Dom Hélder

Dom Hélder

Mais histórias do passado. Já começo lembrando que Dom Hélder chegou, em 12/04/1964, para ser arcebispo de Olinda e Recife. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência, reprodução de experiência no Rio. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria Moraes e Lilia Guaraná, só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrou-se casualmente com Paulo Guerra

  –  Dr. Paulo, o Arcebispo veria com muitos bons olhos a contratação dessas duas funcionárias, pelo governo, para ficar à disposição do Banco.

 Guerra (PSD) foi eleito vice de Miguel Arraes (PST), em 1962, até quando a Redentora prendeu Arraes em Fernando de Noronha.  O general Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, em seu livro de memórias escreveu

 ? Arraes socialmente confinado em seu palácio, já quase impossibilitado de nos trazer perturbações… O instinto herdado de meu pai, um caçador de onças, fez-me ver nele, desde a primeira hora, um inimigo… Declarei-lhe guerra desde que o conheci. E isolei-o, afinal, na solidão de um penhasco perdido no meio do Atlântico (a ilha de Fernando de Noronha).

 Guerra, governador, desejava muito atender o Dom. Por ver, ali, uma chance de alargar suas relações com as oposições. Mas sabia da dificuldade representada pelo tal Justino, à época todo-poderoso em Pernambuco. Que mandava na própria sombra.

 O amigo Carlos Moreira, advogado e poeta, estava batendo ponto no Bar do Valdemar (Recife antigo, toda gente sabe onde é) quando ele entrou para espanto dos presentes. Testemunha do fato foi o jornalista Aldo Camerino Paes Barreto.

 Moreira pediu um papel a Aluízio Falcão e deixou registrado:

 “? Cidadão guarda teu bolso

Comerciante a vitrina

Cachorro esconde o osso

Garçom feche a cantina.

 Mas se tens o que perder

E ainda te resta tino

Bota as pernas pra correr:

Que está chegando o Justino!”

 Dia seguinte, Guerra o foi procurar.

 – Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, general. Mas essa gente eu trato no pau e não vou contratar ninguém.

  – Muito bem, governador.

 Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não queria nada, virou-se para ele

 – Sabe o que estou pensando?, general. Que esse comunista sem-vergonha fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. O que o senhor acha de contratar duas, em vez das 20?  Ele não iria poder falar em perseguição, afinal contratamos essas duas. Mas é o senhor quem manda.

 – Grande ideia, governador, pode contratar.

  No fim da tarde, um magote de meganhas veio reclamar. E o general, nos altos de sua vaidade,

 – Fui eu que mandei.

 Saudades de um tempo em que política, tão diferente do jogo bruto de hoje,  ainda se fazia com engenho e arte.