Javier

Javier

Nada como um grande escritor com um bom desafio literário pela frente. No caso, o de escrever um livro sobre uma viagem papal ao “fim do mundo”… O grande escritor é o premiado espanhol Javier Cercas, cuja versatilidade faz com que transite do romance à crônica e do ensaio à tradução. O papa da viagem é Francisco, falecido há um ano e que teve uma trajetória singular e carismática, capaz de galvanizar contra si a fúria dos conservadores, dentro e fora da Igreja Católica. Finalmente, o “fim do mundo” é a pobre e esquecida Mongólia, espremida entre as não por acaso sempre lembradas Rússia e China.

Em “O louco de Deus no fim do mundo” (tradução de Joca Terron), Cercas logo nos avisa que vai misturar os gêneros textuais e literários, e o faz com hábil domínio técnico, conferindo a graça metafórica de um excelente escritor ao hibridismo que passamos a frequentar: o da crônica, o do ensaio, o do relato de viagens, o das entrevistas jornalísticas, o da autobiografia, “tudo junto e misturado”!

Cercas, não sendo evidentemente um vaticanista nem tendo a obrigação de cobrir a viagem papal, não esconde as emoções que o assediam e tem (dentre outros) um explícito propósito: o de interrogar o papa sobre a vida eterna e a ressurreição da carne. Biograficamente, a pergunta é fundada na fé tão sincera quanto inabalável de sua própria mãe, de quem sempre ouviu que se encontraria com o falecido marido na vida eterna. Aqui é preciso dizer que o escritor é abertamente ateu e anticlerical, “um racionalista contumaz”, “um ímpio rigoroso”, embora não seja, obviamente, um absoluto leigo em termos religiosos. Eis, digamos assim, a matéria conflituosa sobre a qual giram os grandes e variados temas que perpassam o livro.

“O louco de Deus no fim do mundo” é literalmente Francisco, que logo será acompanhado, como diz Cercas de si mesmo, pelo “louco sem Deus”, escritor que, desde adolescente, perdeu a fé. Ironicamente, é o Vaticano que o convida a participar da viagem papal à Mongólia em 2023 (dois anos antes do fim do papado franciscano) e a escrever um livro sobre ela. Não se deve esquecer que Francisco foi um papa que amava as artes, a ciência e a literatura. A condição “romanesca” e “sine qua non” que Cercas impõe ao aceite é que esteja a sós com o papa para, “tête à tête”, questioná-lo se existe a vida eterna e a ressurreição da carne tal como se lê na famosa oração do “Credo”. Como bom ficcionista, embora encontre-se a sós com o papa no voo de ida para o país asiático, o escritor deixa a resposta de Francisco para o finalzinho do livro, quando a transmite fielmente tanto a nós, leitores, como à sua fervorosa mãe. (Não darei “spoiler”!)

Uma pergunta de caráter escatológico a um papa parece simples e comum. Mas  não o é. Porque, na prática, como vemos na mídia, o papa é apenas questionado sobre problemas políticos ou de costumes, a exemplo de pautas relacionadas a guerras, fome, sexualidade, etc. Como livro que mostra alguns bastidores da Igreja e onde ouvimos as vozes de vários especialistas, “O louco de Deus no fim do mundo” aponta que, em se tratando do papa e, em particular, de Francisco, essas pautas mundanas não refletem o que está “submerso”, a exemplo de sua devoção religiosa, de seu zelo de pastor e de sua postura espiritual. Sendo chefe de Estado do menor país do mundo, o Vaticano, o papa é como que atraído pela mídia para falar sobre pautas sempre menos metafísicas e teológicas e mais pragmáticas e políticas.

Em três grandes partes, o livro de Cercas pode ser dividido: os preparativos no Vaticano para a viagem, quando o autor trava relações com altos funcionários e diversos clérigos que o “instruem” e o familiarizam com a cúria romana; a viagem em si mesma (compartilhada, claro, com a comitiva papal e vários jornalistas); e um desfecho, quando então sabemos o que Francisco lhe falou no avião. Já o escritor dividiu a obra da seguinte forma: “Em busca de Bergoglio”; “Os soldados de Bergoglio”, “O segredo de Bergoglio” e um “Epílogo”. Não há dúvida, assim, de que Francisco é o grande e único protagonista da obra. Sem esconder uma grande admiração pela figura realmente ímpar do papa argentino (“Argentino, mas modesto”, como estampou um jornal colombiano logo após sua eleição), Cercas, em sua extensa relação com editores católicos, cardeais, padres, missionários e jornalistas do entorno do papa, vai como que gradativamente nos aproximando da multifacetada personalidade de Francisco e do modo como governou a Igreja. O livro dos dois “loucos” é um livro de perguntas, de ironias, de dúvidas, de revelações. Dentre tantas revelações, o porquê de o papa ter então escolhido a Mongólia, que só se compreende melhor pelo seu amor a uma Igreja missionária, periférica e militante,  pois logo ficamos sabendo que sempre deu preferência, em suas visitas internacionais, a países  por assim dizer esquecidos e pobres, mas ricos de um cristianismo vigoroso e primitivo.

Para concluir esta breve resenha, trago um pequeno senão. Penso que à obra faltou um melhor “editing”, o que evitaria certas repetições e suas quase quinhentas páginas!… A essa exceção técnica, “O louco de Deus no fim do mundo” é livro que agrada a céticos e leigos como o é o caso de seu próprio autor e, como previsível, também agrada à extensa e variada família eclesial, tão planetária quanto heterogênea e que, com pecados, omissões e uma civilizatória máquina de arte, de ideias e obras, vai atravessando os séculos. Ao fim e ao cabo, temos a sensação de que a encomenda saiu melhor que o esperado pelo próprio Vaticano, reunindo marketing (!), visão católica, cultura geral e uma complexa visão humanística que só um grande escritor como Javier Cercas poderia transmitir.