
O Cobrador de Impostos
Com base em argumentos que não têm relação com as condições do comércio bilateral, o governo dos Estados Unidos voltou a impor uma taxa de importação de 25% sobre os produtos brasileiros. Essas elevadas tarifas provocam um impacto significativo em alguns setores da economia brasileira, mas as novas regras definem um conjunto de exceções que, além das commodities e produtos de baixo valor agregado – carne, café e laranja – incluem vários produtos industrializados e de alto valor agregado. Para a seleção dos produtos isentos, o governo norte-americano esqueceu as justificativas e utilizou como critério os impactos negativos que poderiam levar “à indisponibilidade de oferta doméstica e causar ‘perturbações’ na economia americana caso fossem submetidas à nova tarifa” (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos).
Diante da decisão de Washington, o governo brasileiro deve insistir em novas rodadas de negociações, ao tempo em que adota medidas emergenciais para a moderação dos impactos das novas tarifas na economia brasileira. E, para além da resposta imediata à truculência de Donald Trump, o Brasil deve formular e implementar uma política externa de diversificação dos parceiros e de elevação das exportações de produtos de maior valor agregado. Atualmente, cerca de 40% das nossas exportações vão para dois países, a China (27,7%) e os Estados Unidos (12,2%), sendo que as exportações para o nosso principal cliente (a China) são predominantemente de commodities de baixo valor agregado (cerca de 76% das vendas totais).
A divergência tarifária entre os dois países está contaminada pelas diferenças ideológicas dos dois presidentes – Donald Trump e Lula da Silva – e, mais diretamente, pela disputa eleitoral no Brasil, evidenciando recorrentes interferências do governo estadunidense nos nossos assuntos internos. O Secretário de Estado, Marco Rúbio, responsabilizou o governo brasileiro e o próprio presidente da República pela sobretaxa alfandegária, porque, segundo ele, Lula “colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo em prol do bem-estar do povo brasileiro” e não teria negociado com EUA de boa-fé. Rúbio assumiu o discurso da oposição no Brasil, liderada pelo senador Flávio Bolsonaro que, há poucos dias, solicitou ao Secretário de Estado o adiamento das tarifas (não a sua suspensão) para não alimentar o discurso de soberania nacional do presidente Lula.
O governo Lula aproveitou e devolveu a acusação, lamentando que as investigações que levaram ao tarifaço fossem “parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro” (…) “falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”.
Tudo indica, portanto, que, até as eleições presidenciais, não haverá avanços relevantes nas negociações entre os Estados Unidos e o Brasil em torno de relações comerciais equilibradas e justas. Aliás, o Brasil terá mesmo que esperar o final do mandato do presidente arrogante, errático e imprevisível dos Estados Unidos para a retomada de negociações comerciais sérias e tecnicamente fundamentadas. Bom, antes disso, em outubro, o Brasil terá que decidir quem será o negociador brasileiro em Washington.
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