
Amrum – Dirigido por Fatih Akin
Não parece feliz a versão nacional do título do filme em cartaz “Amrum”: “Uma infância alemã”, embora seja verdade que o nome “Amrum” não diria nada ao público brasileiro. Também, claro está, evitou-se a palavra “nazista”, talvez por pesada ou política. Nisso, o distribuidor cinematográfico assemelha-se à grande mídia, que, por calados motivos, naturalizou a ausência das palavras “fascismo”, “nazismo” e seus satélites semânticos, como se esses termos devessem ficar circunscritos aos intelectuais.
Mas é de nazismo que trata o filme alemão, ainda que de uma forma mais suave que a habitual. Para suprir a lacuna histórica e o desvirtuamento oblíquo, o público, a rigor, num plano ideal de informação, deveria imaginar o que tem o Brasil a ver com isso atualmente. A uma pergunta simples sobre um dos aspectos do tenebroso tema, temos da IA a seguinte resposta: “Estudos conduzidos por especialistas apontam que o Brasil possui entre 334 e 530 células neonazistas em atividade no País. Mapeamentos indicam que esses núcleos operam fortemente na internet e se concentram, em sua maioria, nas regiões Sul e Sudeste”. É uma expressiva contagem e aponta que “Amrum” pode estar mais perto do que imaginamos.
Ficcional, mas embebida de marcas biográficas de um dos autores do roteiro, o ator, romancista e dramaturgo Hark Bohm (o outro é o próprio diretor Fatih Akin), falecido há oito meses, a história do filme passa-se às vésperas da capitulação alemã na ilha germânica de Amrum, no Mar do Norte. É lá, num mundo não continental e provinciano, que vive, com sua família, o menino protagonista da trama: a seu modo, como vai sugerindo o filme, um pequeno herói. É através dele que veremos uma ilha desencantada!
Apesar de suas avoengas origens baleeiras na própria ilha de Amrum, o garoto é preconceituosamente considerado um “continental” por seus colegas de escola. No microcosmo em que vive também está bem instalado o “espírito” nazista, a exemplo do culto do líder e da força, do patriotismo militarizado, da exaltação de valores patriarcais e machistas. Enfim, o veneno da ideologia chega, quase sem filtro, aos vasos capilares da provinciana Amrum e exige de suas crianças um comportamento fiel e discente. A infância por si mesma, signo de liberdade e pureza, torna-se uma inimiga, uma intrusa a ser banida por comportamentos que começam na família e na escola. A própria mãe do garoto (o pai partira para a guerra), fervorosa nazista, aponta-lhe um dedo acusador: “É por causa de gente fraca como você que a Alemanha está perdendo a guerra”. Mas o jovem protagonista nada tem de fraco.
Em meio a uma profusão de obstáculos materiais, constrangimentos e humilhações, o herói é alheio, como que por instinto, ao credo nazista defendido pela mãe e pelos familiares. Salva-lhe, de alguma forma, a convivência com discretíssimos insulares não nazistas; por conta destes, surge uma emblemática referência a “Moby Dick”. É na biblioteca da família que o menino saca a obra-prima de Herman Melville para emprestar ao vizinho também pré-adolescente e que, ao que parece, não por acaso, tem o mesmo prenome do escritor. Posteriormente, já lendo o livro em companhia do avô, o amigo teria ouvido deste a excitante e não pouco pertinente comparação: a Alemanha era como o baleeiro Pequod; e Hitler, o seu Capitão Ahab…
O naufrágio não tarda a se consumar: a Alemanha capitula, e Hitler, “o patife infernal”, para citar Thomas Mann, comete suicídio.
Quantas vidas, como a do jovem herói, não passaram pelo mesmo pesadelo! “Amrum” é um cronótopo, a ilha é um espaço-tempo para onde não devemos voltar!… Talvez por isso, apesar da infância ou por causa dela, esse título, tão exótico para tantos, tenha se imposto ao sentimento dos roteiristas.
Ao longo do filme, uma observação de “Moby Dick” parece flutuar no marítimo e oscilante cenário de Amrum: “Como todo o mundo sabe, a meditação e a água estão unidas para sempre”.
Amrum Dirigido por Fatih Akin
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