
Madame de Sévigné
Desde 15 de abril, com uma exposição que vai até 23 de agosto próximo, Paris está homenageando, em seu Museu Carnavalet, uma filha ilustre da cidade, Marie de Rabutin-Chantal (1626–1696), mais conhecida como Marquesa de Sévigné, ou Madame de Sévigné, que se notabilizou como uma das mais importantes epistológrafas francesas e que, em fevereiro, teria completado trezentas elegantes primaveras.
As cartas, embora atualmente desconectadas de nossos hábitos, salvo em situações muito formais ou especiais, constituem um gênero literário que se pode seguramente chamar de milenar: basta pensarmos em gente como São Paulo, São Jerônimo, Cícero, Sêneca ou Epicuro. O gênero também pode misturar-se a outro gênero mais moço: o romance, como bem o provam escritores tão diferentes como Goethe, Balzac, Chordelos de Laclos e o premiado e atualíssimo Sandro Veronesi. Dentre os admiradores da Marquesa, destaca-se ninguém mais ninguém menos que Marcel Proust, que a levou, numa singular homenagem, para dentro do maior romance dos tempos modernos: “Em busca do tempo perdido”.
Em seu livro “Monsieur Proust: o homem das leituras solitárias”, que não só trata, como já o sugere o título, de transtextualidade, mas igualmente da recepção de Proust em Portugal, Maria do Rosário Girão Ribeiro dos Santos nos ajuda a ter uma visão geral do sentido e das características das cartas de Sévigné. Diz ela: “Poema de desejo, romance de amor, ‘revista’ de ‘casos picantes’, recolha de aforismos moralistas e crônica de escândalos da corte, as Cartas de Marie de Rabutin-Chantal são testemunho flagrante da ambiguidade de um gênero epistolar renovado […]”. Sem dúvida, a boa Marie insuflou uma benfazeja renovação ao longevo gênero.
Escritas quase que diariamente para sua filha, Madame de Grignan, as cartas da Marquesa não só primam pela diversidade acima descrita como excelem pela naturalidade, o que não deixa de contrastar com a formalidade de seus contemporâneos do chamado “Grande Século”. No livro “Madame de Sévigné: letres choisies”, cartas selecionadas e anotadas por Roger Duchêne, crítico francês e biógrafo de Proust, esse autor observa que “A reputação da Marquesa lhe veio de sua inesgotável capacidade de surpreender por achados inesperados e todavia naturais”. Um primo da autora, menciona Duchêne, dizia que “ninguém nunca se entediava com ela”. Outra admiradora vibrava com seu “espírito esclarecido e forte para dispensar o mundo e a corte” e comenta que “ela escrevia como falava”. Ainda segundo Duchêne, “a correspondência foi escrita como uma sucessão de fragmentos” e “cada passagem tem uma espécie de autonomia”. Não sem algum humor, Proust escreveu que “uma carta é como uma visita” e uma “carta obscura como uma visita longa” (Cf. “Proust par lui même”, de Pierre Assouline). Não são longas as de Sévigné!
Quem quer que tenha lido “Em busca do tempo perdido” terá notado a ênfase com que Proust se refere a Sevigné. O Barão de Charlus, um dos grandes protagonistas do romance proustiano, numa passagem de “À sombra das moças em flor”, diz que a Marquesa era “incapaz de esperar o momento em que estará a sós com a filha” e logo a seguir cita a própria Sévigné: “Na ausência, […] adiantamo-nos para o tempo a que aspiramos”, passagem em que vislumbramos a ansiedade como um substrato psicológico das cartas da autora. Outra protagonista proustiana, a avó do herói, não larga as “Cartas” da Marquesa e com ela tem visíveis afinidades de temperamento. Falecida a avó, o livro de Sévigné, como um objeto de culto e de metonímico afeto, passa a andar nas mãos da própria filha que lhe sobrevive, a mãe do herói.
Tão importante para Proust é a hoje tricentenária autora que o premiado “Dicionário Marcel Proust”, organizado por Annick Bouillaguet e Brian Rogers, dedica-lhe um bom verbete, onde, entre outras coisas, assinala que as citações tomadas às cartas da marquesa são geralmente distorcidas, talvez porque, supomos de nossa parte, ele as citasse de memória. Aliás, o verbete ainda informa que o romancista “amava pastichar a escritora em cartas a seus amigos”. Diga-se, por curiosidade, que Proust detestava escrever cartas e todavia escreveu milhares delas, uma correspondência que, durante 60 anos, foi organizada pelo americano Philip Kolb e que resultou em 21 volumes!
Finalmente, o “Dicionário Marcel Proust”, tocando num interessante ponto de Teoria da Literatura, o da recepção da obra, garante que “Proust quer revelar nas cartas de Sévigné as belezas que o século XVII não soube perceber”… Agora, no século XXI, é possível que vários leitores descubram nos textos da Marquesa outras novas e raras belezas.
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