideologias e suas capacidades políticas e militares, empurrando os fatos e movimentos para diferentes direções, equilíbrios ou desequilíbrios. A combinação, num mesmo momento da história, de Trump, Putin e Netanyahu no poder dos seus países é uma dessas configurações desastrosas que estão desestabilizando o planeta e provocando violência, destruição e crimes de guerra. O Brasil escapou, por muito pouco, da configuração de Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no governo brasileiro, que teria, provavelmente, viabilizado o golpe bolsonarista.

E agora? Que configuração teremos no futuro imediato? Trump ainda vai ter mais três anos no poder, Jair Bolsonaro está preso e é inelegível, os líderes da tentativa de golpe estão presos. Mas o bolsonarismo está ativo e tem um candidato a presidente com chances reais de voltar ao poder. Se Flávio Bolsonaro for eleito, vamos conviver, por dois anos, com a configuração Trump-Bolsonaro da qual o Brasil escapou em 2022. Flávio Bolsonaro vem tentando se apresentar como o moderado da família, mas tem repetido o discurso do Jair de questionamento do sistema eleitoral brasileiro e de subserviência aos Estados Unidos. Vale lembrar o entusiasmo que o ex-presidente manifestou com a vitória eleitoral de Trump e a adesão estranha ao slogan trumpista MAGA-Make America Great Again, movimento nacionalista norte-americano que busca a grandeza dos Estados Unidos esmagando o resto do mundo, inclusive o Brasil. O outro Bolsonaro (Eduardo) estimulou, negociou e apoiou a agressão do governo Trump com as absurdas tarifas alfandegárias dos produtos brasileiros e as sanções contra autoridades brasileiras.

Nesta semana, em reunião nos Estados Unidos, o Bolsonaro candidato a presidente defendeu pressões diplomáticas externas para garantir eleições livres no Brasil, manifestando dúvida sobre a lisura do sistema eleitoral brasileiro. No seu discurso na Conferência de Ação Política Conservadora, Flávio Bolsonaro afirmou que só não ganharia as eleições presidenciais deste ano se o povo não “puder se expressar livremente nas redes sociais” e se os votos não “forem contados corretamente”. Em outras palavras, para o candidato do PL-Partido Liberal não existe liberdade de expressão e o sistema eleitoral brasileiro é viciado e passível de fraude. Antecipa, portanto, que não reconhecerá o resultado das eleições presidenciais caso seja derrotado, imitando Jair e Trump na falsa afirmação de fraude eleitoral.

Quando pede o monitoramento externo das eleições e apela a que os Estados Unidos pressionem as instituições brasileiras, está apostando na interferência do presidente nos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil. Logo Trump, que não tem nenhum apreço pela democracia e tentou, de diversas formas, interferir na apuração dos votos em alguns Estados norte-americanos para fraudar as eleições e impedir a vitória de Joe Biden em 2020.

É nem precisa pedir, Trump vai agir para influenciar nas eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro porque não aceita o governo Lula, a aproximação do presidente brasileiro com a China e os BRICS, e sabe que o candidato do PL será um aliado dócil e subserviente aos interesses dos Estados Unidos. Trump deve ter a intenção de “tomar” o Brasil (expressão que tem utilizado na sua agressiva política externa) e sabe que o caminho estará aberto se Flávio Bolsonaro subir a rampa do Palácio do Planalto em primeiro de janeiro de 2027. Claro que Trump não pode “tomar” o Brasil, como fez na Venezuela, como está tentando (e fracassando) no Irã e promete alcançar em Cuba. A estratégia de Trump para o Brasil deve passar pelas eleições presidenciais, buscando formar uma configuração Trump-Bolsonaro que permitirá exercer forte influência sobre as decisões do governo brasileiro, submetendo a política brasileira externa às diretrizes de Washington, retirando o Brasil de acordos internacionais, podendo envolver o Brasil nas aventuras militares trumpista. E, mais importante para as ambições de Trump, viabilizando a ampla e favorável exploração das terras raras do Brasil, que tem a segunda maior reserva do mundo, depois da China. Esta configuração será desastrosa para o Brasil.