
Mussolini e o microfone
Se a voz, pelos mais variados e óbvios motivos, sempre constituiu e impulsionou a humanidade, é de se imaginar o papel político que exerceu, a exemplo de seu uso por líderes e governantes. Segundo a Bíblia, o próprio Deus teria falado algumas vezes. Por intermédio do arcanjo Gabriel, Maomé ouviu de Deus o sagrado livro que é o Corão. Os santos costumam ouvir vozes. Apesar disso, o que consta, ao longo dos séculos, é praticamente uma ausência de atenção à voz por si mesma, em seus estreitos vínculos com as nuanças psicológicas, psicossociais e com associações relevantes e dignas da nossa sensibilidade auditiva. O ouvido, observa McLuhan, mais que o olho, é um sentido hiperestésico! A voz ressoa no íntimo.
Em seu recente livro, “Vidas da voz: um ensaio sobre a proximidade” (de resto, rico em singulares pontos conceituais que não abordaremos aqui), Hans Ulrich Gumbrecht, pensador e Professor Emérito de Literatura da Universidade de Stanford e docente da Universidade Hebraica de Jerusalém, mostra-nos como a voz não passou despercebida aos chamados “moralistas franceses”, que a viam “como um possível sintoma de diferentes estados mutáveis da psiquê humana”, embora quase sempre num quadro convencional onde se privilegiava o estético.
O fato é que há uma forte associação entre voz e imaginação humana, e isso podemos conferir em nós mesmos ao ouvirmos vozes sem rosto, ou melhor, vozes de pessoas cujo rosto desconhecemos, o que leva, é claro, a não poucas surpresas e a vários desapontamentos. A literatura nos dá alguns estimulantes testemunhos de uma atenção à voz, quase sempre deixando a cada um de nós o imaginá-la, uma vez que características e qualificações são comumente deixadas implícitas ou silenciadas. Dentre os autores literários que dela trataram mais visivelmente, Gumbrecht cita Proust, Virginia Woolf, Thomas Mann, Diderot e Ernst Jünger.
No campo histórico propriamente dito, o ensaísta nos mostra como, durante o fascismo, voz e política misturaram-se profundamente. O fascismo foi, diz ele, “uma forma política fonocêntrica”. Houve uma apropriação política do rádio, “a primeira ‘mídia social’ de verdade”, à qual, segundo o já citado McLuhan, Hitler devia sua existência política! Nessa linha, é praticamente certo que o teórico canadense hoje apontasse as redes sociais como uma mídia criadora de vários dos abomináveis e retrógrados líderes que têm liderado fascistamente o mundo atual.
É nesse contexto que Gumbrecht nos lembra que “A voz de Mussolini e, logo depois, a de Hitler foram objetos de elogio e admiração, sobretudo por serem ‘empolgantes’ em seus perfis sonoros individuais”, o que (vejam que curioso) “dificultou que seus partidos pudessem estabelecer instituições para o ensino da retórica fascista em geral com base em princípios universais”. Já no caso do líder fascista espanhol Francisco Franco, especula o autor, sua voz pode ter contribuído para “legitimações simbólicas de controle ditatorial diferentes” daquelas de Hitler e Mussolini, pois ela soava “pouco atraente e muitas vezes frágil”…
Naturalmente, também no Brasil de meados do século passado, o rádio cumpriu um fonocêntrico papel político, haja visto o venerando programa “A voz do Brasil”, criado por Vargas em 1935 e ainda em difusão. Naquele tempo, havia inclusive o conhecido maneirismo da voz “tremida” dos políticos de então. É provável, como se pode imaginar pelas informações da IA a seguir, que o fenômeno não tenha sido uma ocorrência apenas nacional. À falta de outras fontes sobre um assunto que parece de menor importância, consultei a inteligência artificial. Segundo ela, combinou-se um “vibrato”, que apresenta oscilações de frequência em voz e instrumentos musicais, com a modesta tecnologia da época: os microfones, entre os anos 1930 e 1960, exalavam um “som metálico e trêmulo”, o que nos faz supor um interessante contágio sonoro. No mais, a coisa ficava por conta do próprio orador, que aproveitava para dramatizar conforme seu gosto, seus interesses e sua arte “teatral”. Uma dramatização que, aliás, não estava ausente dos textos jornalísticos da época.
Por curiosidade, mencionemos que, em seu nada saudoso mandato (1985–1990), o então presidente José Sarney protagonizava o programa semanal “Conversa ao pé do rádio”. Conversa, por sinal, jogada fora, de baixíssima audiência. Talvez como a voz de Franco, sem comparar nosso político ao fascista espanhol, a voz do ex-presidente soasse “pouco atraente e muitas vezes frágil”. Como quer que seja, a Era do Rádio havia passado para sempre.
comentários recentes