
Camus
“A verdade é que nosso país ficou louco. Seus planos são selvagens”
Eurípides, poeta grego (século V, a.C.).
Os Estados Unidos estão em queda. Criaram instituições políticas importantes. Como o sistema Federativo. Em 1778. Lutaram pelos direitos civis. Botaram os negros sentados nos ônibus. Inventaram as melhores universidades do planeta. Desenvolveram raras tecnologias. Construíram belos museus. Apresentaram o sonho de reconhecidos poetas. Fortaleceram o soft power. A música. Ah, Cole Porter !. E conseguem preservar, até agora, a liberdade de imprensa.
Por isso, é uma pena. O meticuloso trabalho de destruição cotidiana levado a efeito, lá. Com repercussão no mundo todo. Tudo que for inteligente (e ligado ao humano) está sendo derruído. Portanto, é hora de lançar um olhar. Didático. Para a prima mais velha: a Europa. E, nela enxergar o humanismo. E, nele, figura exemplar. Humanística. Um franco-argelino. Albert Camus (1913-1960). Vencedor do Nobel de literatura de 1957. Que, ao saber da premiação, modesto, disse: “Mas, o Sartre é que devia ganhar”.
O professor Robert Meagher (Massachusetts) acentuou que as crises são pontos de inflexão agudos (Camus e a crise da humanidade, Amat editorial, Barcelona, 2022). E que sua superação depende da energia da humanidade. Em função do vínculo comum que nos define, como espécie. É o que Camus chamava de luta amorosa pela vida. A estadunidense, Susan Sontag, escreveu que Kafka desperta lástima; Joyce, admiração; Gide, respeito; e nenhum escritor moderno, salvo Camus, desperta amor”.
Em célebre discurso pronunciado em Nova York, em 1946, Camus destacou que “o principal problema do momento é o impacto desumanizador da burocracia e a hegemonia da política”. E ressaltou: “O senso moral em nossa sociedade é monstruosa hipocrisia”. Mais adiante, declarou: “O que é felicidade ? É a harmonia entre um homem e a vida que leva”. No final dessa fala, ele disse: “Tenho uma visão pessimista do mundo. E um profundo otimismo pela humanidade”.
Camus compartilhava posturas políticas com o ex-ministro da Cultura da França, André Malraux. Inclusive em relação ao fascismo. E à ditadura de Franco, na Espanha. Malraux, também grande intelectual, pregava que “a única resposta ao mal absoluto é a fraternidade”. Na prática, o que Camus mais admirava na sociedade era a decência humana. Para ele, não se tratava de converter as pessoas. E fazê-las decentes. Trata-se de formar um caráter moral. Pela educação. Pelas decisões, habituais, que tomamos. Decência é hábito vivido.
Como mencionou o prof. Meagher, Camus não organizou movimento político. Nem exerceu governo. Pode-se dizer, no grau de licença poética, que ele fundou uma cidade do espírito. Uma urbe de ideias. E palavras. Sem existência real, republicana. Mas, que ajuda a manter o que é propósito humano em nós. Se a sabedoria está na memória, O Homem rebelde, de Camus, fixa o perfil de nossa humanidade integral. E tudo o que devemos a ela.
Ao aceitar o Nobel, Camus inseriu relevância em seu discurso. Disse que focaria duas tarefas que constituem a grandeza de seu ofício: o serviço da verdade e o serviço da liberdade. Ele o fez. Enquanto pode. Enfrentando crises que afetam a humanidade. Rupturas do vínculo humano. E desencontros de nossa humanidade comum.
Belo artigo. E triste. Vale recordar Albert Camus. Quando tudo parece de ponta cabeça, lembra a decência, a mais básica decência humana. Não cometer maldade. Reli “A Peste” durante a pandemia da Covid. Lá no fundo sobra a decência: em Albert Camus e em George Orwell dos ensaios de jornalista.