
Crime
Os brasileiros apontam, em pesquisas, que a violência é um dos grandes problemas do Brasil. Os candidatos à Presidência correram, por isso, para apresentar propostas capazes de convencer o eleitorado de suas intenções e dos meios efetivos para enfrentar o crime organizado. Nos últimos anos, o número de homicídios no Brasil vem declinando — uma queda de mais de 30% entre 2015 e 2025 —, mas ainda permanece muito alto: foram 40,7 mil vítimas de Mortes Violentas Letais Intencionais em 2025, depois de o país ter alcançado, em 2017, o nível mais elevado do período, com cerca de 64 mil homicídios. Mesmo assim, a sociedade percebe o crescimento das diversas faces da criminalidade, inclusive daquelas que não resultam em homicídios. A insegurança nas cidades, com as gangues do ouro e do celular, parece acentuar a percepção da violência até mais do que a atuação do crime organizado.
A violência no Brasil tem um enorme custo humano: vidas interrompidas pelos homicídios, perdas irreparáveis e inaceitáveis, sofrimento e dor para milhares de famílias brasileiras. Além dessa tragédia humana, a criminalidade provoca um elevado custo social, expresso na restrição à liberdade de circulação nas cidades, na angústia, no medo, na insegurança e nas tensões que afetam as relações humanas na sociedade.
A criminalidade tem também um alto custo econômico, com enorme desperdício de recursos humanos e financeiros, comprometendo a competitividade da economia, inibindo investimentos e dificultando o crescimento econômico do Brasil. Os altos índices de violência afugentam investimentos e expulsam empresários, trabalhadores qualificados e jovens talentos. Também retiram brasileiros do mercado de trabalho, reduzem a produtividade e comprometem a competitividade da economia.
Os homicídios representam capacidades humanas perdidas. Quase 90% das vítimas de homicídio — 89,7%, em 2024 — são brasileiros em idade ativa, em plena capacidade produtiva, sendo metade das vítimas formada por jovens entre 18 e 29 anos. O Brasil perde no presente e mata o futuro.
O país também desperdiça capacidades humanas quando mantém mais de 964 mil brasileiros privados de liberdade, pessoas em idade produtiva afastadas do mercado de trabalho. É quase um milhão de brasileiros presos. Para enfrentar a criminalidade, incluindo a manutenção do sistema prisional, o Estado mobiliza cerca de 400 mil pessoas nas Polícias Militares, às quais se somam mais de 588 mil profissionais atuando como vigilantes privados, em 2026. Entre presos e brasileiros ocupados diretamente com a segurança pública e privada, são quase dois milhões de pessoas afastadas de outras atividades produtivas.
Como resposta à insegurança pública, o governo e a sociedade também despendem elevados volumes de recursos para se proteger da violência, recursos que deixam de ser alocados em investimentos e na oferta de outros bens e serviços públicos. Os custos para proteger famílias e empresas da criminalidade encarecem a atividade produtiva e reduzem a produtividade.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública calcula que o Estado brasileiro, nas três esferas de governo, gastou R$ 159,8 bilhões com segurança pública em 2025, sendo R$ 18 bilhões correspondentes à União. Somadas às despesas públicas todas as demais perdas econômicas provocadas pela criminalidade — incluindo segurança privada, seguros e perdas materiais, custos judiciais, perda de capacidade produtiva e serviços médico-terapêuticos —, o Brasil desperdiça cerca de 4,38% do PIB, segundo estimativa do Centro de Liderança Pública (CLP), com dados referentes a 2015.
Embora o crescimento medíocre da economia brasileira nas últimas décadas — apenas 2,3%, em média, ao ano ao longo deste século — não possa ser atribuído à violência, é evidente que a insegurança pública contribui para esse baixo desempenho. O Fundo Monetário Internacional afirma que a insegurança gera instabilidade econômica, que, por sua vez, realimenta a criminalidade e a violência, formando um círculo vicioso que sufoca o Brasil.
O crescimento medíocre da economia brasileira contribui para a persistência da baixa renda, da precariedade do emprego — expressa também na elevada informalidade — e da pobreza, apesar dos programas de transferência de renda. Não se pode esquecer, ainda, que o Brasil tem quase 9 milhões de jovens que nem trabalham nem estudam, o que representa um enorme desperdício de capacidades humanas e, além disso, pode ampliar a vulnerabilidade desses jovens à atração exercida pelo crime organizado.
Em estudo realizado para a América Latina, o FMI considera que uma redução da criminalidade até o patamar médio mundial — 5,8 homicídios por cem mil habitantes — poderia adicionar cerca de 0,5 ponto percentual ao crescimento anual da região. A taxa de homicídios do Brasil chegou, em 2025, a 19,1 por cem mil habitantes, mais de três vezes superior à média mundial.
Entre 2015 e 2025, houve uma redução de 34% na taxa de homicídios do Brasil. Considerando as conclusões do estudo do FMI, essa queda deve ter contribuído, ainda que modestamente, para o crescimento do PIB brasileiro. Para o futuro, a economia do país poderá ser impulsionada se a taxa de homicídios continuar caindo e se aproximando da média mundial.
Entre os vários componentes de uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil, o declínio da taxa de homicídios constitui, portanto, um desafio a ser enfrentado pelo futuro presidente da República, para além das formulações e promessas de campanha.
Reduzir a criminalidade significa poupar vidas, sofrimento e medo. Significa também liberar capacidades humanas e recursos para produzir, investir e crescer. Segurança pública, portanto, não é apenas uma questão policial ou social: é também uma condição para o desenvolvimento econômico do Brasil.
Muito interessante essa abordagem econômica da criminalidade – a principal preocupação do brasileiro atualmente.
O economista J. Jatobá escreveu artigo sobre tema similar, nesta Revista.
Guardei ambos para consultas futuras.
Muito bom, Mestre Sérgio!
Excelente artigo. Tema da maior relevância que a sociedade e o Estado brasileiro não têm sabido enfrentar. E quanto mais tarde adotam-se as medidas eficientes mais prejuízos provocam a criminalidade e mais custosa em vidas e recursos financeiros.