
Thomas Mann
O conto “Gladius Dei” já traz a marca de um escritor que se tornaria canônico. Nascido em 1875, Thomas Mann, de quem este ano se vem celebrando o sesquicentenário, andava na casa dos 27 anos quando o escreveu, e trago esse registro etário tão somente para realçar sua genialidade, contrapondo sua juventude de então à maturidade literária já alcançada. Não esqueçamos que “Os Buddenbrook” foi escrito quando contava 25 anos. No Brasil, “Gladius Dei” encontra-se em “Os famintos e outras histórias”, publicado em 2000, com tradução da escritora Lya Luft.
Suponho pertinente a estes apontamentos evocarem um dos mandamentos mais populares do Decálogo Mosaico. Refiro-me a: “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão”. É razoável imaginar que tal disciplinamento é fruto de um contexto histórico em que predominava justamente o contrário: o uso e o abuso de, por assim dizer, fazer de Deus um banal e frequente escudo pessoal ou político. Guardadas as devidas diferenças históricas, também é plausível imaginar que esse uso nunca caiu em desuso. Isso propõe tremendas questões e me lembra uma palavra aparentemente paradoxal do teólogo suíço Karl Barth: “A religião é a ausência de fé; a preocupação do homem sem Deus”.
O tema é árduo e extenso, e não preciso dizer que me falta competência para abordá-lo. Quem fala, como fala, por que fala e para quem fala em nome de Deus? Quem o emprega como argumento de autoridade? Quem vulgariza o nome de Deus? O mandamento é tão permanente quanto a sua continuada violação. Noutras palavras, é atualíssimo, sobretudo se, como na ficção de Mann, está em jogo uma fundamentação tão mítica quanto mística, dependendo da lente pela qual se olhar. É claro que “Gladius Dei” é intencionalmente atravessado por uma ambiguidade que tem como alvo inquietar o leitor. E esse leitor, antecipo, não achará no conto qualquer explicitude, qualquer incontinência narrativa. Uma vez exposto o singelo enredo, entender-se-á por que a evocação do conhecido mandamento mosaico.
Não obstante o onisciente narrador agir por sugestões e acréscimos de sentido, o título “Gladius dei” não deixa dúvida. O emprego do latim pelo autor reforça o eixo místico de uma simples leitura. À simplicidade do enredo, contrapõe-se um rol de reiteradas sutilezas. Noto que o narrador parte de uma luz comum e inicial, que a primeira frase do conto já sintetiza: “Munique estava radiante”. Com efeito, o dia é claro e azul, e sob o céu, havia uma multidão festiva, inclusive com muitos jovens transitando pelas ruas cheias de arte, alegria e exuberância. Ruas repletas de arte, de artesanato, de vitrinas expondo antiguidades, esculturas, preciosidades, livros antigos e modernos, retratos de poetas, filósofos, músicos e atores. Munique está em festa e nela, ressalta o narrador, “As artes florescem, as artes imperam, as artes estendem sobre a cidade seu cetro enfeitado com guirlandas de rosas”. Será esse cetro florido, metáfora simbólico-visual, que sofrerá uma metamorfose, transformando-se, ao final, na “espada de Deus sobre a Terra”…
Após o luminoso “plano geral” que pobremente resumi, o narrador introduz o taciturno personagem do jovem Jerônimo. Seu nome, claro, não é casual: não só remete a São Jerônimo, tradutor e intérprete da Bíblia, como à sua etimologia grega: “nome sagrado”). Esse jovem marcha num contrafluxo “espiritual” e, por isso, “Vê-lo era como ver uma sombra diante do sol, ou sentir a lembrança de uma hora amarga recobrir a alma. Ele não iria amar o sol que mergulhava, em sua luz constante, a bela cidade?”. Ele é católico (como aliás já sugere seu nome), entra numa igreja e se benze com água benta. Ao sair, voltando à caminhada, depara-se, numa das inúmeras vitrinas de arte, com um “quadro chamativo”, “uma criação moderna”, que o narrador assim descreve: “O vulto da Santa Mãe era de uma encantadora feminilidade, bela e reveladora. […] Os dedos estreitos, nervosos, seguravam o quadril do filho, um menino despido […] que brincava com o seio dela e olhava de lado para os assistentes”. Jerônimo não deixa de ouvir que alguns rapazes se referem ao quadro de uma maneira sensual e lasciva: “Que mulher!” […] Uma mulher para deixar a gente louco! E se começa a duvidar um pouco daquele dogma da Imaculada Conceição…”. Um dos rapazes comenta que o artista, um morador da cidade, teria usado a própria criada como modelo, arrematando: “A mocinha é mais inocente do que isso aí”. (Mann, como se sabe, trouxe da famosa pintura “O pecado”, de Franz von Stuck, a inspiração para o quadro de seu conto). Quanto a Jerônimo, crispado e tenso, contempla silenciosa e sombriamente a imagem por longos quinze minutos…
Por vários dias, a pintura obsessiona o rapaz. Numa noite atormentada em que, mais uma vez, lhe volta a imagem da Madona, recebe um chamado “do Alto” para “erguer sua voz contra aquele insulto ao Belo”. Nesse momento, o narrador nos diz que Jerônimo, “à semelhança de Moisés, protestou não ter o dom da palavra; [mas] a vontade de Deus permaneceu inabalável” e, assim, pela manhã voltou à loja do lascivo quadro… E pede ao dono do estabelecimento que retire imediatamente a pintura e… “para sempre”! Até o avisam, em vão, de que o Estado (um detalhe significativo) havia comprado a obra. Em vão. Em sua ira santa, intransigente, nada o demove diante dos “ímpios” comerciantes. A cena se estende em diálogos ásperos, patéticos e tensos…
Finalmente, expulso à força da indecente loja, vê que se erguera no céu uma tempestade prestes a desabar e uma “larga espada de fogo, estendida sobre a alegre cidade”. Não há mais o céu limpo, claro e azul do início da narrativa, mas um denso nevoeiro e uma apocalíptica espada de Deus sobre a Terra, e esta visão mais irreal e subjetiva do que real e coletiva está longe de ser um ponto-final, não pelo menos para a polissemia do texto. Será antes, se me permitem o pleonasmo, o prenúncio talvez do que estava por vir. Obra-prima manniana, “Gladius dei” é uma torre de reflexão fincada à porta do trágico século 20. Nos dias atuais, outros sombrios Jerônimos, em nome de Deus, continuam a receber “do Alto” uma “missão” semelhante: a da destruição…
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